
Gabriela Vaz – Acadêmica 6° semestre
A Groenlândia é um território autônomo que pertence à Dinamarca e tem
ganhado cada vez mais importância pela sua localização estratégica no Ártico.
O que torna a ilha um dos principais interesses é sua posição entre a América
do Norte e a Europa. Além disso, a abertura de novas rotas marítimas devido
ao derretimento do gelo e à disputa por influência entre Estados Unidos, Rússia
e China.
Historicamente, durante a Guerra Fria, os Estados Unidos construíram a
base de Pituffik, na Groenlândia, para monitorar possíveis ameaças soviéticas.
Sua localização permite monitorar o espaço, detectar mísseis e acompanhar
possíveis ameaças, mostrando que o interesse norte-americano na ilha está
ligado à proteção de seu território e à segurança no Ártico e no Atlântico Norte
(GRINYAEV; ZHURAVEL, 2026).
Mais recentemente, em 2026, as tentativas de Donald Trump de ampliar
o controle americano sobre o território aumentaram as tensões com a
Dinamarca e outros países europeus (GRINYAEV; ZHURAVEL, 2026). A crise
ganhou força quando Trump defendeu que a Groenlândia passasse ao controle
americano, alegando motivos de segurança nacional. Em resposta, a
Dinamarca e outros países reagiram reforçando a presença militar na região e
demonstrando apoio à soberania dinamarquesa. O governo groenlandês
também rejeitou a possibilidade de perder o controle sobre seu território.
Diante desse cenário, a disputa pela Groenlândia pode ser analisada por
meio do Realismo Ofensivo, de John Mearsheimer. Em sua obra “The Tragedy
of Great Power Politics”, o autor argumenta que o sistema internacional é
caracterizado pela ausência de uma autoridade central capaz de garantir
segurança dos Estados. Como não é possível ter certeza sobre as intenções
futuras de outras potências, os Estados buscam ampliar seu poder relativo e
reduzir suas vulnerabilidades (MEARSHEIMER, 2001).
A partir dessa perspectiva, o interesse dos Estados Unidos pela Groenlândia pode ser entendido como uma tentativa de fortalecer sua presença militar no Ártico, proteger o acesso ao Atlântico Norte e também limitar a influência da Rússia e da China. Isso ocorre porque o controle estratégico da região permite fortalecer a vigilância militar, acompanhar atividades de potências rivais e proteger infraestruturas fundamentais para a defesa norte-americana. Essa interpretação se aproxima do Realismo Ofensivo porque relaciona a busca por segurança à manutenção de vantagens relativas diante de possíveis concorrentes.
Ao mesmo tempo, o aumento da presença militar americana e da OTAN pode ser visto por Moscou e Pequim como uma ameaça aos seus interesses, aumentando a rivalidade entre essas potências sobre a Groenlândia. Assim, a disputa pela Groenlândia mostra como a busca por poder, segurança e vantagens estratégicas continua influenciando as relações internacionais (MEARSHEIMER, 2001).
Além da questão militar, a disputa territorial também envolve os recursos naturais da Groenlândia, como petróleo, gás e minerais. Um relatório de 2023 identificou potencial para 25 dos 34 minerais críticos listados pela União Europeia, incluindo terras raras e lítio (EURONEWS, 2025). Nesse sentido, a Dinamarca vem ampliando os investimentos em defesa e a cooperação militar com os países da OTAN, buscando fortalecer sua atuação no Ártico (GRINYAEV; ZHURAVEL, 2026).
Enquanto isso, a Rússia vem fortalecendo sua estrutura militar na região ártica e a China busca expandir sua presença econômica e estratégica na área (BERNAMA; ANADOLU, 2026). Desde 2007, o país havia reaberto mais de 13 bases aéreas, 10 estações de radar e 20 postos de fronteira no Ártico. Paralelamente, essa estratégia também envolve o controle de rotas comerciais, como a Rota do Mar do Norte, ampliando a importância econômica e estratégica da região (ANDREATTA, 2025).
Portanto, a cooperação entre os dois países aumenta a preocupação dos Estados Unidos e de seus aliados com a segurança regional. Em contrapartida, Moscou e Pequim criticam o aumento da presença militar americana e da OTAN, considerando-o um fator de intensificação das tensões (BERNAMA; ANADOLU, 2026). Assim, a partir do Realismo Ofensivo, essa situação mostra como a aproximação entre as potências pode mudar o equilíbrio de poder e levar outros países a fortalecer sua presença militar para não perder espaço e influência na região.
Logo, a disputa pela Groenlândia demonstra como a localização geográfica, a segurança militar e o interesse por recursos naturais influenciam as relações internacionais. Assim, esse cenário é evidenciado através do Realismo Ofensivo de Mearsheimer, pois os três países, Estados Unidos, Rússia e China, buscam ampliar sua influência e evitar que seus rivais conquistem vantagens estratégicas na geopolítica contemporânea.
Referências
ANDREATTA, André Luis Parodi. Os planos da Rússia para o Ártico. Disponível em: https://relacoesexteriores.com.br/andreatta-planos-da-russia-para-o-artico/. Acesso em: 27 out. 2026.
BERNAMA; ANADOLU. Russia, China express concern over militarisation of Arctic by US and allies. Disponível em: https://www.bernama.com/en/news.php?id=2559636. Acesso em: 23 out. 2026.
EURONEWS. Do lítio às terras raras: os planos da Europa para o futuro energético. Disponível em: https://pt.euronews.com/2025/06/04/do-litio-as-terras-raras-os-planos-da-europa-para-o-futuro-energetico. Acesso em: 27 out. 2026.
GRINYAEV, Sergey; ZHURAVEL, Valery. The “Greenland knot”: geopolitical competition and security in the Arctic. Pathways to Peace and Security, n. 1 (70), p. 87-101, 2026. DOI: 10.20542/2307-1494-2026-1-87-101.
IDEG. O ártico na geopolítica contemporânea: recursos, rotas marítimas e competição entre grandes potências. Disponível em: https://ideg.com.br/geopolitica-do-artico-cacd/. Acesso em: 23 out. 2026.
MEARSHEIMER, John J. The Tragedy of Great Power Politics. New York: W. W. Norton & Company, 2001.
