Foto: Diocese de Juína

Maria Clara Barata – acadêmica do 6° semestre de Relações Internacionais da UNAMA

O Círio de Nazaré é uma grande manifestação religiosa do povo paraense, que ocorre no segundo domingo de outubro, deixando as ruas de Belém cheias para prestar homenagens à Nossa Senhora de Nazaré. Em decorrência, de sua grandiosidade o Círio ultrapassa o âmbito religioso, se tornando uma importante manifestação cultural do Estado do Pará, sendo declarado pela UNESCO como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade e pelo IPHAN como Patrimônio Cultural do Brasil (ONU Brasil, 2014; IPHAN, 2004).  

Além disso, o Círio de Nazaré reúne diversos elementos religiosos, turísticos e culturais, também incorpora manifestações relacionadas à cultura amazônica. Deste modo, é necessário compreender o Círio não somente como uma tradição religiosa, mas também como uma manifestação cultural e de pertencimento que foi construída pelo povo paraense.

A celebração envolve diferentes grupos sociais e conhecimentos transmitidos entre gerações, construindo um espaço de construção de memória e identidade. Neste sentido, Queiroz (2016, p. 206) argumenta que “assistir a passagem da Santa, mais do que um dever social, torna-se uma recordação de vida para os pais e os avós, e uma projeção para os filhos”. Bem como, o IPHAN (2013), recorda essa diversidade de crenças e práticas presentes na festa de Nazaré e transmissão de conhecimentos que são passados de geração em geração. 

A tradição da devoção a Nossa Senhora de Nazaré possui origem portuguesa e também na atuação de jesuítas na Amazônia durante o período colonial (G1, 2015). Ao longo do tempo, o povo paraense apropriou-se desta devoção atribuindo novos significados, práticas, símbolos e formas de participação próprias da realidade amazônica (Magalhães, 2026).  

Nesse sentido, se pode compreender o Círio de Nazaré por meio da Teoria Decolonial, em especial pelo conceito desenvolvido por Aníbal Quijano (2005), no qual permite entender que o processo colonial não envolveu somente a dominação política e territorial, mas também a imposição de formas de conhecimento, valores e práticas culturais. 

Sendo assim, a perspectiva decolonial procura questionar a hierarquização e reconhecer as diferentes formas de produzir e transmitir conhecimento (Quijano, 2005). Com o passar dos anos, a celebração ganhou novas características, com conhecimento, valores e culturas do Pará, fazendo o Círio ser cada vez mais incorporado à cultura paraense.

Do mesmo modo, o Círio de Nazaré pode ser compreendido como resultado de um processo de transformação cultural, no qual uma tradição de origem europeia adquiriu características próprias da região amazônica. A dimensão religiosa é fundamental e essencial para compreender a importância da manifestação, para diversas pessoas, a participação no Círio está relacionada à fé, agradecimento e ao cumprimento de promessas, a procissão do segundo domingo de outubro se torna um momento da expressão da religiosidade das pessoas (Queiroz, 2016).

Além disso, a celebração do Círio também ocorre no meio familiar, com experiências e tradições que são passadas de geração a geração, práticas que são transmitidas de pais para filhos, algo importante para o povo paraense. Cria-se um sentimento de pertencimento, trazendo uma memória afetiva para as pessoas com a participação nas procissões ou no tradicional almoço do círio, uma tradição que se tornou parte da cultura paraense, em especial durante o Círio. 

Desse modo, a população não é apenas uma simples espectadora da celebração, antes participa ativamente da construção dessa celebração cultural, preservando as suas práticas e transmitindo conhecimentos. Observa-se que o Círio de Nazaré tem uma grande dimensão artística em diferentes elementos que compõem a celebração. 

A arte paraense em especial no período do Círio se torna algo único, a berlinda, o carro dos milagres, a ornamentação das ruas, as músicas e o artesanato contribuem também para uma experiência cultural. Os famosos brinquedos de miriti representam fortemente a cultura paraense durante o Círio, Loureiro (2015, p. 374) afirma que “o que atrai nele não é uma complexidade de efeitos, mas o tempo de atraente infância nele concentrado”.  

Da mesma forma, com o aumento de turistas visitando Belém, mostrar a arte paraense é uma forma de expressão da identidade amazônica que foi sendo construída com o passar do tempo. Ato contínuo, o artesanato ocupa um espaço importante neste contexto, a produção de objetos religiosos e culturais relacionados ao Círio, permite que os conhecimentos e também as técnicas sejam transmitidas de geração em geração. A arte paraense presente durante o Círio de Nazaré faz parte de uma cultura viva, sendo construída e preservada pelo povo paraense.

Dessa forma, a perspectiva decolonial aplicada ao Círio de Nazaré permite entender a celebração a partir de uma perspectiva de valorizar os sujeitos que são responsáveis pela sua construção, identidade e continuidade. Segundo Quijano (2005), a colonização tentou apagar a cultura e os saberes dos povos tradicionais, porém estas populações conseguiram preservar sua memória e recriar suas práticas culturais como forma de resistência. 

Desse modo, o Círio pode ser entendido como uma espaço de continuidade de práticas e identidades construídas ao longo de gerações, reafirmando a identidade paraense e seus modos de vivenciar a religiosidade. Portanto, o Círio de Nazaré se tornou uma manifestação que ultrapassa o âmbito religioso, sua importância se estende na cultura, arte, memória e também ao sentimento de pertencimento da população. 

Com a lente da Teoria Decolonial, foi possível compreender que a celebração não deve ser observada apenas pela esfera religiosa, é necessário entender que diferentes sujeitos participam na construção da festa de Nazaré, reconhecendo os seus valores e conhecimentos. Sendo assim, o Círio se tornou uma festa de união e tradição, onde as famílias e amigos se reúnem não apenas para celebrar a festa de Nossa Senhora de Nazaré, mas também para estarem juntos com o sentimento de pertencimento.

Referências:

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INSTITUTO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÍSTICO NACIONAL (IPHAN). Dossiê Círio de Nazaré, 2004. Disponivel em: https://bibliotecadigital-web.iphan.gov.br/server/api/core/bitstreams/972288bc-51f7-4afb-af97-ae0161005d48/content . Acesso em: 3 out. 2026.

LOUREIRO, João de Jesus Paes. Cultura Amazônica : Uma poética do imaginário. 4ª ed. Belém, PA: Cultura Brasil, 2015. Acesso: 7 out. 2026.

MAGALHÃES, Diego Ventura. Marcas da Religiosidade na Paisagem Urbana: O Círio de Nazaré e a Construção Simbólica da Cidade de Belém. Revista Teias, 2026. Acesso: 7 out. 2026.

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NEVES, Shirley Do Socorro Moura das; JÚNIOR, Edgar Monteiro Chagas. O Brinquedo De Miriti, Memórias Coletivas e Consumo Durante O Círio De Nazaré Em Belém Do Pará. Revista Do Programa De Pós-Graduação em Comunicação , Linguagens e Cultura Da Universidade Da Amazônia. Julho, 2019. Disponivel em: https://www.researchgate.net/publication/334463958_O_BRINQUEDO_DE_MIRITI_MEMORIAS_COLETIVAS_E_CONSUMO_DURANTE_O_CIRIO_DE_NAZARE_EM_BELEM_DO_PARA . Acesso em: 7 out. 2026.

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