Izabelle Gama – Acadêmica do 4° Semestre de Relações Internacionais da UNAMA

Antonio Gramsci nasceu em 1891, na Sardenha, região marcada por fortes desigualdades econômicas e sociais em relação ao norte da Itália. Esse contexto, somado aos limites do processo de unificação italiana, contribuiu para sua preocupação com as relações entre grupos sociais, poder e formação política. Posteriormente, tornou-se militante socialista e participou da fundação do Partido Comunista Italiano, aproximando sua atuação política de uma reflexão sobre as formas pelas quais as sociedades se organizam e reproduzem relações de poder.

Em 1926, durante o regime fascista de Benito Mussolini, Gramsci foi preso e permaneceu encarcerado em diferentes locais, especialmente na prisão de Turi. Foi nesse período que produziu, entre 1929 e 1935, os textos posteriormente reunidos nos Cadernos do Cárcere. Gramsci morreu em 1937, e os Cadernos foram publicados postumamente, sendo posteriormente organizados em uma edição crítica por Valentino Gerratana. Portanto, não se trata de uma obra planejada como um livro único, mas de um conjunto de anotações desenvolvidas em diferentes momentos de sua reflexão.

Essa característica fragmentada é importante para compreender o pensamento presente nos Cadernos. Gramsci não apresenta suas ideias como uma teoria completamente fechada, mas retoma problemas e conceitos a partir de diferentes perspectivas. Entre essas preocupações está a relação entre teoria e prática, expressa na chamada filosofia da práxis. Para Gramsci, compreender a realidade não deveria significar apenas interpretá-la, mas também desenvolver condições para transformá-la historicamente (GRAMSCI, 1999).

Essa compreensão parte de uma crítica à ideia de que a filosofia seria uma atividade restrita aos especialistas. Na obra, Gramsci afirma que todos os homens seriam filósofos, pois todos possuem uma concepção de mundo construída por meio da linguagem, do senso comum, da religião e de outras formas de conhecimento presentes na vida cotidiana. A questão, portanto, não é simplesmente possuir uma visão de mundo, mas compreender criticamente como ela foi formada e quais relações sociais estão envolvidas nesse processo (GRAMSCI, 1999).

A partir disso, Gramsci diferencia a aceitação passiva das ideias dominantes de uma consciência capaz de questioná-las. O indivíduo pode reproduzir concepções presentes em seu ambiente social sem perceber suas contradições ou desenvolver uma compreensão crítica de sua realidade. Essa diferença possui também um caráter político, pois a maneira como um grupo interpreta o mundo influencia sua capacidade de se organizar, participar da história e disputar projetos de sociedade.

É nesse ponto que o conceito de hegemonia ganha importância. Para Gramsci, o poder não funciona somente pela coerção ou pela força econômica, mas também pela capacidade de um grupo social construir consenso em torno de determinadas ideias e interesses. A hegemonia envolve, portanto, a direção cultural e política da sociedade, fazendo com que determinadas concepções sejam percebidas como naturais ou universais. Assim, a manutenção de uma ordem depende tanto da força quanto da capacidade de produzir consentimento (GRAMSCI, 1999).

Essa concepção permite ampliar a análise para o sistema internacional. A influência dos Estados Unidos, por exemplo, não depende apenas de seu poder militar e econômico, mas também de sua capacidade de influenciar instituições e normas que estruturam a ordem mundial. O Fundo Monetário Internacional (FMI), o Banco Mundial e a Organização Mundial do Comércio (OMC) participam da definição de regras sobre financiamento, comércio e desenvolvimento.

Uma leitura gramsciana permite questionar quem possui maior capacidade de influenciar essas regras e como determinadas concepções econômicas são apresentadas como soluções técnicas e universais, apesar de estarem relacionadas a relações concretas de poder.

Nesse processo, os intelectuais possuem uma função importante. Gramsci diferencia os intelectuais tradicionais daqueles que chama de intelectuais orgânicos, ligados às necessidades e aos projetos de determinados grupos sociais. O intelectual orgânico não é apenas alguém que produz conhecimento, mas alguém que participa da organização política e cultural de um grupo. A produção e a circulação de ideias, portanto, também fazem parte da disputa pela direção da sociedade (GRAMSCI, 1999).

A discussão sobre os intelectuais relaciona-se à formação da consciência dos grupos subalternos. Gramsci demonstra que grupos que ocupam posições de menor poder político e econômico enfrentam dificuldades para organizar seus interesses e produzir uma visão de mundo capaz de disputar espaço com as concepções dominantes. A filosofia da práxis busca superar essa condição por meio da construção de uma consciência crítica e de uma maior capacidade de organização política (GRAMSCI, 2000).

Essa relação entre diferentes grupos também conduz ao conceito de bloco histórico. Para Gramsci, uma transformação social não depende somente da economia ou da política isoladamente, mas da articulação entre estruturas materiais, instituições, ideias e grupos sociais. A formação de um bloco histórico ocorre quando essas dimensões se relacionam em torno de determinado projeto. Desse modo, a hegemonia não é apenas uma ideia abstrata, mas uma construção sustentada por organizações, valores, práticas e interesses concretos.

O próprio processo de unificação italiana é utilizado por Gramsci para pensar situações em que mudanças políticas ocorrem sem uma transformação profunda das relações sociais. Sua análise do Risorgimento e da chamada “revolução passiva” mostra como determinados grupos podem conduzir mudanças e incorporar algumas demandas sociais sem permitir uma ruptura completa da estrutura de poder. Essa interpretação demonstra que uma ordem pode se transformar sem necessariamente romper com relações de poder anteriores, questão que posteriormente contribui para pensar a permanência e a transformação das ordens internacionais (GRAMSCI, 2000).

Embora Gramsci não tenha elaborado uma teoria específica das Relações Internacionais, seus conceitos passaram posteriormente a ser utilizados para pensar o funcionamento da ordem mundial. O pensamento neogramsciano amplia categorias como hegemonia, sociedade civil, bloco histórico e relações de força para além do espaço nacional. 

Com isso, o sistema internacional deixa de ser analisado somente como uma disputa entre Estados e passa a ser compreendido também como um espaço no qual Estados, instituições, grupos sociais e interesses econômicos participam da construção das estruturas de poder.

Essa contribuição representa uma crítica às interpretações que tratam o sistema internacional como uma realidade estática, definida apenas pela distribuição de poder entre Estados. A perspectiva neogramscianaquestiona como essa distribuição foi historicamente construída e por que determinadas estruturas conseguem permanecer estáveis. O Estado continua sendo relevante, mas passa a ser analisado em conjunto com instituições, grupos sociais e ideias que contribuem para a manutenção ou contestação de uma determinada ordem internacional.

A emergência da China ajuda a observar essa disputa. Sua crescente participação na economia mundial, sua atuação no BRICS e a criação do Novo Banco de Desenvolvimento ampliam a participação de países emergentes na construção de mecanismos de financiamento e governança internacional. Isso não significa o fim da influência dos Estados Unidos ou das instituições ocidentais, mas demonstra que a ordem mundial é objeto de disputa. 

Sob a perspectiva de Gramsci, essa disputa envolve recursos materiais e, simultaneamente, a tentativa de apresentar diferentes modelos de desenvolvimento e cooperação como alternativas legítimas para a organização da economia mundial.

A relevância dos Cadernos do Cárcere para as Relações Internacionais está, portanto, na possibilidade de ampliar a compreensão sobre o poder. Gramsci permite perceber que uma ordem política não se sustenta apenas pela força, mas também por ideias, instituições e relações sociais capazes de produzir legitimidade. 

Referências:

GRAMSCI, Antonio. Cadernos do cárcere: vida e pensamento, uma antologia. Organização de Carlos Nelson Coutinho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1999.

GRAMSCI, Antonio. Cadernos do cárcere. Volume 1. Edição de Valentino Gerratana. São Paulo: Boitempo, 2000.