Eduardo Oliveira – Internacionalista

A consolidação das abordagens pós-modernas nas Relações Internacionais representou uma importante inflexão na forma de compreender a política mundial, sobretudo por questionar categorias tradicionalmente apresentadas como naturais ou universais. Assim, segurança, identidade, poder e ameaça passam a ser observados também como construções históricas e discursivas.

Nesse sentido, um dos principais proponentes pós-moderno, Foucault (2014), compreende o poder não apenas como instrumento concentrado no Estado, mas como elemento que circula pelas relações sociais, produzindo comportamentos, conhecimentos e formas de interpretação da realidade. Poder e saber encontram-se, assim, profundamente relacionados.

É nesse campo que se insere a noção foucaultiana de “regimes de verdade”. Para Foucault (2019), o discurso não funciona apenas como descrição da realidade, mas participa da construção das condições pelas quais certos conhecimentos são reconhecidos como legítimos, enquanto outros são marginalizados.

Embora a conjuntura e objetos sejam diferentes, suas contribuições permitem compreender contextos nos quais diferentes atores disputam a autoridade de definir acontecimentos, estabelecer riscos e legitimar interpretações da realidade. A questão, portanto, não se limita à oposição entre verdade e mentira, mas envolve também a capacidade política de estabelecer aquilo que será reconhecido como verdadeiro.

A partir dessa tradição crítica, Campbell (1998) aproxima a discussão sobre poder e discurso da construção das identidades políticas. Para o autor, o “Eu” necessita estabelecer fronteiras diante daquilo que é apresentado como diferente, externo ou ameaçador. A construção do “Outro” torna-se, assim, parte fundamental da própria identidade política.

A ameaça ocupa posição central nesse processo, pois os perigos não possuem significado político completamente independente das interpretações formuladas sobre eles. Campbell (1998) demonstra que, ao identificar determinado ator como ameaça, estabelece-se também aquilo que precisa ser protegido e quais valores definem a comunidade colocada em risco.

Há 25 anos, os Estados Unidos da América, então reconhecidos por seu expressivo poder econômico e superioridade militar, confrontavam-se com uma força transnacional capaz de desafiar até mesmo sua posição hegemônica no sistema internacional. Conforme United States (2004), em 11 de setembro de 2001, integrantes da Al-Qaeda sequestraram quatro aeronaves comerciais, atingindo o World Trade Center e o Pentágono, enquanto uma quarta aeronave caiu na Pensilvânia.

Os atentados provocaram a morte de quase três mil pessoas e se transformaram em um dos principais marcos da segurança internacional contemporânea. Passados 25 anos, seus efeitos permanecem perceptíveis inclusive em questões ainda não completamente solucionadas, como a questão dos refugiados islâmicos no mundo, os quais ainda carregam o estigma da guerra ao terror e são privados de direitos e marginalizados.

É simbólico que os atentados tenham ocorrido no centro financeiro do sonho “americano”, sobretudo por demonstrar que o poder não é instrumento exclusivo de Estados soberanos, mas circula entre forças transnacionais, como a própria ação terrorista. Uma organização sem território soberano, forças armadas convencionais ou reconhecimento internacional demonstrava capacidade de atingir símbolos econômicos e militares da principal potência mundial.

Ao mesmo tempo, as imagens da destruição circularam globalmente, ampliando a dimensão política e simbólica do acontecimento. Sob essa perspectiva, o 11 de setembro não se restringiu à destruição material provocada pelos ataques, mas produziu imagens e narrativas que influenciaram profundamente a forma pela qual a ameaça terrorista passaria a ser percebida.

A resposta aos ataques reorganizou a segurança internacional. Conforme United States (2004), a Guerra ao Terror foi acompanhada pela ampliação dos mecanismos de vigilância, controles de fronteira, compartilhamento de informações e transformações nas estruturas norte-americanas de segurança.

Sob uma perspectiva foucaultiana, esses acontecimentos demonstram que o poder passou a atuar ainda mais intensamente sobre deslocamentos, comunicações, informações e indivíduos considerados potencialmente perigosos. Para Foucault (2019), observar, produzir conhecimento e classificar indivíduos também constituem formas de exercício do poder.

Campbell (1998), por sua vez, permite compreender como esse processo envolveu a reconstrução das fronteiras entre o “Eu” e o “Outro”. A representação do terrorismo como ameaça global colaborou para reforçar uma narrativa na qual determinados valores associados aos Estados Unidos e ao Ocidente eram contrapostos à figura de um inimigo radical, perigoso e externo.

A categoria “terrorista” passou, dessa maneira, a organizar percepções sobre territórios, grupos e indivíduos. A definição da ameaça, portanto, não apenas identifica um adversário, mas também contribui para produzir identidades políticas e estabelecer limites entre pertencimento e exclusão, conforme propõe Campbell (1998).

Vinte e cinco anos depois, a principal herança do 11 de setembro talvez não esteja na permanência de uma única organização terrorista, mas na transformação da própria ideia de ameaça. O terrorismo tornou-se mais descentralizado e adaptado aos ambientes digitais, enquanto os Estados desenvolveram instrumentos cada vez mais sofisticados de vigilância e produção de informações. As questões formuladas pelos Pós modernos permanecem, portanto, atuais: quem possui autoridade para definir a ameaça, quem será apresentado como o “Outro” e quais instrumentos serão considerados legítimos para enfrentá-lo? A principal lição do 11 de setembro encontra-se justamente na compreensão de que ameaças não apenas produzem respostas, mas também reorganizam identidades, instituições e os limites daquilo que as sociedades estão dispostas a aceitar em nome da própria segurança.

Referências:

CAMPBELL, David. Writing security: United States foreign policy and the politics of identity. 2. ed. rev. Minneapolis: University of Minnesota Press, 1998.

FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso: aula inaugural no Collège de France, pronunciada em 2 de dezembro de 1970. 24. ed. São Paulo: Edições Loyola, 2014.

FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. 10. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2019.

G1. 25 anos do 11 de setembro: a agonia dos parentes das vítimas que até hoje aguardam julgamento do cérebro dos atentados. G1, 10 set. 2026. Disponível em: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2026/09/10/25-anos-do-11-de-setembro-a-agonia-dos-parentes-das-vitimas-que-ate-hoje-aguardam-julgamento-do-cerebro-dos-atentados.ghtml. Acesso em: 05 set. 2026.

UNITED STATES. National Commission on Terrorist Attacks Upon the United States. The 9/11 Commission report: final report of the National Commission on Terrorist Attacks Upon the United States. Washington, DC: U.S. Government Printing Office, 2004.