
Ana Victória Padilha Carneiro e Gabrielle Nascimento (acadêmicas do 5° semestre de RI – UNAMA)
O fenômeno El Niño, originalmente nomeado assim por pescadores peruanos, ocorre pelo aumento da temperatura superficial das águas do oceano Pacífico e é responsável por provocar oscilações e precipitações climáticas intensas praticamente no mundo todo, como: chuvas e secas acentuadas, a perpetuação de grandes ondas de calor no seu apogeu e impactos diversos, principalmente no ano seguinte ao evento.
É um fenômeno natural recorrente, mas fortemente influenciado pelas mudanças climáticas induzidas pela ação humana (WMO, 2026). Desse modo, a Oscilação Sul do El Niño pode durar até 18 meses, e, conforme explicado no Global Seasonal Climate Update da WMO 2026, o rápido aumento significativo da temperatura na superfície do mar, no Pacífico equatorial, atesta o possível retorno desse fenômeno no trimestre de junho a agosto deste ano.
Em suma, alguns especialistas afirmam que os efeitos já estão em evidência principalmente nas regiões próximas à Linha do Equador, como é o caso da região Amazônica.
Uma das principais preocupações das entidades científicas e meteorológicas é que, neste ano, as oscilações climáticas associadas ao fenômeno, em conjunto com o aquecimento global agravado pelas elevadas emissões de dióxido de carbono (CO₂), intensifiquem seus efeitos, resultando em um “Super El Niño” e tornando-o um dos eventos mais intensos já registrados na história.
Essa preocupação se fundamenta nos impactos observados durante o El Niño iniciado em 2023, considerado o mais intenso e duradouro da última década. O fenômeno provocou severas alterações climáticas em diversas regiões do mundo e contribuiu para que 2024 fosse classificado como o ano mais quente já registrado no século XXI.
Esses fatores climáticos, aliados ao aquecimento global, poderão gerar em 2026 um El Niño comparável ao lendário Super El Niño de 1877-1878, que provocou grandes catástrofes para o clima global.
Segundo Davis (2001), esse evento climático catalisou secas severas, fome generalizada e fora responsável por dizimar cerca de 50 milhões de pessoas, número que correspondia a aproximadamente 4% de toda a população mundial da época. Por conseguinte, esse fenômeno histórico causou uma série de catástrofes macroestruturais generalizadas, principalmente, na América do Sul, e Ásia há quase dois séculos.
Entretanto, o lendário El Niño, não era o único “agente” que contribuiu para a calamidade pública global daquele período. Davis (2001) argumenta que a ausência de tecnologia agrícola e de uma “ingerência plena” por parte dos governantes proveniente do modelo político vigente, fez com que os extremos impactos estruturais desse evento climático fossem ainda mais catastróficos para as suas populações, instaurando uma crise humanitária de grandes proporções aos países.
Um caso emblemático foi o da China. O Estado Imperial entrou em uma paralisia logística gerando um grande colapso na sociedade do país, uma vez que, cidades inteiras perderam mais de 50% de seus habitantes por conta das secas severas, resultando na morte direta de até 13 milhões de chineses. A tragédia instaurada nas principais províncias estratégicas do Império fora marcada por suicídios em massa e surtos de canibalismo por conta da fome e miséria da população chinesa que ainda era predominantemente rural (Davis, 2001).
Além dos impactos observados na Ásia, os países sul-americanos também sofreram fortemente com esse fenômeno desastroso. Com base no artigo de Aceituno et al. (2009), é possível identificar que as precipitações climáticas do El Niño causaram inundações e chuvas intensas por toda a região costeira no Norte do Peru e Sul do Equador durante aproximadamente 15 meses, afetando a distribuição de água doce às cidades, sendo um agravante para um surto de febre amarela naquele período.
Assim, evidenciando o caso do Brasil, segundo Ruben Bauer Naveira (2026), no país, a chamada “Grande Seca do Império” causou 500 mil mortes por sede, fome e doenças. Esse número de óbitos representava 5,7% da população imperial, estimada em 11.406.105 de habitantes pelo Ipeadata daquele ano.
Entre os agravantes dos danos climáticos à população, destaca-se a gestão inadequada do Império. Em Fortaleza, por exemplo, a população quadruplicou com famílias desabrigadas pelo Super El Niño, sem infraestrutura para recebê-las. Esses migrantes climáticos, vivendo em moradias insalubres, contribuíram para o desencadeamento de surtos de varíola, que escalonaram a pior catástrofe da cidade.
Na ocasião, morreram tantas pessoas no dia 10 de dezembro de 1878 que, o dia mais caótico da crise sanitária da cidade ficou conhecido, como: “O Dia dos Mil Mortos”. Nesse contexto, a capital cearense virou um epicentro da epidemia de varíola e um cemitério a céu aberto. O Ceará, fora o estado mais afetado no Brasil pela “Seca Dos Três Setes” e nenhum outro evento na história do país provocara tamanho impacto (Firmo, 2018).
O professor Enner Alcântara (2026), destaca que o Brasil tem enfrentado eventos extremos nos últimos anos. Como Secas severas na Amazônia, enchentes no Sul, ondas de calor persistentes em diferentes regiões e incêndios florestais de grande proporção. Nesse sentido o fenômeno El Niño evidencia e intensifica problemas já existentes no país sul-americano.
Historicamente a região Norte do Brasil é uma das menos amparadas politicamente e economicamente, assim, os super eventos climáticos intensos e suas consequências como enchentes e secas evidenciam tal situação de desigualdade regional, e demostram como as populações menos favorecidas na sociedade enfrentam de forma mais severa os impactos causados pelas mudanças climáticas.
Para fins de comparação, Segundo Amazon Watch (2026), no super El Niño de 2024 mais de 17 milhões de hectares do bioma amazônico foram afetados por incêndios florestais causados pela ação humana e intensificados pelo fenômeno climático. Tal situação deixou milhares de povos indígenas, que têm o rio como forma de subsistência, isolados por conta das secas, impossibilitando, por exemplo, o acesso a alimentos e tratamentos de saúde.
Além disso, o aquecimento das águas representa uma ameaça direta à biodiversidade amazônica. Em 2023, de acordo com Castro (2024) em matéria WWF Brasil, os lagos Tefé e Coari, no Rio Solimões, interior do Amazonas, registraram a morte de 330 botos das espécies cor-de-rosa (Inia geoffrensis) e tucuxi (Sotalia fluviatilis) devido às altas temperaturas e estiagem influenciadas pelo El Ninõ.
Na Amazônia Legal, segundo o Instituto Nacional de Pesquisa Espacial (INPE,2026), o número de focos de incêndios de 1 de janeiro a 13 de maio é 51% maior do que no mesmo período do ano passado, sendo que entre 1 de janeiro até o início de 07 de julho é alvo de 32% dos focos de incêndio, ficando atrás apenas do cerrado que enfrenta 53,6%. Portanto, os dados demonstram que o bioma amazônico já é assolado por problemas ambientais que tendem a se intensificarem com o Super El Niño.
Diante desse cenário, a manifestação de tal fenômeno climático atrelado ao aquecimento global extremo e os graves problemas ambientais coloca em xeque as formas tradicionais de vida das pessoas e espécies que dependem da floresta e dos rios. Logo, para as populações ribeirinhas e indígenas insegurança hídrica e alimentar demonstram-se uma realidade recorrente diante de tais proporções.
Outro aspecto crítico é a produção, circulação e consumo de alimentos. Enquanto algumas regiões sofrem com secas prolongadas, outras enfrentam chuvas intensas e enchentes, comprometendo a agricultura, o que inclui a produção familiar, que é a base da alimentação de muitas comunidades.
De acordo com o Censo Agropecuário: Resultados Definitivos, do IBGE (2017), a agricultura familiar produz 23% do Valor Bruto da Produção Agropecuária, ocupando 23% das áreas dos estabelecimentos rurais e apresentando eficiência produtiva equivalente à do agronegócio.
O desequilíbrio causado pelo El Niño, atrelado a disputas geopolíticas globais que encarecem o petróleo e comprometem o fornecimento de fertilizantes, aumentam os custos logísticos e de produção o que, consequentemente, influencia na dinâmica dos preços de alimentos gerando uma inflação maior.
Segundo a matéria desenvolvida por Camargo (2026), a projeção do economista-chefe e sócio da G5 Partners, Luís Otávio Leal, aponta que a inflação brasileira deve atingir 5,3% em 2026, pressionada pelos efeitos do evento climático previsto para este ano.
Portanto, evidencia-se que a Amazônia atravessa um momento crítico, no qual a união de fatores climáticos e estruturais ameaçam levar o bioma para um ponto de não retorno. O Super El Niño de 2026, é um evento que, compromete a biodiversidade local, coloca em risco a sobrevivência física de populações tradicionais e, ao mesmo tempo, se converte em perdas econômicas significativas, afetando o custo de vida da população.
Por isso, a superação desse cenário exige não apenas ações emergenciais de monitoramento e resgate, mas também políticas públicas estruturantes e de longo prazo, que integrem a ciência, a gestão territorial e a justiça social como pilares para a sustentabilidade da Amazônia.
Diante do exposto, indica-se o Curta documentário “ Ponto de Não Retorno da Amazônia”, produzido pelo WWF-Brasil em 2024. A obra expõe relatos de cientistas, indígenas e coletores de sementes sobre a iminência do colapso e o impacto na vida de 47 milhões de pessoas, incluindo 511 grupos de povos indígenas, e 10% de toda biodiversidade do planeta.
Disponível em: <https://youtu.be/ZHcVL3gxQAU?si=-v5pfEdm6YUnAKH0 >.
Além disso, para aprofundamento do tema, destaca-se o trabalho do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), referência em modelagem climática e estudos do clima brasileiro. O site disponibiliza acesso as projeções e alertas de secas desenvolvidos pelo Instituto.
Instagram: <https://www.instagram.com/inpe.oficial?igsh=MWRiY215ZzZsd212OA== >.
YouTube: <https://youtube.com/@inpeoficial?si=UIIIC03uPqFydJqs >.
Por fim, indica-se também o trabalho da Amazon Watch, que monitora os impactos dos eventos climáticos extremos e do El Niño nas comunidades tradicionais e indígenas da Amazônia, além de alertar sobre o risco de colapso.
Instagram:<https://www.instagram.com/amazonwatch?igsh=YW93aXNqeXF0N2py >
YouTube: <https://youtube.com/@amazonwatch?si=BST9c12AJV-3IBu_ >
Site:<https://share.google/o7MiMFaZDVPdLnGAy >.
REFERÊNCIAS:
ALCÂNTARA, Enner. Perspectiva de El Niño intenso entre 2026 e 2027 chegou às manchetes. O Brasil está preparado? Jornal da Unesp, 2026. Disponível em: https://jornal.unesp.br/2026/05/26/perspectiva-de-el-nino-intenso-entre-2026-e-2027-chegou-as-manchetes-o-brasil-esta-preparado/. Acesso em: 3 jul. 2026.
ACEITUNO, Patricio; PRIETO, María del Rosario; SOLARI, María Eugenia; MARTÍNEZ, Antonio; POVEDA, Germán; FALVEY, Mark. The 1877–1878 El Niño episode: associated impacts in South America. Climatic Change, Dordrecht, v. 92, n. 3–4, p. 389–416, 2009. Disponível em: http://www2.dgf.uchile.cl/ACT19/COMUNICACIONES/Revistas/aceetal08.pdf. Acesso em: 30 jun. 2026.
CAMARGO, Isadora. Ano de El Niño pressiona e faz inflação subir, diz economista. CNN Brasil, São Paulo. Publicado em: 2 jul. 2026. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/agro/ano-de-el-nino-pressiona-e-faz-inflacao-subir-diz-economista/. Acesso em: 8 jul. 2026.
CASTRO, Fábio de. Água de 12 lagos da Amazônia já está mais quente que em 2023, quando 330 botos morreram. WWF Brasil. Publicado em: 1 out. 2024. Disponível em: https://www.wwf.org.br/?89800/gua-de-12-lagos-da-Amazonia-ja-esta-mais-quente-que-em-2023-quando-330-botos-morreram. Acesso em: 6 jul. 2026.
DAVIS, Mike. Late Victorian Holocausts: El Niño Famines and the Making of the Third World. London: Verso, 2001.
EL NIÑO / LA NIÑA PHENOMENA. World Meteorological Organization (WMO), 2026. https://public.wmo.int/topics/el-nino-la-nina-phenomena. Acesso em:30 jun. 2026.
FIRMO, Érico. O Dia dos Mil Mortos. O Povo, 2024. Disponível em: https://especiais.opovo.com.br/odiadosmilmortos/. Acesso em: 1 jul. 2026.
FUNDAÇÃO GETULIO VARGAS. Especialistas discutem impactos do El Niño na produção agrícola brasileira. Rio de Janeiro: FGV, 12 jun. 2026. Disponível em: https://portal.fgv.br/noticias/especialistas-discutem-impactos-do-el-nino-na-producao-agricola-brasileira. Acesso em: 30 jun. 2026.
IBGE. Censo agropecuário: resultados definitivos 2017. Disponível em:https://censoagro2017.ibge.gov.br/templates/censo_agro/resultadosagro/pdf/agricultura_familiar.pdf. Acesso em: 7 jul. de 2026.
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NAVEIRA, Ruben Bauer. A crise global de alimentos: El Niño – parte 3. Viomundo, 11 maio 2026. Disponível em: https://www.viomundo.com.br/politica/a-crise-global-de-alimentos-el-nino-parte-3.html. Acesso em: 30 jun. 2026.
WRIGHT, Marina. El Niño retorna a uma Amazônia já à beira do colapso. Amazon Watch. Publicado em:18 jun. 2026. Disponível em: https://amazonwatch.org/pt/news/2026/0618-el-nino-returns-to-an-amazon-already-on-the-brink
