Foto: Federação das Indústrias do Estado do Pará (FIEPA)

Prof. MSc. Eduardo Oliveira – Internacionalista formado pela UNAMA

A análise das dinâmicas globais contemporâneas exige ferramentas teóricas capazes de decifrar como economias regionais se inserem em processos internacionais complexos. No campo das Relações Internacionais, a perspectiva Neoliberal oferece um contraponto essencial às visões puramente focadas no poder militar ou no isolamento estatal. 

Nye e Keohane (1977) aprofundaram essa abordagem ao formularem o conceito de interdependência complexa, demonstrando que as dinâmicas globais são caracterizadas por múltiplos canais de conexão que interligam sociedades e governos. Nesse cenário, o comércio internacional deixa de ser apenas uma ferramenta de ganho unilateral e passa a configurar um sistema em que as vulnerabilidades e sensibilidades das partes envolvidas estão intrinsecamente conectadas.

Sob a ótica da interdependência complexa, as decisões econômicas tomadas em Pequim ou Bruxelas, por exemplo, reverberam de forma imediata e profunda nos municípios paraenses, pois a ausência de uma hierarquia rígida entre os temas globais faz com que questões ambientais, fluxos financeiros e cadeias globais de suprimentos compartilhem o mesmo nível de relevância. Assim, a inserção de um território como a Amazônia no comércio global não ocorre de forma isolada, mas sim dentro de uma rede viva onde o local e o global se afetam mutuamente em tempo integral.

O Estado do Pará, segundo dados disponibilizados pelo Instituto Brasileiro de Mineração (2026, p.3), manteve-se como o segundo maior polo de mineração do Brasil. No entanto, a mera presença de grandes jazidas minerais em um território não se traduz automaticamente em desenvolvimento socioeconômico. Na verdade, a conversão desse potencial em benefícios reais depende da centralidade do setor na cultura exportadora do estado, condicionada a investimentos estratégicos em infraestrutura logística e à capacitação contínua da mão de obra local.

As potencialidades paraenses são historicamente expressivas e saltam aos olhos nos balanços da Secretaria de Comércio Exterior (SECEX) e do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços. (MDIC) apresentando superávits consistentes que auxiliam o próprio resultado macroeconômico brasileiro (BRASIL, 2026). O minério de ferro, por exemplo, extraído da região de Carajás abastece indústrias siderúrgicas globais, enquanto commodities agrícolas como a soja e a carne bovina encontram mercados consolidados na Ásia e na Europa (PINTO, 2024). A posição geográfica estratégica do Pará, com acesso facilitado ao Oceano Atlântico por meio de seus rios e portos, oferece uma rota natural mais curta para os mercados do hemisfério norte quando comparada aos portos das regiões sul e sudeste do país.

Por outro lado, os desafios para consolidar essa engrenagem são igualmente expressivos. O modelo exportador paraense ainda se concentra fortemente em produtos primários de baixo valor agregado. Essa forte dependência de poucos produtos deixa a economia local excessivamente exposta às oscilações de preços no mercado internacional. 

Além disso, o baixo número de indústrias integradas que transformem o minério bruto ou a produção agrícola dentro do próprio território faz com que grande parte da riqueza gerada seja exportada sem gerar empregos qualificados ou inovação tecnológica local.

A infraestrutura logística configura outro gargalo crítico que limita o avanço socioeconômico regional pois, embora o Pará possua hidrovias naturais expressivas, a falta de portos modernos plenamente integrados a redes ferroviárias e rodoviárias eficientes encarece o frete e diminui a competitividade dos produtores locais. 

As estradas frequentemente sofrem com a falta de manutenção adequada e os portos demandam investimentos urgentes em dragagem e tecnologia de ponta para suportar o fluxo crescente das exportações de forma ágil.

Também é verdade que o capital humano representa o elo mais sensível e urgente dessa engrenagem. A escassez de escolas técnicas voltadas ao comércio exterior e a falta de programas de capacitação industrial avançada fazem com que as grandes corporações importem profissionais de outros estados para cargos de alta gestão e especialização tecnológica. 

A população local muitas vezes fica restrita aos postos de trabalho operacionais de menor remuneração, o que aprofunda as desigualdades sociais históricas e impede que a riqueza do subsolo se transforme em qualidade de vida urbana e oportunidades reais para a juventude da Amazônia.

Ao conectar a realidade paraense com a teoria da interdependência complexa, fica evidente que o Pará cumpre um papel duplo no tabuleiro internacional. O estado é uma peça fundamental para garantir a segurança de suprimentos de parceiros internacionais como a China, mas paga um preço alto por sua vulnerabilidade econômica. Quando a demanda internacional por aço encolhe, cidades inteiras no interior paraense sofrem os impactos econômicos imediatos com demissões e redução na arrecadação de impostos municipais.

Essa vulnerabilidade demonstra que a interdependência nem sempre é simétrica. Os fluxos de comércio conectam os atores, mas o Pará se encontra na posição de provedor de matérias-primas e receptor de produtos manufaturados de alto valor gerados no exterior. Assim, a teoria neoliberal aponta que, para reverter essa assimetria, o poder público e a iniciativa privada precisam cooperar ativamente para criar instituições robustas e políticas públicas eficientes através da governança local, que deve utilizar as receitas geradas pelas exportações para financiar a transição em direção a uma economia do conhecimento.

O grande objetivo estratégico para o futuro do comércio exterior paraense reside em transformar a vantagem comparativa natural em uma vantagem competitiva construída. Isso significa aproveitar a inserção global consolidada para diversificar a pauta de exportações, integrando a bioeconomia e os produtos sustentáveis da floresta em pé às cadeias globais de valor. 

Somente com investimentos maciços em educação tecnológica e infraestrutura verde será possível fazer com que o dinamismo das exportações deixe de ser apenas um dado estatístico brilhante e passe a ser um motor real de transformação social para as pessoas que habitam o território paraense.

Referências:

BRASIL. Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços. Comex Stat: Consulta de dados gerais. Brasília: MDIC, 2026. Disponível em: https://comexstat.mdic.gov.br/pt/geral/156669. Acesso em: 24 jul. 2026. 

INSTITUTO BRASILEIRO DE MINERAÇÃO (IBRAM). Comércio Exterior do Pará: janeiro de 2019. Brasília: IBRAM, 2019. Disponível em: https://ibram.org.br/wp-content/uploads/2021/07/comex-pa-jan2019-2.pdf. Acesso em: 21 jul. 2026.

INSTITUTO BRASILEIRO DE MINERAÇÃO. Setor Mineral 1º trimestre 2026 – 1T26. Brasília: IBRAM, abr. 2026. Disponível em: https://ibram.org.br/wp-content/uploads/2026/04/Setor-Mineral-1o-trimestre-2026-%E2%80%93-1T26_.pdf. Acesso em: 24 jul. 2026.

KEOHANE, Robert O.; NYE, Joseph S. Power and interdependence. 4. ed. Boston: Longman, 2012.

MOTA, Gabriel da. Balança comercial do Pará fecha 2025 com saldo de US$ 21,5 bilhões. O Liberal, Belém, 19 mai. 2026. Economia. Disponível em: https://www.oliberal.com/economia/balanca-comercial-do-para-fecha-2025-com-saldo-de-us-21-5-bilhoes-1.1122978. Acesso em: 22 jul. 2026.

PINTO, Lúcio Flávio. Carajás era do Japão, agora é da China. Amazônia Real, 23 out. 2024. Disponível em: https://amazoniareal.com.br/carajas-era-do-japao-agora-e-da-china/. Acesso em: 24 jul. 2026.