
Caira Queiroz, acadêmica do 8° semestre de Relações Internacionais
Após 52 anos ausente da Copa do Mundo, a classificação da República Democrática do Congo para o Mundial reacendeu a memória de uma das personalidades que ultrapassaram os limites de seu próprio Estado nas Relações Internacionais: Patrice Emery Lumumba. Mais que um líder político, ele se tornou um dos principais nomes da luta decolonial e contra o imperialismo na África, sendo símbolo de luta pela independência, pela soberania e pela autonomia do Congo diante dos interesses estrangeiros, presentes mesmo após o fim do domínio colonial belga.
Nascido em 1925, em Onalua, o então Congo Belga, o intelectual oriundo de uma família de camponeses Batetela cresceu em uma sociedade marcada pela desigualdade entre grupos étnicos natais e o poder colonial belga. Antes de ingressar diretamente na política, Lumumba trabalhou como poeta em jornais, posteriormente foi funcionário dos correios e, em paralelo, se dedicou aos estudos das ciências humanas e sociais, experiências que contribuíram para aproximá-lo em organizações sociais, o tornando um intelectual autodidata (Wallerstein, 2026).
Nesse mesmo período, os movimentos pela emancipação política do próprio continente africano se fortaleceram em meio ao surgimento de questionamentos sobre o domínio colonial europeu. Contexto este que inseriu também Lumumba na política, inicialmente com o sindicalismo. Mas sua inserção na política se deu de forma mais expressiva nos anos 1950, ao atuar no movimento nacionalista e participar da fundação do Movimento Nacional Congolês (MNC), em 1958 (Ferreira, 2026).
O partido defendia a unidade nacional da RD Congo em vez de dividir o Estado em países menores. Com estas movimentações nacionalistas, em 1959 a Bélgica planejou eleições regionais para reacender a luta por independência, mas tal apoio seria apenas para manter figuras políticas ligadas ao próprio país colonial belga. Segundo Guadalajara (2026), Lumumba chegou a ser preso após protestos contra essa manobra, em Stanleyville, mas foi logo liberado e pôde comparecer na conferência de Bruxelas, já como líder do MNC.
A reunião entre as partes definiu a data da independência do RD Congo para 30 de junho de 1960, indo contra ao desejo belga de que o processo levasse 30 anos. Apesar dos multiplos partidos, o MNC ganhou as eleições e Lumumba emergiu como o principal político nacionalista do Congo ao assumir o cargo de primeiro-ministro do país, mesmo em meio a manobras dominantes para impedir sua ascensão ao poder.
Mas seu governo teve um prazo bem curto, pois, em meio às tensões da Guerra Fria e à crise política que o país se encontrava, o líder congolês não era bem aceito, seja dentro do seu próprio Estado através de interferências militares belgas, onde o próprio Congo buscou ajuda às Nações Unidas e à União Soviética a fim de expulsá-los e de restaurar a ordem interna, seja também pela desconfiança que outras potências ocidentais ao acusá-lo de comunismo (Ferreira, 2026).
Lumumba fez o que pôde para contornar a situação que se passava, mas com um exército incerto, alianças políticas instáveis, que denominavam seu regime como frágil, e o acúmulo pedidos de ajuda externas, o presidente Kasavubu o destituiu, tendo por trás uma articulação da belga e de outros países ocidentais justificado pela perseguição ao socialismo na Guerra Fria. A legalidade da medida foi imediatamente contestada pelo líder e com a discordância, os dois grupos reivindicaram o legítimo governo do país (Wallerstein, 2026).
Logo depois, quem tomou seu poder através de um golpe apoiado pela Europa e EUA foi o coronel Joseph Mobutu, que se tornou ditador do país. Já Lumumba foi preso, torturado e executado em Katanga, em 17 de janeiro de 1961, tendo seu corpo dissolvido em ácido para apagar vestígios do crime e impedir que o seu túmulo fosse homenageado politicamente.
Sua morte foi um escândalo por todo o continente africano e somente décadas depois as circunstâncias completas dela foram reveladas, onde a Bélgica reconheceu responsabilidade moral pelo assassinato sob a alegação de que ele mantinha proximidade com a União Soviética (Guadalajara, 2026). Mesmo com todas as tentativas de apagamento de sua memória, Lumumba se tornou um legado da República Dominicana do Congo e símbolo da África.
Nesse sentido, a trajetória de Lumumba pode ser analisada a partir da Teoria da Dependência, que, desenvolvida na América Latina, busca compreender as características estruturais dos países inseridos, tardiamente, no sistema econômico de produção, em uma estrutura desigual com países imperialistas (Cario; Gomes; Singaúque, s.d).
Como exposto, o Congo também evidenciou essa dinâmica, pois mesmo após conquistar sua independência política, o país continuava inserido numa estrutura econômica colonial e exploratória. A tentativa de Lumumba em fortalecer o controle do Estado sobre as próprias mãos congolesas confrontava interesses estrangeiros, demonstrando assim que a independência formal não significava necessariamente a autonomia do país de fato, principalmente pela importância econômica e estratégica que o Congo despertava das grandes potências.
A luta de Lumumba mostra justamente essa contradição do processo de colonização, onde a independência política não elimina automaticamente as estruturas de dependência impostas durante o período colonial, e representou também uma tentativa de barrar a inserção internacional com interesses na exploração dos recursos do país.
Portanto, Lumumba pode ser compreendido como uma personalidade que mostrou os limites da soberania dos Estados periféricos diante das desigualdades econômicas internacionais. Há mais de seis décadas de sua morte, seu legado permanece presente na memória do povo congolês, e sua imagem segue representando a resistência e a busca pela soberania nacional, como demonstra a homenagem feita pelo torcedor durante a Copa do Mundo.
REFERÊNCIAS
CARIO, Silvio; GOMES, Márcio; SIGAÚQUE, Eduardo. A teoria da dependência nas perspectivas de Celso Furtado, Fernando Henrique Cardoso e Ruy Mauro Marini. REVISTA CATARINENSE DE ECONOMIA – VOL. 3 N. 2 – 2019 ISSN 2527-1180.
FERREIRA, Yuri. Quem foi Patrice Lumumba, o líder africano assassinado que virou símbolo mundial da luta anticolonial. Fórum, 2026. Disponível em: https://revistaforum.com.br/historia/patrice-lumumba/. Acesso em 21 de agosto de 2026.
GUADALAJARA. Conheça Patrice Lumumba, líder político que inspirou torcedor-símbolo da RD Congo na Copa. GE. Globo, 2026. Disponível em: https://ge.globo.com/futebol/copa-do-mundo/noticia/2026/06/23/conheca-patrice-lumumba-lider-politico-que-inspirou-torcedor-simbolo-da-rd-congo-na-copa.ghtml. Acesso 21 de agosto de 2026.
WALLERSTEIN, Immanuel. Patrice Lumumba. Britannica, 2026. Disponível em: https://www.britannica.com/biography/Patrice-Lumumba. Acesso em 22 de agosto de 2026.
