Lucas Cardoso – Acadêmico do 8° semestre de Relações Internacionais da UNAMA

O Genocídio Armênio, ocorrido principalmente entre 1915 e 1916 durante os últimos anos do Império Otomano, constitui um dos episódios mais controversos da história contemporânea no que se refere à memória, ao reconhecimento e à responsabilização internacional por crimes em massa (AKÇAM, 2006). Suas consequências ultrapassaram o contexto otomano, permanecendo como questão de disputa histórica e diplomática ao longo do século XX e, posteriormente, no século XXI (KÉVORKIAN, 2011).

No âmbito das Relações Internacionais, o reconhecimento de acontecimentos históricos não ocorre de maneira isolada das relações de poder existentes no sistema internacional. Estados podem adotar determinadas posições diplomáticas considerando alianças estratégicas, interesses econômicos, questões de segurança e relações bilaterais, de modo que o caso armênio permite observar como a memória histórica pode ser influenciada por interesses contemporâneos (MEARSHEIMER, 2001).

A permanência do negacionismo estatal evidencia os limites das instituições internacionais diante de questões que envolvem interesses de grandes atores e parceiros estratégicos, sobretudo diante da posição da Turquia, que rejeita a caracterização dos acontecimentos como genocídio em razão de suas relações com diferentes países e organizações (AKÇAM, 2006). Assim, o reconhecimento ultrapassa a dimensão histórica e passa a integrar disputas de diplomacia, identidade e poder (MEARSHEIMER, 2001).

Diante desse cenário, este artigo busca analisar de que maneira interesses geopolíticos e relações diplomáticas contribuíram para dificultar o reconhecimento internacional do Genocídio Armênio no século XXI. Parte-se da hipótese de que esse reconhecimento não depende exclusivamente da interpretação histórica dos acontecimentos, mas também é condicionado por interesses estratégicos, econômicos e diplomáticos dos Estados.

O Genocídio Armênio ocorreu principalmente entre 1915 e 1916, durante a Primeira Guerra Mundial e o processo de desintegração do Império Otomano (KÉVORKIAN, 2011). A população armênia foi submetida a deportações, massacres e outras formas de perseguição sistemática, cuja dimensão e organização pelo aparato estatal fizeram com que o episódio fosse posteriormente compreendido como um dos primeiros grandes genocídios do século XX (SUNY, 2015).

A memória do genocídio passou a ocupar papel importante na identidade política da diáspora armênia e nas relações diplomáticas entre a Turquia e outros Estados (SUNY, 2015). Ao longo do século XX, organizações armênias buscaram ampliar o reconhecimento internacional do episódio, enquanto o governo turco manteve posição de rejeição, processo que ganhou novas dimensões no século XXI com o aumento do número de países que reconheceram formalmente o genocídio (AKÇAM, 2006).

O reconhecimento do Genocídio Armênio constitui um ato político e diplomático capaz de produzir efeitos nas relações bilaterais (MEARSHEIMER, 2001). Embora diversos países o tenham reconhecido formalmente, outros evitam uma posição oficial para não provocar consequências diplomáticas, o que demonstra que o reconhecimento histórico não ocorre de maneira independente dos interesses nacionais relacionados à segurança, ao comércio e a alianças militares (NYE, 2011).

A posição turca ocupa papel central nesse processo. A Turquia rejeita o termo genocídio para caracterizar as mortes e deportações de armênios, defendendo interpretação distinta dos acontecimentos. Decisões de outros Estados sobre o reconhecimento podem gerar respostas diplomáticas de Ancara, incluindo críticas e deterioração temporária das relações bilaterais, demonstrando que o reconhecimento histórico pode funcionar como instrumento de política externa (AKÇAM, 2006). 

A dificuldade de alcançar uma posição internacional uniforme pode ser compreendida a partir dos interesses estratégicos existentes nas relações entre Estados. A participação da Turquia na OTAN e sua importância para a segurança regional conferem ao país relevância geopolítica significativa, de modo que governos que reconhecem o genocídio precisam considerar consequências para suas relações com Ancara (MEARSHEIMER, 2001). Relações comerciais e cooperação militar reforçam ainda os incentivos para posições mais cautelosas, evidenciando que a memória pode ser subordinada às prioridades estratégicas da política externa (NYE, 2011).

As instituições internacionais também enfrentam dificuldades para produzir uma posição consensual sobre o reconhecimento de genocídios históricos. A ONU reúne Estados com diferentes interesses e relações diplomáticas, e a ausência de consenso limita a transformação de questões de memória em decisões multilaterais amplamente reconhecidas (KEOHANE, 1984). Este cenário evidencia uma tensão entre os princípios normativos do sistema internacional e os interesses particulares dos Estados, o que faz do caso armênio um exemplo das limitações do multilateralismo diante de disputas históricas sensíveis (MEARSHEIMER, 2001).

O Realismo Neoclássico apresenta-se como a perspectiva mais adequada para compreender o problema, por combinar a influência das estruturas internacionais com a análise das decisões estatais. Randall Schweller (2006) argumenta que os Estados respondem às oportunidades e ameaças do sistema internacional de acordo com suas próprias percepções e interesses, o que explica por que princípios normativos nem sempre determinam o comportamento estatal: Estados podem reconhecer o genocídio por razões ligadas à memória ou aos direitos humanos, mas também evitar esse reconhecimento diante de custos estratégicos elevados.

A análise do Genocídio Armênio demonstra que a memória histórica pode adquirir dimensão geopolítica ao influenciar relações diplomáticas contemporâneas, de modo que memória, identidade e política externa tornam-se elementos interligados. Compreender as barreiras ao seu reconhecimento exige, assim, ultrapassar uma interpretação exclusivamente histórica: a permanência do debate no século XXI revela os limites das instituições internacionais para estabelecer consensos quando interesses estratégicos entram em conflito com princípios normativos, evidenciando como poder, diplomacia e memória permanecem profundamente conectados nas Relações Internacionais.

Referências:

AKÇAM, Taner. A shameful act: the Armenian genocide and the question of Turkish responsibility. New York: Metropolitan Books, 2006.

KÉVORKIAN, Raymond H. The Armenian genocide: a complete history. London: I.B. Tauris, 2011. 

KEOHANE, Robert O. After hegemony: cooperation and discord in the world political economy. Princeton: Princeton University Press, 1984.

MEARSHEIMER, John J. The tragedy of great power politics. New York: W. W. Norton, 2001.

NYE, Joseph S. The future of power. New York: PublicAffairs, 2011.

SCHWELLER, Randall L. Unanswered threats: political constraints on the balance of power. Princeton: Princeton University Press, 2006.

SUNY, Ronald Grigor. “They can live in the desert but nowhere else”: a history of the Armenian genocide. Princeton: Princeton University Press, 2015.