
Marcelo Alves – 8° Semestre
No dia 4 de abril de 1949 é fundada a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), uma aliança militar entre Estados Unidos, Canadá e diversos países europeus com objetivo de garantir a segurança coletiva de seus membros contra a União Soviética, segundo o Departamento de Estado do governo estadunidense (2026). Com o decorrer das décadas, esta aliança influenciou e ampliou as capacidades dos estados membros de exercer influência no sistema internacional.
Recentemente, no dia 7 e 8 de julho, ocorreu a reunião da cúpula da organização, em Ancara na Turquia, o encontro teve como principal objetivo discutir as recentes tensões no sistema internacional, com destaque para a continuidade do apoio à Ucrânia, a ampliação dos gastos com defesa, as pressões exercidas pelos Estados Unidos sobre os demais aliados, o fortalecimento das capacidades militares da Aliança e a adaptação da organização às novas ameaças estratégicas, como ataques cibernéticos, guerras híbridas e instabilidades regionais (G1, 2026).

Fonte: MATTOS, Leonardo. Conflitos atuais: uma síntese geopolítica e as tecnologias empregadas. 2024.
O mapa acima evidencia um panorama da distribuição dos principais focos de conflito e instabilidade no sistema internacional, em destaque, observam-se conflitos de alta intensidade, como a guerra entre Rússia e Ucrânia, as tensões no Oriente Médio envolvendo Israel, Irã, Síria, Líbano e Iêmen, além de crises persistentes na África, como no Sudão, República Democrática do Congo, Sahel e Somália.
Esse contexto de multiplicação das ameaças fornece a base para compreender as discussões realizadas na recente Cúpula da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). Em frente a um ambiente internacional marcado por conflitos simultâneos, ameaças híbridas, ataques cibernéticos, terrorismo e crescente competição entre grandes potências, o mapa demonstrar que os novos desafios da segurança internacional decorrem de um cenário geopolítico cada vez mais fragmentado e instável, favorecendo respostas coletivas, maior coordenação entre pares e a redefinição das estratégias de segurança.
Os recentes debates realizados na reunião da cúpula evidenciam que a Aliança enfrenta um cenário de segurança substancialmente diferente daquele que marcou sua criação durante a Guerra Fria. Durante a reunião, a continuidade do apoio à Ucrânia permaneceu como uma das principais prioridades da organização, uma vez que o conflito com a Rússia passou a ser compreendido como um fator capaz de comprometer a estabilidade do espaço euro-atlântico e a ordem internacional baseada em regras. Ademais, os Estados-membros reafirmaram o compromisso com o fornecimento de assistência militar, treinamento e apoio financeiro à Ucrânia, buscando fortalecer sua capacidade de defesa e, simultaneamente, ampliar o efeito dissuasório da Aliança diante da postura estratégica russa (G1, 2026).
Além disso, os países-membros reafirmaram seu compromisso com o fornecimento de assistência militar, treinamento e apoio financeiro ao governo ucraniano, comprometendo-se com um pacote de aproximadamente 70 bilhões de euros em equipamentos, treinamento e assistência militar para 2026, além da manutenção de níveis equivalentes de apoio em 2027 (NATO, 2026).
Outro eixo central da reunião foi o fortalecimento das capacidades militares da Aliança e a ampliação dos investimentos em defesa, os aliados reforçaram a necessidade de acelerar a modernização das Forças Armadas, ampliar a produção da indústria de defesa e consolidar capacidades em áreas como defesa aérea, sistemas não tripulados, inteligência, logística e mobilidade militar (G1, 2026). Essas medidas representam a continuidade da estratégia adotada na Cúpula de Haia (2025), que estabeleceu metas mais ambiciosas de investimentos em defesa e passou a orientar o planejamento estratégico da organização para a próxima década.
Por conseguinte, a reunião também evidenciou um dos principais desafios políticos da OTAN: o compartilhamento das responsabilidades entre os aliados. Os Estados Unidos voltaram a pressionar os demais membros para ampliarem suas contribuições financeiras e militares, argumentando que a segurança coletiva depende de um compromisso mais equilibrado entre os integrantes da Aliança. Apesar dessas divergências, a declaração final da cúpula reafirmou o compromisso inabalável com o Artigo 5 do Tratado do Atlântico Norte, preservando o princípio da defesa coletiva como fundamento da organização (REUTERS, 2026).
Para o Barry Buzan (1988), a segurança não deve ser analisada exclusivamente sob a perspectiva militar, mas a partir de uma abordagem multidimensional, que abrange os setores militar, político, econômico, social e ambiental, esta ampliação conceitual permite compreender que as ameaças atuais decorrem de fenômenos como terrorismo, ataques cibernéticos, campanhas de desinformação, crises energéticas, migrações forçadas e disputas tecnológicas.
Sob essa perspectiva, a recente Cúpula da OTAN evidencia a adaptação da Aliança a um ambiente estratégico cada vez mais complexo, no qual a defesa coletiva deixa de estar fundamentada exclusivamente na resposta a agressões militares convencionais e passa a incorporar mecanismos voltados ao fortalecimento da resiliência institucional, à proteção de infraestruturas críticas, à segurança cibernética e ao aprofundamento da cooperação entre os Estados-membros.
Além disso, a crescente interdependência entre os países torna indispensável o fortalecimento da cooperação em áreas como compartilhamento de inteligência, inovação tecnológica, defesa cibernética, proteção de infraestruturas estratégicas e coordenação logística, permitindo que a Aliança desenvolva respostas coletivas mais eficazes diante de riscos. Assim, a abordagem de Barry Buzan, evidencia que a OTAN vem redefinindo sua concepção de segurança, incorporando novos domínios de atuação e reconhecendo que a preservação da estabilidade internacional exige uma estratégia multidimensional, capaz de enfrentar tanto ameaças militares tradicionais quanto desafios emergentes decorrentes das transformações do sistema internacional (BUZAN; WÆVER; DE WILDE, 1998).
Sendo assim, a Organização do Tratado do Atlântico Norte permanece como um dos principais atores na estrutura de segurança internacional, embora sua atuação tenha sido profundamente transformada pelas mudanças ocorridas no sistema internacional nas últimas décadas, atualmente seus desafios abrangem um conjunto muito mais amplo de ameaças e corroboram uma modificação do panorama da segurança internacional, fomentando conflitos e defendendo a posição firme de seus membros.
Assim, os novos desafios da segurança internacional passam pela cooperação, resiliência e adaptação constante às transformações do cenário global. Desse modo, compreender a evolução da OTAN e as decisões adotadas em suas cúpulas torna-se essencial para analisar as dinâmicas de poder que moldam a política internacional atualmente, especialmente em um contexto marcado pela intensificação das rivalidades geopolíticas e pela crescente complexidade das ameaças.
Referências:
BUZAN, Barry; WÆVER, Ole; DE WILDE, Jaap. Security: a new framework for analysis. Boulder: Lynne Rienner Publishers, 1998.
EUROPEAN PARLIAMENT. Towards NATO’s 2026 Ankara Summit. Brussels: European Parliamentary Research Service, 2026.
G1. Reunião de cúpula da Otan começa na Turquia com Ucrânia no radar e em meio a tensões internas do bloco. G1, 7 jul. 2026. Disponível em: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2026/07/07/reuniao-de-cupula-da-otan-comeca-na-turquia-com-ucrania-no-radar-e-em-meio-a-tensoes-internas-do-bloco.ghtml. Acesso em: 25 jul. 2026.
MATTOS, Leonardo. Conflitos atuais: uma síntese geopolítica e as tecnologias empregadas. Rio de Janeiro: Centro de Estudos Político-Estratégicos da Marinha (CEPE-MB), 2024. Disponível em: https://assets.marinha.mil.br/cepe/sites/www.marinha.mil.br.cepe/files/Conflitos%20Atuais%20uma%20sintese%20geopolitica.pdf. Acesso em: 25 jul. 2026.
NATO. The Ankara Summit Declaration. Brussels: NATO, 8 jul. 2026. Disponível em: https://www.nato.int/en/about-us/official-texts-and-resources/official-texts/2026/07/08/the-ankara-summit-declaration. Acesso em: 25 jul. 2026.
REUTERS. NATO leaders including Trump to affirm “ironclad commitment” to collective defence in Ankara, summit text says. 3 jul. 2026.
UNITED STATES. Department of State. Office of the Historian. North Atlantic Treaty Organization (NATO), 1949. In: Milestones in the History of U.S. Foreign Relations, 1945–1952. Washington, D.C.: Office of the Historian, 2026. Disponível em: https://history.state.gov/milestones/1945-1952/nato. Acesso em: 25 jul. 2026.
