
SUANE DOS SANTOS ROCHA – acadêmica do 4º Semestre de Relações Internacionais da Unama.
A ordem mundial contemporânea passa por importantes transformações que colocam em questão a tradicional centralidade política, econômica e cultural do Ocidente. Nesse contexto, a expansão dos BRICS+ representa mais do que o crescimento da influência de países emergentes, pois está relacionada à construção de uma ordem internacional cada vez mais multipolar.
Walter D. Mignolo, na obra Los BRICS+: colonización y desoccidentalización (2026), argumenta que a expansão dos BRICS+ deve ser compreendida como parte de um processo de desocidentalização do mundo. Para o autor, a disputa contemporânea não envolve apenas a distribuição do poder entre Estados, mas também o controle do capital, do conhecimento e da capacidade de definir os rumos da política internacional. Assim, analisar os BRICS+ exige considerar a permanência de estruturas históricas de poder que continuam influenciando as relações internacionais mesmo após o fim do colonialismo formal.
A contribuição de Aníbal Quijano é fundamental para compreender essa questão. Em Colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina (2005), o autor explica que o fim do colonialismo não eliminou as relações de dominação construídas durante a experiência colonial. A colonialidade do poder corresponde à permanência de hierarquias sociais, econômicas, culturais e epistêmicas associadas à expansão do capitalismo moderno eurocêntrico. Na mesma direção, Edgardo Lander, em A colonialidade do saber (2005), demonstra que o eurocentrismo também influencia a produção do conhecimento e transforma determinados modelos de sociedade em padrões apresentados como universais.
Desse modo, mesmo após a independência política das antigas colônias, desigualdades e hierarquias continuaram presentes. Essa perspectiva permite compreender que a influência ocidental não se sustenta apenas pela força econômica ou militar, mas também pela capacidade de definir padrões de modernidade, desenvolvimento, conhecimento e progresso considerados legítimos.
É nesse ponto que a discussão sobre os BRICS+ ganha importância. Para Mignolo (2026), a desocidentalização é mais ampla que a descolonização, pois envolve mudanças na organização do poder mundial. Os BRICS+ buscam ampliar a participação de diferentes centros de poder nas decisões internacionais e fortalecer a cooperação entre países emergentes e em desenvolvimento (BRICS Brasil, 2025a). Nesse contexto, o NDB representa uma alternativa de cooperação financeira para o financiamento de projetos de infraestrutura e desenvolvimento (BRICS Brasil, 2025b). Entretanto, a multipolaridade não garante, automaticamente, o fim da colonialidade, já que os Estados ainda estão inseridos em estruturas econômicas, políticas e sociais formadas pela modernidade ocidental.
Consequentemente, os BRICS+ devem ser analisados de forma crítica. Sua expansão modifica a distribuição do poder internacional, mas não garante, por si só, uma ordem livre de estruturas coloniais. Como demonstra Quijano (2005; 2014), a colonialidade ultrapassa o domínio direto de um Estado e envolve exploração, hierarquias sociais, controle do conhecimento e permanência do eurocentrismo. Além disso, as análises da UNCTAD (2026) evidenciam que o comércio e o desenvolvimento mundial continuam marcados por desigualdades entre países e regiões. Assim, embora os BRICS+ ampliem a presença do Sul Global e questionem a concentração histórica do poder, permanece o desafio de transformar estruturas que vão além das dimensões econômica e diplomática. A questão central não é apenas saber se o agrupamento substituirá o Ocidente, mas se poderá construir relações internacionais capazes de superar antigas hierarquias, em vez de apenas reorganizá-las.
Por fim, a ascensão dos BRICS+ constitui uma manifestação relevante das transformações da ordem mundial. A partir de Mignolo (2026), esse processo pode ser entendido como uma tendência de desocidentalização, marcada pela busca de maior multipolaridade e pela contestação da centralidade histórica do Ocidente. Contudo, Quijano (2005; 2014) demonstra que a redistribuição do poder não elimina automaticamente a colonialidade. Transformar a ordem mundial exige, portanto, questionar não apenas quem ocupa posições de influência, mas também quais conhecimentos, modelos de desenvolvimento e formas de poder são reconhecidos como legítimos.
Nesse cenário, a atuação econômica e institucional dos BRICS+, incluindo o NDB, mostra que a transformação da ordem internacional ocorre tanto no campo político quanto no econômico. O agrupamento representa uma possibilidade concreta de mudança, mas seu caráter efetivamente descolonizador dependerá de sua capacidade de ir além da simples redistribuição do poder e contribuir para relações internacionais menos marcadas pela colonialidade
REFERÊNCIAS
BRASIL. Presidência da República. Perguntas frequentes sobre o BRICS. Brasília, DF: BRICS Brasil, 2025a. Disponível em: https://brics.br/pt-br/sobre-o-brics/perguntas-frequentes-sobre-o-brics. Acesso em: 8 set. 2026.
BRASIL. Presidência da República. Novo Banco de Desenvolvimento. Brasília, DF: BRICS Brasil, 2025b. Disponível em: https://brics.br/en/about-the-brics/new-development-bank. Acesso em: 8 set. 2026.
LANDER, Edgardo (org.). A colonialidade do saber: eurocentrismo e ciências sociais: perspectivas latino-americanas. Buenos Aires: CLACSO, 2005.
MIGNOLO, Walter D. Los BRICS+: colonización y desoccidentalización. Tektónikos, 12 ago. 2026. Disponível em: https://tektonikos.website/los-brics-colonizacion-y-desoccidentalizacion/. Acesso em: 8 set. 2026.
QUIJANO, Aníbal. Colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina. In: LANDER, Edgardo (org.). A colonialidade do saber: eurocentrismo e ciências sociais: perspectivas latino-americanas. Buenos Aires: CLACSO, 2005. p. 117-142.
QUIJANO, Aníbal. Cuestiones y horizontes: de la dependencia histórico-estructural a la colonialidad/descolonialidad del poder. Buenos Aires: CLACSO, 2014.
UNITED NATIONS CONFERENCE ON TRADE AND DEVELOPMENT (UNCTAD). Global Trade Update: reforming trade rules to drive development. Geneva: UNCTAD, mar. 2026. Disponível em: https://unctad.org/publication/global-trade-update-march-2026-reforming-trade-rules-drive-development. Acesso em: 8 set. 2026..
