
Sofia Dias, acadêmica do 4° semestre de Relações Internacionais da UNAMA.
Nascido em 1947, na Inglaterra, Reginald Kenneth Dwight, conhecido como Elton John consolidou-se como uma das figuras mais influentes da música popular internacional. Elton John é o artista solo masculino de maior sucesso na história das paradas americanas e o terceiro artista de maior sucesso no geral, atrás apenas de Madonna e dos Beatles (Elton John, 2026). Ao longo de uma carreira marcada por sucessos como Your Song, Rocket Man, Candle in The Wind e I’m Still Standing, o artista construiu uma identidade pública profundamente associada à extravagância, à teatralidade e à ruptura com padrões tradicionais de masculinidade.
Sua trajetória, entretanto, ultrapassa o campo musical. Ao assumir publicamente sua sexualidade e posteriormente utilizar sua projeção internacional na defesa de pessoas LGBTQIA+ e no combate ao HIV/AIDS, se tornou também uma figura inserida em disputas políticas sobre identidade, reconhecimento e legitimidade. Quando Elton não está gravando ou em turnê, dedica seus esforços a diversas instituições de caridade, incluindo sua própria Fundação Elton John para a AIDS, que arrecadou mais de US$ 450 milhões e financiou programas em quatro continentes nos seus 24 anos de existência (Elton John, 2026).
A relação entre sua trajetória pública e sua sexualidade também foi marcada por importantes transformações. Em 1976, em entrevista à Rolling Stone, Elton John declarou: “Não há nenhum mal em ir para a cama com alguém do mesmo sexo”, assumindo publicamente ser bissexual. Posteriormente, em 1988, declarou-se gay, contribuindo para ampliar a visibilidade de artistas homossexuais em um cenário musical no qual a sexualidade masculina ainda era fortemente atravessada por expectativas de masculinidade e heterossexualidade (Terra, [s. d.]).
É justamente nesse ponto que a Teoria Queer das Relações Internacionais se torna uma perspectiva relevante para compreender a trajetória do artista. Esta abordagem constitui uma parte significativa da produção acadêmica LGBTQIA+ nas Relações Internacionais e, influenciada pelo Pós-Estruturalismo e pela Teoria Feminista, procura questionar categorias que frequentemente são apresentadas como naturais ou estáveis. Introduzida por autores como Cynthia Weber (1998), Amy Lind (2010) e Markus Thiel (2015), a Teoria Queer possui afinidade com as Teorias Pós-construtivista e Feminista ao problematizar dicotomias como heterossexual e homossexual, masculino e feminino, branco e não branco, “normal” e “perverso”, público e privado e doméstico e externo (Soares, 2021).
Resumidamente, a busca pela interpretação em lugar da explicação permite à Teoria Queer questionar não apenas aquilo que os sujeitos são, mas como determinadas identidades são produzidas e classificadas. Metodologicamente, portanto, assim como no pós-estruturalismo, não se procura descobrir uma suposta “verdade” definitiva sobre os corpos, as ordens ou as instituições, mas compreender como determinadas figurações queer emergem e são normalizadas ou pervertidas para apoiar ou questionar as ordens existentes (Weber, 2016).
Nesse sentido, Cynthia Weber (2016), em sua obra Queer International Relations: Sovereignty, Sexuality and the Will to Knowledge, desloca a sexualidade da condição de uma questão privada para compreendê-la como parte das relações de poder que estruturam a política. Para a autora, as formas pelas quais determinados sujeitos sexualizados são representados não são neutras: elas participam da produção de fronteiras entre aquilo que pode ser reconhecido como normal, legítimo e pertencente à ordem e aquilo que é construído como perverso, desviante ou ameaçador. Assim, a sexualidade passa a ser compreendida também como um elemento constitutivo das relações políticas e das formas de reconhecimento.
A partir dessa perspectiva, a trajetória de Elton John pode ser compreendida através da própria oposição entre “normal” e “perverso” proposta por Weber (2016). Durante grande parte de sua carreira, sua imagem pública esteve associada a características que desafiavam expectativas tradicionais sobre o comportamento masculino. Seus figurinos extravagantes, sua teatralidade, sua performance e sua própria presença pública produziram uma representação que escapava ao modelo convencional de masculinidade. A questão, para Weber (2016), não seria afirmar que Elton John é “perverso”, mas compreender como determinadas formas de expressão sexual e de gênero podem ser socialmente figuradas como perversas justamente por romperem com aquilo que foi estabelecido como normal.
Essa dimensão pode ser observada em sua própria produção artística. Em The Bitch Is Back (Elton John, 1974), por exemplo, a construção de uma persona marcada pelo excesso, pela irreverência e pela teatralidade contribui para tensionar expectativas sobre como um homem deveria se apresentar e comportar-se publicamente. Em Someone Saved My Life Tonight (Elton John, 1975), por sua vez, a temática de aprisionamento e libertação permite relacionar a experiência individual do artista às expectativas sociais que cercavam sua vida pessoal. As canções, portanto, podem ser compreendidas não apenas como produtos culturais, mas como espaços nos quais identidades e normas são expressas, reproduzidas e também tensionadas.
Entretanto, a trajetória de Elton John não permaneceu restrita à posição de sujeito desviante. Com o passar dos anos, sua sexualidade e sua identidade passaram a ocupar também um espaço de maior legitimidade pública. O artista tornou-se uma figura amplamente reconhecida internacionalmente e passou a utilizar sua visibilidade para atuar em questões relacionadas aos direitos LGBTQIA+ e ao combate ao HIV/AIDS. A criação da Fundação Elton John para a AIDS constitui uma expressão concreta dessa transformação, ao converter sua projeção pública em atuação social e política (Elton John, 2026).
É nesse deslocamento que a formulação de Weber (2016) sobre o “homossexual normal” torna-se particularmente importante. Se, de um lado, o homossexual pode ser figurado como aquele que ameaça ou perturba determinada ordem, de outro, ele também pode ser incorporado a essa ordem como um sujeito legítimo, reconhecido e portador de direitos. A trajetória de Elton John demonstra justamente este processo de reconhecimento: aquele que anteriormente poderia ser associado à ruptura de padrões passa também a ocupar uma posição de legitimidade dentro do espaço público.
Contudo, a análise não deve ser compreendida como uma simples passagem de Elton John do “perverso” para o “normal”. Esta interpretação perderia justamente o aspecto mais importante da proposta de Weber (2016). A autora demonstra que as categorias de normalidade e perversidade não são necessariamente estáveis ou mutuamente excludentes. Determinadas figuras queer podem simultaneamente desafiar e ser incorporadas pelas estruturas existentes, revelando as limitações da própria oposição binária.
A trajetória de Elton John evidencia como a figura do homossexual pode ser construída entre o normal e o perverso, demonstrando que estas categorias não são simplesmente características individuais, mas posições produzidas social e politicamente. Sua experiência permite observar como um sujeito pode inicialmente ser associado àquilo que escapa à norma e, posteriormente, ser incorporado como sujeito legítimo sem necessariamente abandonar todos os elementos que produziram sua condição de dissidência.
Portanto, Elton John demonstra que a música e a cultura não estão isoladas das relações de poder que atravessam a política internacional. Sob a perspectiva de Cynthia Weber, sua carreira permite compreender como sexualidade, identidade, reconhecimento e legitimidade estão profundamente relacionados. Mais do que representar uma simples história de aceitação, Elton John evidencia a própria instabilidade da fronteira entre aquilo que é considerado “normal” e aquilo que é construído como “perverso”.
REFERÊNCIAS
ELTON JOHN. About Elton John. [S. l.], 2026. Disponível em: https://www.eltonjohn.com/elton-john. Acesso em: 1 set. 2026.
SOARES, Larissa. Orgulho LGBTQIA+: repercussões internacionais e emancipação queer. Relações Exteriores, 2021. Disponível em: https://relacoesexteriores.com.br/repercussao-internacional-lgbtqia/. Acesso em: 2 set. 2026.
TERRA. Madonna, Jesus Cristo e homossexualidade: veja declarações polêmicas de Elton John. Terra, [s. d.]. Disponível em: https://www.terra.com.br/musica/infograficos/polemicas.htm. Acesso em: 1 set. 2026.
WEBER, Cynthia. Queer international relations: sovereignty, sexuality and the will to knowledge. New York: Oxford University Press, 2016.
