Profa. Dra. Lygia Sousa –
Docente de Relações Internacionais

Roland Orzabal e Curt Smith formaram o Tears for Fears em 1981, na cidade de Bath, Inglaterra, após a breve e pouco bem-sucedida passagem pela banda Graduate. Unidos pela amizade, por experiências familiares semelhantes e por sonhos em comum, a dupla encontrou a sintonia que faltava no projeto anterior. Tanto que, em pouco tempo, se
consolidaram como uma das bandas mais influentes do pop rock britânico.

A rápida projeção internacional do Tears for Fears deve-se a capacidade de Roland e Curt aliarem melodias sofisticadas a letras de forte densidade psicológica, social e política, causando impacto positivo na mídia. Essa dinâmica ilustra bem o conceito de soft power, de Joseph Nye (2012), mostrando que a cultura — por meio de elementos da indústria cultural, como a música pop — é uma valiosa ferramenta para influenciar e conscientizar a população sobre os dilemas do mundo contemporâneo.

A postura crítica da banda se manifestou desde o álbum de estreia, The Hurting (1983). Na faixa Mad World, a angústia da juventude surge entrelaçada à denúncia da alienação e do esvaziamento da vida cotidiana do início da década de 80, momento de profunda crise econômica, desemprego em massa e tensões geopolíticas.

A reflexão se aprofundou em Songs from the Big Chair (1985), segundo disco da banda, concebido no ápice da Guerra Fria. O álbum traz Everybody Wants to Rule the World — cujo título provisório era Everybody Wants to Go to War —, modificado para conferir maior densidade à faixa, evidencia que a disputa pelo poder extrapola o campo militar e abrange as dimensões econômica, narrativa e cultural. No mesmo trabalho, a faixa Shout ressignifica o “grito” como metáfora de resistência contra o autoritarismo e a manipulação social, alçando a liberdade de expressão à condição de instrumento de contestação das estruturas vigentes de poder.

É no terceiro álbum, The Seeds of Love (1989), lançado durante o contexto da queda do Muro de Berlim e da reconfiguração da ordem global, que a banda expandiu as reflexões. A faixa Sowing the Seeds of Love critica o individualismo e a lógica competitiva dos modelos econômicos vigentes, defendendo valores como solidariedade e justiça social. Com um inovador videoclipe, marcado por animações e estética surrealista, o Tears for Fears ampliou o alcance da mensagem e transformou a obra em um marco do audiovisual musical, reconhecido em importantes premiações internacionais.

Ainda no mesmo álbum, a emblemática Woman in Chains antecipa discussões centrais sobre a violência de gênero muito antes do tema ser pauta internacional. A composição possui forte dimensão autobiográfica: Roland Orzabal confirmou publicamente ter escrito a canção com base em suas memórias de infância, quando testemunhou o relacionamento abusivo e as agressões domésticas cometidas por seu pai contra sua mãe.

Ao projetar essa vivência na obra, a faixa materializa o célebre lema feminista de que “o pessoal é político”, mostrando que a violência doméstica não constitui um fato isolado da esfera privada, mas o reflexo do patriarcado estrutural que atravessa as relações de poder e o cotidiano familiar. Bell Hooks (2018), sinaliza que patriarcado vigora como sistema político-cultural de dominação masculina institucionalizada, cujas engrenagens operam na intimidade do lar e corrompem as relações afetivas.

É na faixa Badman’s Song, que Curt e Roland, exploram a figura do “homem mal” como meio de denunciar “violência estrutural” (Galtung, 1969), novamente reforçando que a opressão se manifesta na sociedade de várias formas, não apenas por agressões físicas diretas, mas através de arranjos sociais e institucionais, os quais contribuem para perpetuação da exclusão e da desigualdade.

Após um longo período de projetos individuais, afastamentos e perdas pessoais, a dupla retoma a parceria em 2022 com The Tipping Point. O álbum recupera a acidez sofisticada das composições já na faixa que dá nome ao álbum — “o ponto de inflexão” — simboliza o momento de reconstrução pessoal e artística, porém sugere a renovação de perspectiva diante das crises contemporâneas.

Na faixa Break the Man, a dupla traça um diálogo direto com Woman in Chains. Se a canção de 1989 denunciava a opressão imposta às mulheres, a composição de 2022 sugere a superação dos padrões tradicionais de masculinidade como caminho para superação do patriarcado. Curt falou em entrevista à Rolling Stones que a música foi composta para lembrar que as maiores mazelas do mundo derivam do excesso do domínio masculino (Zemler, 2022).

Além disso, a mensagem presente na canção também dialoga com Connell (2013), ao questionar a masculinidade hegemônica baseada no controle e na negação da vulnerabilidade. Do mesmo modo, se aproxima de Bel Hooks (2021), que afirma que o patriarcado aprisiona homens e mulheres em relações de dominação e desigualdade.

O olhar crítico aguçado sobre o presente é retomado em Songs for a Nervous Planet, a mais recente produção da banda. O projeto híbrido o qual reuniu registros ao vivo e faixas inéditas, acompanhado pelo filme Tears for Fears Live lançado simultaneamente em vários países, incluindo o Brasil, em 2024, possui a inédita Astronaut. A figura do astronauta vigora como metáfora para abordar a ansiedade, o isolamento e a inquietude diante do mundo hiperconectado e polarizado. Como destacou Curt Smith, a faixa sintetiza a sobrecarga emocional e a solidão que permeiam a contemporaneidade.

Ao deslocar seu olhar das disputas geopolíticas do século XX para as crises existenciais, de gênero e tecnológicas do século XXI, o Tears for Fears reafirma sua relevância como uma das bandas mais icônicas do pop mundial. Sua obra confirma a tese de Stuart Hall (2015) de que a cultura é um espaço privilegiado para interpretar transformações sociais, questionar padrões e produzir novos significados sobre o mundo.

REFERÊNCIAS

CONNELL, Raewyn. Masculinidades. Tradução de Kátia Maria de Vasconcelos. São Paulo:
Editora UNESP, 2013.

GALTUNG, Johan. Violência, paz e pesquisa sobre a paz. Journal of Peace Research, v. 6,
n. 3, p. 167-191, 1969.

HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Tradução de Tomaz Tadeu da
Silva e Guacira Lopes Louro. 12. ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2015.

HOOKS, bell. O feminismo é para todo mundo: políticas apaixonadas. Rio de Janeiro: Rosa
dos Tempos, 2018.

HOOKS, bell. O desejo de mudar: homens, masculinidade e amor. Rio de Janeiro: Rosa
dos Tempos, 2021.

NYE, Joseph S. Soft power: os meios para o sucesso na política mundial. Tradução de
Maria Lúcia de Oliveira. São Paulo: Contexto, 2012.

ZEMLER, Emily. Tears for Fears Rail Against the Patriarchy in New Single “Break the Man”.
Rolling Stone, 13 jan. 2022. Disponível em:
https://www.rollingstone.com/music/music-news/tears-for-fears-break-the-man-song-128226
6/. Acesso em: 27 jul. 2026.