Malu Andrade – 4° Semestre

Desde a retirada espanhola do Saara Ocidental, em 1975, o território permanece um dos mais duradouros focos de instabilidade política do continente africano. A disputa ocorre principalmente entre o Marrocos, que controla a maior parte da região e a Frente Polisário, que reivindica a independência e a autodeterminação do povo saaraui, contando com o apoio da Argélia. Entretanto, o conflito ultrapassa a questão territorial e envolve interesses econômicos e geopolíticos relacionados à localização estratégica da região, suas reservas de fosfato, recursos pesqueiros e crescente potencial energético (SUÀREZ-COLLADO; TORREJÓN RODRIGUEZ, 2025).
A disputa pode ser compreendida a partir do Neorealismo de Hans Morgenthau. Para o autor, a política internacional é marcada pela defesa dos interesses nacionais e pela busca e manutenção do poder. Em um Sistema Internacional do qual os Estados não estão subordinados a uma autoridade política superior, suas decisões são influenciadas pela necessidade de preservar segurança, influência e capacidade de atuação. Dessa forma, princípios jurídicos e valores coexistem com os interesses estratégicos dos Estados (MORGENTHAU, 2003).
Essa perspectiva auxilia na compreensão da importância do Saara Ocidental para o Marrocos. O controle da região não representa somente uma reivindicação de soberania, mas também garante acesso a recursos economicamente relevantes. Entre eles, destacam-se as reservas de fosfato de Bou Craa e os recursos pesqueiros existentes na costa atlântica. Mais recentemente, o potencial para geração de energia solar e eólica aumentou a importância econômica do território, inserindo novos interesses na disputa e atraindo atenção de atores externos (SUÁREZ-COLLADO; TORREJÓN RODRIGUEZ, 2025).
Além da exploração dos recursos naturais, o Marrocos tem ampliado seus investimentos nas principais cidades sob seu controle. Em Laayoune e Dakhla, projetos relacionados à infraestrutura, serviços públicos e transportes fazem parte de uma estratégia de desenvolvimento e integração econômica da região. O porto de Dakhla Atlantique, por exemplo, pretende ampliar as conexões comerciais com outros países africanos e fortalecer a posição da região como ponto logístico entre o Marrocos e a África Subsaariana. Esses investimentos contribuem para modernizar o território, mas também reforçam a presença política e econômica marroquina no Saara Ocidental (LE MONDE, 2025).
A dimensão econômica está diretamente relacionada a rivalidade política entre Marrocos e Argélia. Enquanto Rabat procura consolidar sua administração e conquistar maior reconhecimento internacional para sua proposta de autonomia do Saara Ocidental sob soberania marroquina, a Argélia apoia a Frente Polisário e a reivindicação de autodeterminação saaraui. Dessa forma o território também se tornou um espaço de competição entre duas das principais potências do Magreb, no qual o fortalecimento de um dos atores pode alterar a distribuição regional de poder.
Nesse contexto, a exploração econômica assume também uma função política. A integração das cidades do Saara Ocidental às redes de infraestrutura e às atividades produtivas marroquinas fortalecem o controle exercido pelo Rabat e amplia os custos econômicos e políticos de uma eventual mudança na soberania do território. Fosfatos, pesca, infraestrutura e projetos de energia renovável deixam, portanto, de representar somente fontes de riqueza passam a fazer parte de uma estratégia mais ampla de consolidação territorial. Torna-se importante destacar que a gestão dos recursos naturais do Saara Ocidental está diretamente relacionada às dimensões geopolíticas do conflito e à participação de atores externos.
Essa disputa também é influenciada pelo posicionamento das grandes potências. Em 2025, os Estados Unidos reafirmaram seu apoio ao plano de autonomia apresentado pelo Marrocos, considerando-o a base para as negociações destinadas à solução do conflito (REUTERS, 2025). A posição norte-americana fortalece diplomaticamente Rabat e demonstra que a questão saaraui não depende somente das partes diretamente envolvidas, mas também das alianças e dos interesses estratégicos de outros Estados.
Existe, assim, uma tensão entre o princípio da autodeterminação e os interesses políticos e econômicos presentes no conflito. Enquanto a Frente Polisário fundamenta sua reivindicação no direito do povo saaraui de decidir sobre o futuro do território, o Marrocos procura consolidar sua posição por meio do controle territorial, dos investimentos econômicos e de suas relações diplomáticas. A diferença de capacidades entre os atores e o apoio internacional recebido por cada lado ajudam a compreender a permanência de um conflito iniciado ainda durante o processo de descolonização.
Dessa forma, a disputa pelo Saara Ocidental não pode ser compreendida apenas como uma questão territorial. O conflito reúne interesses econômicos, rivalidades regionais e estratégias de projeção de poder. As reservas de fosfato, os recursos pesqueiros, o potencial para energias renováveis e a posição atlântica aumentam o valor estratégico da região, enquanto a rivalidade entre Marrocos e Argélia e o envolvimento de potências externas dificultam uma solução definitiva. O caso evidencia como interesses nacionais e relações de poder podem coexistir e entrar em tensão com princípios como soberania e autodeterminação dentro do Sistema Internacional.
Referências:
LE MONDE. Laâyoune, vitrine du développement du Sahara occidental pour le Maroc. Le Monde, Paris, 7 set. 2025. Disponível em: https://www.lemonde.fr/afrique/article/2025/09/07/laayoune-vitrine-du-developpement-du-sahara-occidental-pour-le-maroc_6639580_3212.html
MORGENTHAU, Hans J. A política entre as nações: a luta pelo poder e pela paz. Tradução de Oswaldo Biato. Brasília, DF: Editora Universidade de Brasília; São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2003. (Clássicos IPRI).
REUTERS. US says Moroccan proposal should be sole basis for Western Sahara talks. Reuters, 8 abr. 2025. Disponível em: https://www.reuters.com/world/africa/us-says-moroccan-proposal-should-be-sole-basis-western-sahara-talks-2025-04-08/
SUÁREZ-COLLADO, Ángela; TORREJÓN RODRÍGUEZ, Juan Domingo. Natural resource governance in Western Sahara: contemporary issues and emerging themes and approaches. The Journal of North African Studies, v. 30, n. 4, p. 557-578, 2025.
