
Lucas Cardoso – Acadêmico do 8° semestre de Relações Internacionais da UNAMA.
Muhammad Anwar al-Sadat ocupa lugar de destaque na história contemporânea do Egito e das Relações Internacionais do Oriente Médio. Presidente egípcio entre 1970 e 1981, Sadat conduziu importantes transformações na política externa do país em um período marcado pela Guerra Fria, pelos conflitos árabe-israelenses e pela disputa de influência entre Estados Unidos e União Soviética. Sua trajetória política esteve diretamente relacionada à tentativa de recuperar territórios egípcios ocupados por Israel e, posteriormente, estabelecer uma nova configuração das relações do Egito com as grandes potências e com Israel (LORENZ, 1990).
A chegada de Sadat à presidência ocorreu após a morte de Gamal Abdel Nasser, em 1970. O novo governo herdou um Egito inserido nas disputas da Guerra Fria e profundamente marcado pelas consequências da Guerra dos Seis Dias de 1967, quando Israel ocupou a Península do Sinai. Neste contexto, a questão territorial tornou-se um dos principais elementos da política externa egípcia. A permanência da ocupação israelense e a necessidade de reposicionar o Egito diante das limitações de sua capacidade militar e econômica contribuíram para a formulação de uma política externa diferente daquela predominante durante os últimos anos de governo de Gamal Abdel Nasser (DAIGLE, 2012).
A mudança pode ser observada de maneira particularmente clara na relação entre Egito e União Soviética. Embora Sadat tenha inicialmente mantido relações próximas com Moscou, seu governo passou progressivamente a buscar maior autonomia em relação aos soviéticos. Documentos diplomáticos norte-americanos da época registram a percepção de Washington de que o Egito de Sadat havia se afastado da influência soviética, processo que posteriormente favoreceria uma aproximação com os Estados Unidos (SADAT, 1978; DAIGLE, 2012).
A Guerra do Yom Kippur, iniciada em outubro de 1973, representa um momento fundamental para compreender esta transformação. O conflito permitiu ao Egito modificar sua posição diplomática no Oriente Médio e recolocar a questão do Sinai no centro das negociações internacionais. A guerra não significou apenas um episódio militar entre Egito e Israel, mas também parte de um processo mais amplo de transformação das relações de poder no Oriente Médio durante a Guerra Fria (DAIGLE, 2012).
A partir de meados da década de 1970, Sadat intensificou a aproximação com os Estados Unidos e passou a privilegiar a negociação diplomática como instrumento para alcançar objetivos egípcios (LORENZ, 1990; QUANDT, 1986). Esta mudança culminou na visita de Sadat a Jerusalém, em 1977, nos Acordos de Camp David de 1978 e no tratado de paz entre Egito e Israel de 1979. O processo de Camp David envolveu diretamente Sadat, o primeiro-ministro israelense Menachem Begin e o presidente norte-americano Jimmy Carter, estabelecendo uma nova dinâmica diplomática para o conflito árabe-israelense (QUANDT, 1986; GOLAN, 2015).
A trajetória de Anwar Sadat chegou ao fim de maneira simbólica em 6 de outubro de 1981, quando o presidente foi assassinado durante uma parada militar realizada no Cairo para celebrar o Dia das Forças Armadas do Egito. A data possuía forte significado político e nacional, pois também remetia à travessia do Canal de Suez pelas forças egípcias durante a Guerra de Outubro de 1973. O assassinato ocorreu poucos anos após a assinatura do tratado de paz entre Egito e Israel e marcou o encerramento de um período de profundas transformações na política externa egípcia. Sadat foi sucedido por seu vice-presidente, Hosni Mubarak, que assumiu a presidência posteriormente naquele mesmo mês.
A trajetória de Sadat pode ser analisada a partir do realismo neoclássico das Relações Internacionais. Diferentemente de uma interpretação exclusivamente estrutural, esta perspectiva permite observar como as pressões do sistema internacional são filtradas pelas percepções dos líderes e pelas condições internas dos Estados. Neste sentido, as decisões de Sadat podem ser compreendidas considerando simultaneamente a estrutura bipolar da Guerra Fria, a posição relativa do Egito no sistema regional, os interesses territoriais egípcios e a percepção do próprio governo sobre as possibilidades de ação disponíveis (ROSE, 1998).
Gideon Rose (1998), ao sistematizar o realismo neoclássico, argumenta que a política externa dos Estados resulta da interação entre pressões sistêmicas e variáveis internas. A distribuição internacional de poder estabelece limites e oportunidades, mas os líderes e as instituições domésticas interferem na maneira como essas pressões são interpretadas e transformadas em política externa. A experiência de Sadat permite aplicar essa perspectiva à política externa de um Estado regional inserido em uma disputa envolvendo grandes potências.
A partir dessa abordagem, a aproximação entre Egito e Estados Unidos não deve ser compreendida simplesmente como uma mudança ideológica ou como uma substituição automática da União Soviética pelos Estados Unidos. Ela pode ser analisada como parte de uma estratégia de reposicionamento internacional do Egito diante de seus interesses nacionais (SADAT, 1978). A recuperação do Sinai, a redução da dependência egípcia em relação a Moscou e a busca por condições mais favoráveis para o desenvolvimento econômico e político do país constituíam elementos importantes desse processo (LORENZ, 1990).
A diplomacia de Sadat também demonstra como atores de menor capacidade material podem utilizar negociações e relações com grandes potências para ampliar suas possibilidades de ação. A aproximação com Washington forneceu ao Egito um novo canal de negociação com Israel e transformou os Estados Unidos em um importante mediador do processo de paz. Os documentos diplomáticos norte-americanos do período demonstram a centralidade atribuída pela administração Carter às negociações envolvendo Sadat e Begin. (QUANDT, 1986; GOLAN, 2015).
Dessa maneira, Anwar Sadat pode ser compreendido não apenas como uma personalidade associada à assinatura da paz entre Egito e Israel, mas como um ator que promoveu uma transformação significativa da inserção internacional egípcia. Sua política externa evidencia a relação entre estrutura internacional, interesses nacionais, percepção dos líderes e possibilidades diplomáticas, elementos centrais para a análise realista neoclássica (LORENZ, 1990).
Referências:
DAIGLE, Craig. The Limits of Détente: The United States, the Soviet Union, and the Arab-Israeli Conflict, 1969–1973. New Haven: Yale University Press, 2012.
GOLAN, Galia. Sadat and Begin: Successful Diplomacy to Peace. In: HUTCHINGS, Robert; SURI, Jeremi (eds.). Foreign Policy Breakthroughs: Cases in Successful Diplomacy. Oxford: Oxford University Press, 2015. p. 121–147.
LORENZ, Joseph P. Egypt and the Arabs: Foreign Policy and the Search for National Identity. Boulder: Westview Press, 1990.
QUANDT, William B. Camp David: Peacemaking and Politics. Washington, D.C.: Brookings Institution Press, 1986.
ROSE, Gideon. Neoclassical Realism and Theories of Foreign Policy. World Politics, v. 51, n. 1, p. 144–172, 1998.
SADAT, Anwar. In Search of Identity: An Autobiography. New York: Harper & Row, 1978.
