
Foto: Zona Militar (2026)
Maria Luiza Garcia Lira – acadêmica do 6º semestre de Relações Internacionais da UNAMA
Historicamente, a guerra está ligada à disputa por poder, território e recursos. Com a consolidação do Estado moderno, a violência organizada passou a ser concentrada nas instituições estatais, tornando-se instrumento para alcançar objetivos políticos e estratégicos. Entretanto, Strange (1994) demonstra que o poder internacional também envolve o controle das estruturas de produção, finanças, conhecimento e segurança, tornando insuficiente uma compreensão da guerra centrada apenas no Estado.
Embora o Estado permaneça como principal agente político da guerra, sua capacidade militar depende cada vez mais de estruturas privadas de produção, tecnologia e financiamento. Nesse sentido, Strange (1994) também evidencia que as relações internacionais são condicionadas pela interação entre Estado e mercado, fazendo com que os conflitos contemporâneos também sejam influenciados pelos interesses econômicos envolvidos na produção da guerra.
É nesse contexto que a Teoria Crítica de Robert W. Cox contribui para compreender a relação entre capitalismo, militarização e poder. Cox (1981; 1987) analisa a ordem internacional a partir da interação entre forças materiais, instituições e ideias, destacando como as formas de produção participam da construção das estruturas de poder. Assim, a segurança está diretamente relacionada à economia, pois a capacidade militar depende de indústrias, tecnologias, investimentos e cadeias de fornecimento.
Como aponta Cox (1996), produção e segurança são dimensões interligadas. Embora a participação privada na guerra não seja historicamente nova, sua expansão sob o capitalismo fortaleceu a presença das empresas nas estruturas de defesa, fornecendo armamentos, inteligência, logística e tecnologias militares. A privatização da guerra, portanto, não elimina o Estado, mas estreita sua relação com o capital privado: enquanto o Estado define objetivos e financia a atividade militar, as empresas transformam essa demanda em produtos e serviços.
Em uma concepção tradicional da guerra, o ganho econômico estava predominantemente associado aos resultados obtidos a partir do conflito, como a conquista de territórios, o controle de recursos, a exploração de prisioneiros de guerra, a apropriação de riquezas ou a utilização das áreas conquistadas para ampliar o poder econômico e político do vencedor. O benefício material estava, portanto, relacionado principalmente ao que poderia ser obtido após a vitória.
Na dinâmica contemporânea, entretanto, essa lógica passa por uma transformação e a própria preparação, manutenção e continuidade do conflito tornam-se capazes de gerar oportunidades de acumulação para agentes privados. O interesse econômico não está necessariamente apenas no que será conquistado ao final da guerra, mas também naquilo que precisa ser produzido, contratado e vendido enquanto ela acontece.
A guerra na Ucrânia evidencia essa dinâmica mercadológica da guerra. O aumento dos gastos militares europeus e da demanda por equipamentos para apoiar o país provocou forte valorização de empresas do setor de defesa. Nesse sentido, dados do Stockholm International Peace Research Institute (2025) mostram que as cem maiores empresas produtoras de armas e serviços militares registraram, em 2024, crescimento de 5,9% em relação ao ano anterior em receitas relacionadas a armamentos.
Essa dinâmica também é visualizada no conflito entre Israel e Hamas. De acordo com Singh e Stone (2024), os Estados Unidos aprovaram a venda de mais de US$20 bilhões em aeronaves e equipamentos militares para Israel em 2024, evidenciando como os conflitos estão inseridos em cadeias internacionais de produção e comércio de armamentos. A partir desse fato, os dados demonstram que a militarização não produz apenas custos políticos e humanos, mas também movimenta um mercado global altamente lucrativo.
Nesse contexto, a contribuição de Cox permite compreender a indústria de defesa como parte das forças materiais que sustentam estruturas de poder. Estado e empresas não são atores completamente separados: o Estado depende da capacidade produtiva privada para sustentar sua estrutura militar, enquanto as empresas dependem dos gastos públicos e das políticas de segurança para manter seus mercados. Forma-se, assim, uma relação de reprodução mútua entre poder estatal e interesses econômicos.
É nesse ponto que Strange e Cox podem ser articulados. Strange permite compreender a interdependência entre Estado e mercado e como as estruturas econômicas condicionam a atuação estatal, enquanto Cox amplia essa análise ao situá-la historicamente, demonstrando como produção, forças sociais e instituições reproduzem estruturas de poder. Assim, Strange evidencia a presença do mercado no exercício do poder internacional, enquanto Cox permite compreender como a relação entre Estado e capital privado é construída e reproduzida no capitalismo.
A guerra, portanto, não deve ser compreendida apenas como tragédia ou instrumento estatal para alcançar objetivos, mas também como parte de uma estrutura econômica capaz de gerar mercados, contratos e oportunidades de acumulação. O conflito pode produzir ganhos territoriais e estratégicos aos Estados, mas também amplia a demanda pela indústria bélico-militar. A partir dessa perspectiva, a questão sobre quem ganha a guerra adquire outro sentido: quem lucra com sua existência e manutenção?
Sob a Teoria Crítica de Cox, a militarização contemporânea resulta da articulação entre capitalismo, produção, Estado e poder militar. A privatização da guerra não elimina o papel estatal, mas transforma a forma como sua capacidade militar é produzida. A segurança passa a ser simultaneamente uma questão política, estratégica e econômica, enquanto a guerra se torna também um espaço de produção e circulação de capital. É nessa articulação entre poder estatal e lucratividade corporativa que a militarização pode ser compreendida como parte da expansão e reprodução do capitalismo global.
Referências:
COX, Robert W. Social forces, states and world orders: beyond international relations theory. Millennium: Journal of International Studies, v. 10, n. 2, p. 126-155, 1981. DOI: 10.1177/03058298810100020501.
COX, Robert W. Production, power, and world order: social forces in the making of history. New York: Columbia University Press, 1987.
COX, Robert W.; SINCLAIR, Timothy J. Approaches to world order. Cambridge: Cambridge University Press, 1996.
SINGH, Kanishka; STONE, Mike. US approves sale to Israel of $20 billion weapons package. Reuters, 13 ago. 2024. Disponível em: https://www.reuters.com/world/middle-east/blinken-approves-sale-israel-military-equipment-worth-over-20-bln-2024-08-13/. Acesso em 18 ago. 2026.
SIPRI — STOCKHOLM INTERNATIONAL PEACE RESEARCH INSTITUTE. The SIPRI Top 100 arms-producing and military services companies, 2024. Stockholm: SIPRI, 2025. Disponível em: sipri-top-100-arms-producing-and-military-services-companies-2024. Acesso em: 18 ago. 2026.
STRANGE, Susan. States and markets. 2. ed. London: Pinter Publishers, 1994.
