
Rafael de Souza Corrêa – 4° semestre
Nos últimos cinco anos, o futebol profissional passou por uma profunda transformação em seu modelo de financiamento, ocasionada pela intensa entrada das empresas de apostas esportivas eletrônicas, popularmente conhecidas como bets. O tema ganha importância no âmbito das Relações Internacionais porque a grande maioria dessas corporações possui sede operacional registrada no exterior, em jurisdições offshore como Curaçao e Malta (Acessa.com, 2023). Ao atuarem em território nacional sem uma regulação fiscal direta inicial, essas operadoras estabeleceram uma ponte direta entre o capital financeiro transnacional e as principais instituições esportivas do país.
Ademais, esse avanço ganhou impulso decisivo a partir da aprovação da Lei n° 13.756/2018, que legalizou a atividade das bets no Brasil e abriu caminho para um crescimento comercial sem precedentes (Brasil, 2018). Em poucos anos, as casas de apostas ocuparam o patrocínio máster da maioria das equipes das Séries A e B do Campeonato Brasileiro. No auge da expansão dessas plataformas no futebol brasileiro, em 2026, 13 dos 20 clubes da Série A estampavam marcas de apostas nas suas camisas (O Globo, 2026). Esse investimento aumenta de forma significativa o orçamento dos times e redefine o patamar financeiro do esporte nacional.
Isso posto, o maior exemplo desses valores expressivos é o Flamengo, detentor do maior contrato da história do futebol brasileiro, assinado em agosto de 2025, no qual a Betano pagaria R$ 268,5 milhões por temporada (Ge, 2025). Com uma receita recorde de R$ 2,8 bilhões em 2025, esse patrocínio representou 12,85% do orçamento bruto do clube (O Globo, 2026). Na sequência, São Paulo e Corinthians também registravam impacto superior a 10% em seus faturamentos: a Superbet investia R$ 113 milhões anuais no tricolor paulista (10,5% da receita), enquanto a Esportes da Sorte destinava R$ 103 milhões ao alvinegro (10,6% do orçamento total) (O Globo, 2026).
Além disso, na perspectiva da Teoria da Interdependência Complexa e no conceito de atores transnacionais, propostos por Robert Keohane e Joseph Nye (2011, p. 20-22), o sistema internacional contemporâneo não é composto somente por Estados soberanos, mas por diversos canais de conexão que unem sociedades por meio de atores não estatais. Nesse contexto, corporações privadas multinacionais passam a exercer papel de destaque na política e na economia global, ultrapassando fronteiras sem a necessidade de mediação estatal direta (Keohane; Nye, 2011, p. 20-22).
Sob essa ótica, as empresas de apostas esportivas atuam como atores transnacionais que agem em ambientes digitais e sem fronteiras. Essa interação entre grandes empresas globais e grupos locais estabelece uma relação de interdependência assimétrica (Keohane; Nye, 2011, p. 9-10, 15). Enquanto os clubes de futebol brasileiros necessitam do fluxo contínuo de capital estrangeiro para equilibrar e expandir seus orçamentos, as operadoras transnacionais dependem do alcance do futebol nacional e da ampla base de torcedores para ampliarem suas receitas no mercado global.
Outro ponto importante a se destacar da formulação de Keohane e Nye (2011, p. 10-12) é a diferença entre os conceitos de sensibilidade e vulnerabilidade. A sensibilidade refere-se à rapidez com que um ator sofre os impactos de mudanças externas antes de reajustar suas políticas internas. Por sua vez, a vulnerabilidade indica a capacidade real desse ator em conseguir alternativas estratégicas caso a parceria seja rompida (Keohane; Nye, 2011, p. 10-12).
No futebol brasileiro, essa vulnerabilidade ficou praticamente evidente em 17 de setembro de 2026, quando clubes como Flamengo, Corinthians, São Paulo, Palmeiras, Vasco, Fluminense, entre outros, aderiram ao manifesto “O Fim do Futebol Brasileiro”. Na ocasião, as equipes reagiram às restrições do PL 2.470/2026, projeto que previa a proibição da publicidade e patrocínio de apostas no esporte (Brasil, 2026), alertando que a perda imediata de aproximadamente R$ 1 bilhão em receitas contratuais dificultaria o pagamento das folhas salariais e o sustento operacional das equipes, devido à impossibilidade de obter fontes de faturamento substitutas de mesmo porte em curto prazo (G1, 2026).
Outrossim, o processo de entrada das casas de apostas no esporte brasileiro iniciou-se formalmente com a promulgação da Lei n° 13.756/2018, sancionada pelo então presidente Michel Temer, que autorizou as apostas de quota fixa no Brasil (Brasil, 2018). Entre 2019 e 2022, durante a gestão do presidente Jair Bolsonaro, o setor de apostas atuou em um vácuo regulatório no Brasil, uma vez que o Governo Federal não editou os decretos necessários para a efetiva regulamentação da Lei n° 13.756/2018 (BBC News Brasil, 2026). Aproveitando a falta de controle estatal no país, dezenas de empresas multinacionais e marcas fundadas por brasileiros registraram suas sedes em jurisdições offshore, como Curaçao e Malta, dominando os patrocínios esportivos (Acessa.com, 2023).
Logo após, como resposta aos escândalos de manipulação de resultados e à necessidade de arrecadação tributária, o Governo Federal, sob a gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, aprovou a Lei n° 14.790/2023 (Brasil, 2023). A nova legislação buscou organizar o setor ao exigir o pagamento de, no máximo, R$ 30 milhões para a obtenção de autorização, a instalação de uma sede física no Brasil, a cobrança de impostos sobre empresas e apostadores, além de regras rígidas de compliance (Brasil, 2023). Marcas como Betano, Stake, Pixbet e Esportes da Sorte passaram pelo processo de autorização para atuar no mercado regulado (Brasil, 2026).
Entretanto, em 2026, a preocupação pública com o setor atingiu o auge à medida que os jogos de apostas passaram a ser reconhecidos formalmente como um grave problema sanitário e socioeconômico. Segundo relatório técnico do Ministério da Saúde, o avanço desregulado das plataformas digitais agiu como um determinante comercial da saúde, cujo modelo algorítmico e publicitário explorou vulnerabilidades sociais e causou o comprometimento da renda básica e no superendividamento de milhões de famílias, atingindo em sua maioria os estratos socioeconômicos de menor renda (Brasil, 2025, p. 14-15, 20).
Dessa maneira, diante dessa crise social e do risco à economia doméstica, o Governo Federal agiu no dia 25 de setembro de 2026 ao anunciar a Medida Provisória n° 1.394/2026 que proibiu a atuação e a publicidade de bets em território nacional (Brasil, 2026). A norma determinou o encerramento dessas plataformas e exigiu a retirada total das marcas de apostas dos uniformes e estádios de futebol até o dia 5 de outubro de 2026 (Brasil, 2026).
Por fim, se conclui que a dependência do futebol brasileiro em relação ao capital transnacional das bets revelou uma profunda vulnerabilidade estrutural, agravada pelo impacto social absurdo dessas plataformas sobre os próprios torcedores, que lutam contra o superendividamento, o vício e o comprometimento da renda familiar em função das apostas (Brasil, 2025, p. 14-15, 20, 47). Para superar esse impasse financeiro, os clubes devem reestruturar seus modelos de negócios por meio da diversificação de fontes de lucro, como a expansão do sócio-torcedor, o licenciamento de marca, a formação de atletas e novos acordos comerciais sustentáveis, diminuindo o impacto de novas regulamentações do governo e garantindo a autonomia dos clubes, sem comprometer a estabilidade socioeconômica de suas comunidades de torcedores.
Referências:
ACESSA.COM. Sites de apostas dominam futebol do Brasil e operam de Curaçao e Malta. Juiz de Fora, 8 mar. 2023. Disponível em: https://www.acessa.com/esporte/2023/03/138198-sites-de-apostas-dominam-futebol-do-brasil-e-operam-de-curacao-e-malta.html. Acesso em: 29 set. 2026.
ACORDO do Flamengo com nova patrocinadora prevê pagamento imediato; veja valor. GE, 23 ago. 2025. Disponível em: https://ge.globo.com/google/amp/futebol/times/flamengo/noticia/2025/08/23/acordo-do-flamengo-com-nova-patrocinadora-preve-pagamento-imediato-veja-valor.ghtml. Acesso em: 27 set. 2026.
BETS pagaram R$ 1,1 bilhão aos maiores clubes de futebol em 2025; veja o impacto da proibição. G1, Rio de Janeiro, 25 set. 2026. Disponível em: https://g1.globo.com/economia/noticia/2026/09/25/bets-pagaram-r-11-bilhao-aos-maiores-clubes-de-futebol-em-2025-veja-o-impacto-da-proibicao.ghtml. Acesso em: 28 set. 2026.
BRASIL. Congresso Nacional. Projeto de Lei nº 2.470, de 2026. Dispõe sobre restrições à publicidade e patrocínio de apostas esportivas no esporte brasileiro. Brasília, DF: Câmara dos Deputados, 2026.
BRASIL. Lei nº 13.756, de 12 de dezembro de 2018. Dispõe sobre a destinação do produto da arrecadação das loterias e autoriza a modalidade lotérica de apostas de quota fixa. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, 13 dez. 2018.
BRASIL. Lei nº 14.790, de 29 de dezembro de 2023. Dispõe sobre a modalidade lotérica denominada apostas de quota fixa; altera as Leis nºs 5.768, de 20 de dezembro de 1971, e 13.756, de 12 de dezembro de 2018. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, 29 dez. 2023.
BRASIL. Medida Provisória nº 1.394, de 25 de setembro de 2026. Dispõe sobre a proibição da exploração, oferta e publicidade de apostas de quota fixa no território nacional. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, 25 set. 2026.
BRASIL. Ministério da Fazenda. Secretaria de Prêmios e Apostas. Empresas autorizadas: transparência ativa – processos de autorização de apostas de quota fixa. Brasília, DF: Ministério da Fazenda, 2026. Disponível em: https://www.gov.br/fazenda/pt-br/composicao/orgaos/secretaria-de-premios-e-apostas/transparencia-ativa-processos-de-autorizacao-de-apostas-de-quota-fixa/empresas-autorizadas. Acesso em: 29 set. 2026.
BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Especializada à Saúde. Departamento de Saúde Mental, Álcool e outras Drogas. Linha de cuidado para pessoas com problemas relacionados a jogos de apostas. Brasília: Ministério da Saúde, 2025. 69 p. Disponível em: http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/linha_cuidado_problemas_jogos_apostas.pdf. Acesso em: 9 out. 2026.
CARRANÇA, Thais. Bets causam prejuízo ao PIB cinco vezes maior do que tarifaço de Trump, aponta estudo. BBC News Brasil, São Paulo, 24 ago. 2026. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/cp9edmddyz2o. Acesso em: 29 set. 2026.
CLUBES da Série A têm cerca de 7% das receitas oriundas de patrocínio de bets; veja ranking. O Globo, 23 set. 2026. Disponível em: https://oglobo.globo.com/esportes/futebol/noticia/2026/09/23/clubes-da-serie-a-tem-cerca-de-7percent-das-receitas-oriundas-de-patrocinio-de-bets-veja-ranking.ghtml. Acesso em: 27 set. 2026.
KEOHANE, Robert O.; NYE, Joseph S. Power and Interdependence. 4. ed. Boston: Longman, 2011.
ROSSI, Marina. Bets no Brasil: o papel dos governos Temer, Bolsonaro e Lula no mercado de apostas. BBC News Brasil, São Paulo, 25 set. 2026. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/ck790g72qev5o. Acesso em: 28 set. 2026.
