
Vinicius Bouth, Acadêmico do 2º semestres de Relações Internacionais
Alciane Carvalho, Internacionalista formada pela UNAMA
Em um cenário de transformações frenéticas na indústria da música, poucas trajetórias retratam a imperativa necessidade de reinvenção quanto a do Bring Me The Horizon (BMTH). Emergindo em 2004 nas sombras industriais de Sheffield, Inglaterra, o grupo formado por Oliver Sykes, Lee Malia, Matt Kean e Matt Nicholls trilhou um caminho singular: partiu da violência brutal do deathcore inicial para conquistar o topo das paradas globais, fundindo metalcore, pop, música eletrônica e texturas sinfônicas (ALT|PRESS, 2022; IMPERICON, 2024). Até mesmo o nome do grupo — inspirado na icônica frase “Now, bring me that horizon” dita pelo Capitão Jack Sparrow no filme Piratas do Caribe: A Maldição do Pérola Negra (PIRATAS…, 2003) — sugere uma busca incessante por um horizonte em constante deslocamento, onde acomodar-se significa desvanecer (IMPERICON, 2024). Para além do apelo estético, a história e o catálogo da banda inglesa funcionam como um poderoso espelho das dinâmicas mais profundas da Teoria das Relações Internacionais.
Quando analisamos a trajetória do BMTH sob a lente das Relações Internacionais, a banda emerge como um estudo de caso fascinante para a Teoria do Realismo. A tradição realista postula que os atores habitam uma arena fundamentalmente anárquica, caracterizada pela ausência de uma autoridade central capaz de impor a ordem ou garantir a segurança dos indivíduos.
Nesse ecossistema impiedoso, a busca por poder, estabilidade e a garantia da própria sobrevivência constituem os motores primários da conduta política e humana, forçando os atores a agir sob a lógica da autotutela (self-help). Conforme sintetiza Kenneth Waltz (2002, p. 126): “Em um sistema anárquico, a segurança é o fim supremo. Somente se a sobrevivência estiver assegurada é que os atores podem buscar outros objetivos, tais como a tranquilidade, o lucro ou a influência.”
Embora uma banda de rock não ostente a soberania de um Estado, a estrutura da indústria cultural opera em um microcosmo anárquico igualmente implacável, no qual a estagnação é o primeiro passo para o esquecimento. A evolução fonográfica do Bring Me The Horizon reflete com precisão esse imperativo de sobrevivência e adaptação estratégica. No início da carreira, ao lançar o EP This Is What The Edge Of Your Seat Was Made For (2004) e o álbum de estreia Count Your Blessings (2006), o grupo viu-se confinado a um nicho restrito e polarizado do deathcore (ALT|PRESS, 2022). Ao perceber que a manutenção daquela posição estática limitava sua longevidade em um mercado volátil, o BMTH agiu como um ator racional e pragmático: reconfigurou suas capacidades sonoras e estéticas em trabalhos subsequentes como Sempiternal (2013) e That’s the Spirit (2015). A incorporação de arranjos eletrônicos e melodias acessíveis não foi uma mera concessão comercial, mas uma manobra calculada de balanceamento de poder para assegurar hegemonia e relevância em palcos mundiais.
Essa cosmovisão realista e cética reverbera de maneira vívida no conteúdo lírico e visual do grupo, articulando-se diretamente com os conflitos do mundo contemporâneo. No projeto Post Human: Survival Horror (2020), o BMTH mergulha de cabeça em narrativas de colapso sistêmico e crise sanitária global, utilizando a música como diagnósticos da fragilidade institucional. Essa perspectiva transparece na visceral “Parasite Eve”, na qual a banda expõe a vulnerabilidade das sociedades diante de ameaças existenciais e escancara a incapacidade das estruturas internacionais em prover segurança coletiva efetiva em momentos de caos. Dando continuidade a essa reflexão sobre a ruína das ordens estabelecidas, a faixa “Ludens”, composta para a trilha sonora do jogo Death Stranding (DEATH…, 2019), evoca um estado de natureza caótico ao questionar as ilusões da civilização moderna e clamar por novas formas de poder quando as instituições tradicionais desmoronam.
O ceticismo do Realismo em relação a discursos idealistas e à manipulação política encontra eco em outras composições centrais do catálogo. Na música “MANTRA”, a banda desmascara a facilidade com que discursos messiânicos e narrativas ideológicas arregimentam massas, espelhando a tese realista de que construções ideológicas são frequentemente mobilizadas para mascarar a busca pelo poder bruto e pelo controle social. Em contrapartida, a explosiva “Kingslayer” simboliza a resistência e o recurso à força contra regimes opositores e opressores, reforçando a premissa de que a autotutela e a capacidade de adaptação são os recursos derradeiros em um mundo destituído de uma justiça global garantida.
Em suma, a trajetória do Bring Me The Horizon demonstra como os preceitos do Realismo extrapolam a análise geopolítica tradicional e se manifestam nos dinâmicos processos da cultura de massa. Seja através do pragmatismo calculado com que reconfigurou sua sonoridade para dominar a indústria musical, ou por meio de composições que retratam a anarquia, o colapso e a necessidade de autotutela, o grupo evidencia que a busca por poder e segurança é uma constante em sistemas competitivos. Assim, o BMTH consolida seu “Passaporte Musical” ao traduzir, em linguagem sonora e poética, o imperativo categórico da Teoria Realista: em um ambiente anárquico e hostil, a adaptação contínua é a única garantia de sobrevivência.
Referências:
ALTERNATIVE PRESS STAFF. Bring Me The Horizon discuss their musical evolution in AltPress issue #401 cover story. Alternative Press, 26 jan. 2022. Disponível em: “https://www.altpress.com/bring-me-the-horizon-cover-interview-issue-401/” (https://www.altpress.com/bring-me-the-horizon-cover-interview-issue-401/). Acesso em: 18 set. 2026.
DEATH STRANDING. Desenvolvimento: Kojima Productions. Publicação: Sony Interactive Entertainment, 2019. Jogo eletrônico.
EVERYTHING about Bring Me The Horizon: Band Wiki. Impericon Magazine, 2024. Disponível em: “https://www.impericon.com/pages/bring-me-the-horizon-wiki” (https://www.impericon.com/pages/bring-me-the-horizon-wiki). Acesso em: 18 set. 2026.
PIRATAS do Caribe: A Maldição do Pérola Negra. Direção: Gore Verbinski. Produção: Jerry Bruckheimer. Estados Unidos: Walt Disney Pictures, 2003. 1 filme (143 min).
WALTZ, Kenneth N. Teoria das Relações Internacionais. Tradução de Maria de Fátima St. Aubyn. Lisboa: Gradiva, 2002.
