
Por Caira Queiroz, acadêmica do 8° semestre de Relações Internacionais da UNAMA
Ao longo da história, a distribuição de poder no sistema internacional esteve associada ao controle de recursos estratégicos. Se durante grande parte do século XX esse poder se manifestava por meio da força militar, do desenvolvimento industrial, que ampliou a importância dos recursos econômicos e produtivos como elementos centrais das disputas internacionais e dos meios de comunicação de massa, a globalização ampliou a importância das redes e dos fluxos informacionais como instrumentos de influência (CASTELLS, 2007).
No século XXI, a ascensão da inteligência artificial inaugura uma nova etapa desse processo ao transformar sistemas algorítmicos em elementos centrais da produção, organização e circulação do conhecimento, reconfigurando as relações entre informação, tecnologia e poder. E é perceptível o quanto essas novas tecnologias, já consideradas como as mais fascinantes e revolucionárias da atualidade, se tornaram extensões dos indivíduos da contemporaneidade, impactando as várias esferas da sociedade, desde pessoal, social e até internacional/governamental.
Porém, essa presença crescente das IAs não surgiu de forma repentina, ela faz parte de um processo histórico mais amplo de transformação. E para compreender o papel delas na atualidade, é necessário entender primeiro como tais evoluíram à importância que são hoje, estando em todo lugar, e como ainda podem moldar diferentes aspectos da sociedade.
Segundo Barbosa e Bezerra (2020), embora o primeiro termo “Inteligência artificial” tenha sido denominado em 1956, por John McCarthy durante a conferência de Dartmouth, ao tentar mostrar que computadores poderiam realizar tarefas consideradas “inteligentes”, sua origem remonta a 1943, quando Warren McCulloch e Walter Pitts criaram o primeiro modelo computacional de redes neurais, uma descoberta base para o funcionamento da IA moderna.
Mesmo com o declínio relacionado aos estudos sobre as IAs nos anos 70, o tema reacendeu com força nos anos 90, quando a tecnologia começou a sair dos laboratórios e encontrar aplicações no mundo real, onde seus sistemas passaram a aprender com dados em vez de dependerem exclusivamente de regras programadas. Já no início da década de 2010, surgiu a IA generativa, uma evolução das redes neurais que não apenas analisa e classifica dados, mas também cria. Em 2022, ela se popularizou globalmente principalmente pelo Chat GPT (SOUSA, 2023).
Ou seja, como bem pontuam Shimabukuro e Lima (2025), a trajetória da IA se destaca pelo objetivo contínuo de fazer com que máquinas adquirirem capacidades similares ao de pessoas da vida real, tendo uma estrutura também que remetesse ao funcionamento baseado no cérebro de um ser humano.
Conforme argumenta Iona Szkurnik (2025), o problema não é a presença da IA em si, mas a naturalização da crescente dependência desses sistemas e das estruturas que os sustentam. Diferentemente dos mecanismos tradicionais de busca, que direcionam os usuários para múltiplas fontes de informação, as inteligências artificiais assumem uma posição intermediária e delimitada entre o conhecimento e seus consumidores.
Nesse processo, a IA não apenas facilita o acesso à informação, mas também influencia quais conteúdos serão priorizados, quais perspectivas serão mais visíveis e quais conhecimentos terão mais alcance, possibilitando, por sua vez, o aumento da dependência dos usuários em relação a estes sistemas.
Essa transformação torna-se particularmente relevante quando observada sob a perspectiva das Relações Internacionais. A disputa pelo desenvolvimento, controle e governança desses sistemas passa a representar também uma disputa por poder, uma vez que a capacidade de organizar e mediar o conhecimento pode influenciar percepções, processos decisórios e relações de dependência no sistema internacional.
Além disso, a emergência dessa nova reconfiguração ocorre em um contexto marcado por profundas assimetrias de poder. A capacidade de desenvolver modelos avançados de inteligência artificial, controlar infraestrutura computacional, produzir semicondutores de alta performance e estabelecer padrões tecnológicos permanece concentrada em um número reduzido de atores estatais e corporativos (STANFORD, 2026).
Dessa forma, a IA deixa de ser apenas uma inovação tecnológica e passa a constituir mais um recurso estratégico inserido nas disputas contemporâneas por liderança, influência e poder no sistema internacional. Ou seja, a corrida em torno do desenvolvimento, controle e governança da inteligência artificial tornam-se parte das novas disputas por poder na ordem internacional contemporânea.
Dentre os diversos pensadores que influenciaram a Teoria Pós-Moderna nas Relações Internacionais, as formulações foucaultianas (1996) mostram-se particularmente pertinentes para analisar este assunto, uma vez que permitem compreender como o conhecimento é produzido, legitimado, controlado e instrumentalizado como poder.
Se, para Foucault, os regimes de verdade determinam quais discursos são reconhecidos como legítimos (SOUZA, 2016, p. 10), então é pertinente questionar como as inteligências artificiais, ao selecionar, organizar e apresentar informações, podem participar da reprodução ou da construção de novos regimes de verdade no ambiente digital. Ou seja, o poder opera não apenas por meio da força, mas também pela capacidade de produzir discursos, estabelecer normas e moldar percepções sobre a realidade, tornando- se um elemento estratégico das disputas contemporâneas por poder e influência no sistema internacional.
Com essa nova relação entre a representação e a realidade, sendo denominado até como novo conceito emergente chamado “hiper-realidade” de Baudrillard, vale a pena também destacar as contribuições de Der Derian, o qual buscou entender como uma determinada realidade é produzida e como ela cria as condições de possibilidade de estruturas, interesses e políticas (SARFATI, 2005).
Em “Virtuous War/Virtual Theory” (2000), o crítico aborda como a nova forma de fazer guerra está associada ao desenvolvimento tecnológico e de como o mundo está “entrando em uma imersão virtual amplificada digitalmente” (DERIAN, 2000). Ou seja, as IAs entram como novos recursos estratégicos do sistema internacional agora num campo digital, onde os Estados disputam uma corrida de quem as desenvolve, controla, legisla primeiro, seja para avanço ou até mesmo proteção da sua própria soberania.
Portanto, conclui-se que, a inteligência artificial deixou de ser um conceito futurista; ela se tornou discretamente uma parte constante da vida cotidiana e tornou-se um novo recurso de poder entre Estados no sistema internacional. Compreendê-las a partir das contribuições destes autores possibilita analisar essa tecnologia como um novo fenômeno que está configurando as relações entre conhecimento e poder, tornando-se um elemento estratégico nas disputas contemporâneas no sistema internacional pelo seu controle.
REFERÊNCIAS
BARBOSA, Xênia de Castro; BEZERRA, Ruth Ferreira. BREVE INTRODUÇÃO À HISTÓRIA DA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL. Jamaxi, UFAC, ISSN 2594-5173, v. 4, n. 2, 2020.
CASTELLS, Manuel. Communication, power and counter-power in the network society. International Journal of Communication, Los Angeles, v. 1, p. 238–266, 2007. Disponível em: International Journal of Communication https://ijoc.org/index.php/ijoc/article/view/46 – artigo de Manuel Castells.
DER DERIAN, James. Virtuous War/Virtual Theory. Royal Institute of International Affairs, 2000.
FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso. São Paulo: Loyola, 1996
SARFATI, Gilberto. Teorias de Relações Internacionais. São Paulo: Saraiva, 2005.
SHIMABUKURO, Igor; LIMA, Lucas. História da inteligência artificial: quem criou e como surgiu a tecnologia revolucionária. Tecnoblog, 2015. Disponível em: https://tecnoblog.net/responde/historia-da-inteligencia-artificial-quem-criou-e-como-surgiu-a-tecnologia-revolucionaria/. Acesso em 24 de mar. 2026.
SOUZA, Alex. Inteligência Artificial — Uma breve história. Medium, 2023. Acesso em https://medium.com/blog-do-zouza/intelig%C3%AAncia-artificial-uma-breve-hist%C3%B3ria-51ddbac7a3ae. Acesso em 23 de mar. de 2026.
SOUZA, Joelmar Fernando Cordeiro de. Regimes de verdade em Michel Foucault: aparição e gênese de um conceito. Dissertação (Mestrado em Filosofia) – Programa de Pós-Graduação em Filosofia, Universidade de Brasília, Brasília, 2016. Disponível em: https://repositorio.unb.br/bitstream/10482/21055/1/2016_JoelmarFernandoCordeirodeSouza.pdf
STANFORD UNIVERSITY. AI Index Report 2026. Stanford, CA: Stanford Institute for Human-Centered Artificial Intelligence (HAI), 2026. Disponível em https://hai.stanford.edu/ai-index/2026-ai-index-report. Acesso em: 22 mar. 2026.
SZKURNIK, Iona. Quando a Inteligência se Torna Poder: o Futuro nas Mãos de Quem Controla os Sistemas. Forbes, 2026. Disponível em: https://forbes.com.br/colunas/2026/01/iona-szkurnik-quando-a-inteligencia-se-torna-poder-o-futuro-nas-maos-de-quem-controla-os-sistemas/. Acesso em 14 de abr. 2026.
