Julia Castro, Internacionalista formada pela UNAMA. 

Ficha Técnica:

Ano: 2014 – 2016

Criador: John Logan

Distribuição: Showtime, Sky Atlantic

Gênero: Horror, Drama

Países de Origem: Reino Unido, Estados Unidos

Criada e produzida por John Logan, a série Penny Dreadful reúne personagens icônicos da literatura gótica, como Drácula, Victor Frankenstein, Dorian Gray, Van Helsing e a criatura de Frankenstein. A trama aborda questões como identidade, exclusão social, religião, sexualidade e a batalha entre o bem e o mal, criando uma narrativa caracterizada pelo terror psicológico e pela profundidade de seus personagens (AdoroCinema, 2014).

Situada na Londres vitoriana do final do século XIX, a história acompanha Vanessa Ives, uma médium atormentada por forças sobrenaturais e dilemas internos, que se junta ao explorador Sir Malcolm Murray e ao enigmático pistoleiro Ethan Chandler em uma arriscada missão contra ameaças ocultas que desafiam a ordem natural. Paralelamente, a série investiga as histórias de personagens marginalizados que buscam incessantemente por pertencimento (Wagner, 2017).

John Clare, a criatura criada por Victor Frankenstein, sofre com a rejeição e o preconceito de uma sociedade que não reconhece sua humanidade, ao passo que Dorian Gray personifica a busca constante pelo prazer, pela juventude eterna e pela negação das repercussões morais de suas ações. Durante a trama, tanto monstros quanto humanos demonstram ser igualmente frágeis, fazendo com que a série desafie as fronteiras entre civilização e barbárie (Wagner, 2017).

Embora a série seja frequentemente analisada a partir de perspectivas literárias e psicológicas, ela também aborda reflexões relevantes para o campo das Relações Internacionais (RI), especialmente sob o viés da Teoria Pós-Moderna. O pós-modernismo nas RI emergiu como uma resposta crítica às teorias convencionais que procuravam entender a política global por meio de verdades universais e objetivas (Sarfati, 2005). 

De acordo com Michel Foucault, o poder não se manifesta apenas por meio da repressão, mas também por meio da criação de discursos que definem regimes de verdade e estabelecem padrões de normalidade (Foucault, 1988). A série retrata uma sociedade vitoriana que impõe limites claros entre o que é civilizado e monstruoso, criando mecanismos de exclusão para aqueles que não se conformam com as normas predominantes (Foucault, 2014).

Ao desafiar essas normas, os protagonistas são constantemente marginalizados, o que demonstra como os mecanismos de poder atuam na formação de identidades e na exclusão de indivíduos que não se encaixam nos padrões predominantes. Portanto, a narrativa mostra que a monstruosidade não é uma qualidade intrínseca aos indivíduos, mas uma categoria criada socialmente e mantida por discursos de poder.

A trajetória da criatura de Victor Frankenstein retrata esse processo de forma significativa. Embora mostre anseio de pertencimento, ele é frequentemente reduzido à condição de monstro por não atender às regras estabelecidas pela sociedade. Essa representação se relaciona com a concepção foucaultiana de que a exclusão do ser não resulta apenas de sua aparência, mas da construção discursiva que o coloca como o “outro” na estrutura social (Lazzarin, 2007).

Em síntese, ao questionar verdades consolidadas e apresentar personagens complexos que desafiam categorias rígidas, a obra televisiva destaca o papel do poder na formação das dinâmicas sociais. Por fim, Penny Dreadful transcende as fronteiras do gênero do horror e se transforma em uma reflexão significativa sobre poder e subjetividade, que são temas fundamentais tanto para a obra de Foucault quanto para as Relações Internacionais.

REFERÊNCIAS

ADOROCINEMA. Penny Dreadful. 2014. AdoroCinema. Disponível em: https://www.adorocinema.com/series/serie-11787/. Acesso em: 04 jul 2026 

FOUCAULT, Michel. História da sexualidade I: a vontade de saber. Rio de Janeiro: Graal, 1988.

FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: nascimento da prisão. 42. ed. Petrópolis: Vozes, 2014.

WAGNER, Izabel. Penny Dreadful | crítica. Estante Diagonal. 2017. Disponível em: https://www.estantediagonal.com.br/2017/10/penny-dreadful-critica.html. Acesso em: 5 jul. 2026.

LAZZARIN, Joel Felipe. Os dispositivos de poder e a construção da subjetividade do excluído em Michel Foucault: implicações jurídicas e desafios sociais. 2007. Dissertação (Mestrado) – Universidade do Vale do Rio dos Sinos, São Leopoldo. Disponível em: <http://www.repositorio.jesuita.org.br/handle/UNISINOS/2027&gt;.

SARFATI, Gilberto. Teorias de Relações Internacionais. São Paulo: Saraiva, 2005.