Foto: Imaginie (2018)

Maria Fernanda Carcassés Gainza – acadêmica do 2° semestre de Relações Internacionais da UNAMA

A democracia é entendida como um processo de participação livre e consciente dos cidadãos nas escolhas políticas. No entanto, com o advento da globalização e a expansão das tecnologias digitais, a circulação de informações tornou-se ainda mais rápida, possibilitando a disseminação de fake news, conteúdos manipulados e discursos polarizadores. 

Sob essa perspectiva, as plataformas digitais, controladas pelas chamadas Big Techs (grandes empresas de tecnologia como Google, Meta e X, que dominam o mercado de redes sociais e pesquisa online), transformaram-se em ferramentas poderosas para a divulgação de informações, mas também de desinformação.

Isso porque influencia no comportamento dos usuários através do uso descontrolado da Inteligência Artificial (FERREIRA, 2024). O problema, portanto, não está na tecnologia em si, mas na maneira como ela pode ser utilizada para influenciar a formação da vontade popular. 

De acordo com a Teoria Crítica das Relações Internacionais, desenvolvida pelo cientista político canadense Robert W. Cox, o poder não deve ser compreendido apenas como força militar ou econômica, mas como uma estrutura social, histórica e ideológica que molda a realidade política e serve a interesses específicos de dominação (COX, 1981). Assim, a capacidade de influenciar ideias, opiniões e comportamentos também pode representar uma forma de poder.

Nesse contexto, a manipulação das escolhas populares representa um desafio significativo para a democracia em escala global, uma vez que a construção de determinadas narrativas pode influenciar a percepção dos eleitores e interferir em suas decisões políticas. Tal cenário pode contribuir para a perda de confiança e legitimidade dos processos eleitorais, assim como afetar a soberania dos Estados. 

Essa manipulação é perigosa porque pode interferir na liberdade de escolha do eleitor, fazendo com que decisões políticas sejam tomadas com base em informações falsas ou distorcidas, sem questionar a veracidade nem a procedência dos fatos. Isto pode afetar não apenas a política interna, mas também o equilíbrio das relações entre os Estados. 

Dessa maneira, a América do Sul, especificamente, enfrenta um cenário geopolítico marcado por diferentes formas de influência estrangeira nos processos políticos. Historicamente, os Estados Unidos exerceram influência significativa sobre a região, especialmente durante a Guerra Fria, quando o combate ao comunismo foi utilizado como justificativa para diferentes formas de intervenção e apoio a forças políticas alinhadas aos seus interesses (BBC NEWS BRASIL, 2023).

Em determinados contextos, essa atuação contribuiu para o fortalecimento de grupos políticos conservadores e anticomunistas, evidenciando como interesses geopolíticos externos podem interferir na dinâmica política dos Estados sul-americanos (FLOR, 2026).

Esse histórico inclui episódios de intervenção em países como Guatemala (1954), Cuba (1961), Panamá (1989), República Dominicana (1965), Granada (1983), e acontecimentos mais recentes, envolvendo a Venezuela (STOCKDALE; FERNANDES; SCHUINSKI, 2026). Muitas destas intervenções podem ser relacionadas à Doutrina Monroe, um princípio de política externa que, apesar de suas origens no século XIX, continuou a influenciar a política externa dos EUA nos últimos 200 anos.

Portanto,  a busca por estabilidade regional, associada à satisfação dos próprios objetivos, esteve entre os fatores que levaram os EUA a intervir em processos democráticos. Esta trajetória alimenta a desconfiança em relação a possíveis ingerências externas em processos eleitorais na América Latina, onde a autonomia e a soberania dos países são valores fundamentais, que precisam ser protegidos (FLOR, 2026).

Assim, a discussão sobre democracia no continente sul-americano precisa considerar as relações de poder existentes no Sistema Internacional (SI) e a possibilidade de interesses externos influenciarem os processos políticos dos Estados. Sob essa visão, as eleições de 2026 no cenário político brasileiro tornam-se  um panorama relevante para discutir os riscos da manipulação da escolha política e a possibilidade de influência internacional  sobre a participação popular. 

Segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), mais de 158 milhões de eleitores estão aptos a participar do primeiro turno das eleições, marcado para 4 de outubro de 2026 (BRASIL, 2026). A dimensão do eleitorado demonstra a importância desse processo para a democracia brasileira e evidencia a necessidade de garantir que as escolhas políticas sejam realizadas de maneira livre e informada.

A democracia global e, em especial, a brasileira, encontram-se sob a constante ameaça de manipulação das escolhas. A complexa interação entre os interesses geopolíticos do governo norte-americano, a influência das plataformas digitais e o impacto nocivo das mídias internacionais, contribuem para um cenário de maior vulnerabilidade nos processos democráticos em escala mundial (FERREIRA, 2024).

Por isso, é imprescindível desenvolver iniciativas que promovam educação midiática, pensamento crítico, transparência diante das plataformas digitais, combatam a desinformação e fomentem o acesso a informações em fontes confiáveis; garantindo que cada cidadão possa formar sua própria opinião e participar da vida política. 

Portanto, preservar a democracia significa proteger a capacidade dos cidadãos de pensar, questionar e escolher livremente, sobretudo em contextos geopolíticos complexos como os que enfrenta atualmente a América do Sul.

Referências:

BBC NEWS BRASIL. Doutrina Monroe: os 200 anos do plano que transformou América Latina em ‘quintal dos EUA’. BBC News Brasil, 4 dez. 2023. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/cgrp3x22d7wo. Acesso em: 9 set. 2026.

BRASIL. Tribunal Superior Eleitoral. Mais de 158 milhões de eleitores estão aptos a votar nas Eleições 2026. Brasília, DF, 20 jul. 2026. Disponível em: https://www.tse.jus.br/comunicacao/noticias/2026/Julho/mais-de-158-milhoes-de-eleitores-estao-aptos-votar-nas-eleicoes-2026. Acesso em: 7 set. 2026.

COX, Robert W. Social forces, states and world orders: beyond international relations theory. Millennium: Journal of International Studies, v. 10, n. 2, p. 126–155, 1981.

FERREIRA, Ivanir. Tecnologias dominadas pelas big techs colocam a democracia em risco em várias frentes. Jornal da USP, São Paulo, 28 nov. 2024. Ciências Humanas. Disponível em: https://jornal.usp.br/ciencias/ciencias-humanas/tecnologias-dominadas-pelas-big-techs-colocam-a-democracia-em-risco-em-varias-frentes/. Acesso em: 7 set. 2026.

FLOR, Katarine. Estados Unidos fortalecem sua influência e desafiam a autonomia da América Latina. Le Monde Diplomatique Brasil, 16 mar. 2026. Disponível em: https://diplomatique.org.br/estados-unidos-fortalecem-sua-influencia-e-desafiam-a-autonomia-da-america-latina/. Acesso em: 9 set. 2026.

STOCKDALE, Amy; FERNANDES, Sofia; SCHUINSKI, Rodrigo Menegat. O histórico de intervenção dos EUA na América Latina. Deutsche Welle, 8 jan. 2026. Disponível em: https://www.dw.com/pt-br/o-hist%C3%B3rico-de-interven%C3%A7%C3%A3o-dos-eua-na-am%C3%A9rica-latina/a-75435021. Acesso em: 8 set. 2026.