Izabelle Gama – Acadêmica do 4° Semestre de Relações Internacionais da UNAMA

A formação das Relações Internacionais como campo de estudo esteve relacionada à busca por explicações para os conflitos entre os Estados e por formas de preservar a paz. Após a Primeira Guerra Mundial, propostas baseadas na cooperação, no direito internacional e na criação de instituições multilaterais ganharam destaque. Entretanto, o agravamento das tensões durante o período entreguerras levantou dúvidas sobre a capacidade dessas iniciativas de impedir novos conflitos.

Nesse contexto, o historiador e teórico político britânico Edward Hallett Carr desenvolveu uma crítica ao idealismo que influenciou os debates teóricos da disciplina. Em Vinte Anos de Crise: 1919–1939, publicado originalmente em 1939, o autor questiona a confiança na capacidade de princípios jurídicos e morais garantirem, por si só, uma ordem internacional pacífica. Para Carr (2001), é necessário considerar os interesses dos Estados e as relações de poder que condicionam suas decisões.

A crítica de Carr pode ser compreendida a partir das propostas do presidente norte-americano Woodrow Wilson, especialmente a defesa da segurança coletiva e a criação da Liga das Nações. Essas iniciativas buscavam promover a paz por meio da cooperação e de compromissos comuns. Entretanto, a existência de regras não garantia que os Estados subordinariam seus próprios interesses às decisões coletivas. O questionamento de Carr, portanto, não se dirigia à busca pela paz, mas à expectativa de alcançá-la sem considerar as condições políticas necessárias para sustentá-la (Carr, 2001).

Essa questão está relacionada à maneira como a ordem internacional é construída. Estados com maior poder econômico, militar e diplomático geralmente possuem mais recursos para influenciar a elaboração das regras e defender seus interesses. O autor contesta também a concepção liberal de que a busca dos interesses particulares poderia convergir naturalmente para o bem coletivo. Para o Carr, essa suposta harmonia precisa ser examinada à luz das desigualdades de poder entre os Estados. 

No capítulo sobre a harmonia de interesses, argumenta que a crise internacional revelou a “completa falência da concepção de moral” que sustentava essa visão (Carr, 2001, p. 83). Seu argumento não é que toda cooperação seja impossível, mas que não se pode presumir que os interesses dos Estados sejam naturalmente compatíveis.

Por isso, princípios apresentados como universais também podem favorecer os países que tiveram maior influência em sua definição. Carr (2001) permite, assim, questionar a suposta neutralidade da ordem internacional e examinar quais interesses ela contempla e quais atores possuem condições de modificá-la.

Essa desigualdade também ajuda a compreender por que a cooperação não elimina os conflitos de interesses. Dois Estados podem defender a paz, mas discordar sobre as medidas necessárias para alcançá-la ou sobre a distribuição dos custos envolvidos, não basta afirmar que existe um interesse comum, é preciso analisar como ele é definido e a quem beneficia. Dessa forma, sua crítica questiona a ideia de que os interesses particulares dos países mais poderosos representem automaticamente os interesses de toda a comunidade internacional (Carr, 2001).

Apesar de sua crítica ao idealismo, Carr não defendia que o poder fosse o único elemento relevante da política internacional. Ele também reconhece limitações no realismo quando este se concentra exclusivamente nas forças existentes e perde de vista as possibilidades de transformação.

Por outro lado, propostas de mudança que ignoram as condições políticas de sua realização podem não alcançar os resultados esperados. Ao discutir a mudança pacífica, o autor afirma que “Toda demanda efetiva por mudança, como qualquer outra força política efetiva, compõe-se de poder e moral” (Carr, 2001, p. 268), ou seja, compreender as possibilidades de transformação exige considerar tanto as condições políticas concretas quanto os princípios que justificam as mudanças.

Essa relação pode ser observada no funcionamento do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU). Embora a Carta da organização reconheça a igualdade soberana dos Estados, cinco países (China, Estados Unidos, França, Reino Unido e Rússia) possuem assento permanente e poder de veto sobre decisões substantivas. Assim, um único voto contrário desses membros pode impedir a aprovação de uma resolução, mesmo quando há apoio da maioria dos integrantes (United Nations, 1945). A estrutura do Conselho demonstra como a desigualdade de poder está incorporada às próprias instituições internacionais.

Um exemplo ocorreu em 20 de novembro de 2024, quando os Estados Unidos vetaram uma proposta de resolução que exigia um cessar-fogo imediato, incondicional e permanente em Gaza, além da libertação dos reféns. O texto recebeu 14 votos favoráveis, mas não foi aprovado devido ao veto norte-americano (United Nations, 2024a). O episódio permite observar, na prática, como as regras institucionais podem impedir que o apoio da maioria se transforme em uma decisão coletiva.

À luz de Carr, o caso evidencia a tensão entre os objetivos declarados de manutenção da paz e os interesses políticos que influenciam a atuação dos Estados. O veto, isoladamente, não prova que toda decisão internacional seja determinada exclusivamente pelo poder. Entretanto, mostra que a capacidade de uma instituição de agir depende não apenas de seus princípios, mas também das regras decisórias e das relações entre seus membros. Dessa maneira, o episódio de Gaza exemplifica os limites da expectativa de que compromissos coletivos sejam suficientes para produzir resultados concretos.

A distribuição de poder no Conselho de Segurança também levanta questionamentos sobre sua representatividade. Criada em um contexto histórico diferente do atual, a composição permanente do órgão não reflete integralmente as transformações na distribuição mundial de influência política e econômica. Em agosto de 2024, a Assembleia Geral da ONU voltou a discutir a representação equitativa e o aumento do número de membros do Conselho, reconhecendo a necessidade de avançar nas negociações sobre sua reforma (United Nations, 2024b).

A interpretação de Carr também influenciou a maneira como o pensamento internacional do período entreguerras passou a ser estudado. A oposição entre idealismo e realismo tornou-se uma forma conhecida de organizar a história teórica das Relações Internacionais, embora possa simplificar a diversidade das ideias daquele período

Wilson (1995) analisa a construção da categoria de idealismo e a influência de Vinte Anos de Crise na interpretação posterior do pensamento internacional entre as duas guerras mundiais. Essa perspectiva permite compreender a obra de Carr tanto como uma crítica teórica quanto como uma intervenção nos debates de sua época.

Em síntese, a crítica de Edward Hallett Carr ao idealismo demonstra a importância de analisar os princípios e as instituições internacionais em relação aos interesses e às condições de poder que influenciam seu funcionamento. O Conselho de Segurança evidencia como essas relações afetam decisões concretas, enquanto as propostas de reforma mostram que a distribuição de autoridade também é objeto de contestação. A contribuição de Carr permanece relevante por permitir compreender os limites da cooperação internacional sem desconsiderar as possibilidades de transformação da ordem existente.

REFERÊNCIAS

CARR, Edward Hallett. Vinte anos de crise: 1919–1939: uma introdução ao estudo das relações internacionais. Tradução de Luiz Alberto Figueiredo Machado. 2. ed. Brasília, DF: Editora Universidade de Brasília; São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2001.

UNITED NATIONS. Charter of the United Nations. San Francisco: UN, 1945.

UNITED NATIONS. Security Council fails to adopt resolution demanding immediate ceasefire in Gaza, as United States casts negative vote. Meetings Coverage and Press Releases, 20 nov. 2024a. Disponível em: https://press.un.org/en/2024/sc15901.doc.htm. Acesso em: 09 out. 2026.

UNITED NATIONS. General Assembly adopts oral decision with aim of “instilling new life” into debate on Security Council reform, equitable representation, increased membership. Meetings Coverage and Press Releases, 27 ago. 2024b. Disponível em: https://press.un.org/en/2024/ga12624.doc.htm. Acesso em: 09 out. 2026.

WILSON, Peter. Introduction: The Twenty Years’ Crisis and the category of “idealism” in International Relations. In: LONG, David; WILSON, Peter (ed.). Thinkers of the Twenty Years’ Crisis: inter-war idealism reassessed. Oxford: Clarendon Press, 1995. p. 1–24