
Foto: Sustentabilidade Brasil
Sofia Dias – acadêmica do 4° semestre de Relações Internacionais da UNAMA
A conjuntura internacional contemporânea evidencia a crescente importância da Amazônia nos debates sobre mudanças climáticas, desenvolvimento sustentável e desigualdades sociais. Neste cenário, a Organização das Nações Unidas (ONU) constitui um espaço fundamental de articulação multilateral, por meio do qual os Estados negociam compromissos e estabelecem diretrizes para o enfrentamento de problemas que ultrapassam as fronteiras nacionais.
Entretanto, a construção de uma agenda internacional para a região não se limita à atuação dos representantes estatais. A mobilização de povos indígenas, comunidades tradicionais e movimentos sociais também influencia a formulação de demandas e a disputa por prioridades políticas. A Teoria Crítica das Relações Internacionais, de Robert W. Cox (1981), permite analisar como as estruturas de poder condicionam a atuação das instituições internacionais e as possibilidades de transformação das desigualdades sociais.
Para Cox (1981), as Relações Internacionais não podem ser compreendidas exclusivamente a partir do comportamento dos Estados, uma vez que a ordem mundial também é constituída por forças sociais, instituições e relações históricas de poder. O autor diferencia as teorias que procuram resolver problemas dentro de uma ordem estabelecida daquelas que questionam as estruturas responsáveis por sua formação e reprodução.
Essa perspectiva é relevante para analisar a agenda social da ONU na Amazônia, pois permite investigar não apenas os objetivos das iniciativas internacionais, mas também as condições políticas e econômicas que influenciam sua implementação. A existência de compromissos multilaterais voltados ao desenvolvimento sustentável não garante, por si só, a superação das desigualdades, especialmente quando sua efetividade depende da articulação entre instituições internacionais, governos e populações locais.
Nesse sentido, a formulação de políticas voltadas às necessidades sociais da Amazônia e a posterior implementação desses compromissos, principalmente aqueles relacionados à redução das desigualdades, à saúde e à educação, exige considerar as particularidades históricas e territoriais da região, marcada por profundas desigualdades socioeconômicas e por dificuldades de acesso a direitos e serviços públicos. A agenda social internacional, portanto, deve ser compreendida como um campo de articulação política cuja efetividade depende das condições concretas de implementação.
A atuação da ONU na região pode ser observada por meio do Fundo Brasil-ONU para o Desenvolvimento Sustentável da Amazônia, iniciativa voltada à articulação de esforços entre o Sistema das Nações Unidas no Brasil e o Consórcio Interestadual da Amazônia Legal. A estratégia contempla dimensões como o desenvolvimento econômico sustentável, o fortalecimento institucional, a promoção de cidades sustentáveis e o empoderamento das populações amazônicas (ONU, 2023).
A iniciativa evidencia a possibilidade de mobilizar a cooperação internacional para enfrentar desafios regionais. Contudo, a análise de sua efetividade exige distinguir os objetivos institucionais dos resultados efetivamente alcançados, considerando a disponibilidade de recursos, a capacidade de implementação das políticas e a participação das populações beneficiadas. Apesar de ampliar possibilidades de atuação, a cooperação internacional não elimina as responsabilidades dos governos nem as estruturas históricas que condicionam a má distribuição de recursos e oportunidades.
Diante disso, a diplomacia tradicional constitui uma dimensão central da construção da agenda internacional, uma vez que os representantes estatais negociam compromissos, defendem interesses nacionais e participam da elaboração de decisões multilaterais. Entretanto, a política internacional não se restringe às relações estabelecidas entre governos (Keck; Sikkink, 1998).
A diplomacia cidadã, por outro lado, compreendida como a atuação de indivíduos, movimentos sociais e organizações da sociedade civil na articulação de demandas e na influência sobre agendas internacionais, amplifica as possibilidades de participação política. Esta modalidade de atuação permite que reivindicações construídas nos territórios alcancem espaços de debate internacional, especialmente quando os atores sociais estabelecem redes de cooperação e mobilização (Keck; Sikkink, 1998).
Dessa forma, a realização da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP30), em Belém, em novembro de 2025, exemplifica a importância dessa relação. A conferência reuniu representantes dos Estados para negociar medidas de enfrentamento à crise climática, incluindo questões relacionadas ao financiamento para adaptação e à transição justa.
Entre os resultados anunciados pela ONU, destacou-se o compromisso de expandir o financiamento para adaptação climática e o estabelecimento de um mecanismo voltado a apoiar uma transição justa, considerando os trabalhadores e as comunidades afetadas (ONU, 2025). Estes resultados demonstram a capacidade do multilateralismo de produzir compromissos coletivos. Entretanto, sua relevância social depende da implementação efetiva das decisões e de sua capacidade de responder às necessidades das populações mais vulneráveis, incluindo aquelas que enfrentam diretamente os impactos das mudanças climáticas na Amazônia.
Paralelamente à conferência oficial, a Cúpula dos Povos, realizada em Belém entre 12 e 16 de novembro de 2025, constituiu um espaço de articulação de movimentos sociais, povos indígenas, comunidades tradicionais, trabalhadores e organizações da sociedade civil. Sua declaração final apresentou reivindicações relacionadas à justiça climática, à soberania alimentar, à proteção dos territórios, ao combate ao racismo ambiental e à participação popular na construção de soluções para a crise climática (Cúpula dos Povos, 2025). A iniciativa demonstra como a mobilização cidadã é capaz de expandir a visibilidade de demandas que ultrapassam a dimensão ambiental, incorporando questões sociais, econômicas e territoriais.
Nesse cenário, a comparação entre a COP30 e a Cúpula dos Povos permite compreender que a construção da agenda internacional ocorre em espaços distintos, mas potencialmente relacionados. Enquanto a conferência oficial constitui um ambiente de negociação entre os Estados, a Cúpula dos Povos representa uma forma autônoma de mobilização social que procura influenciar as prioridades políticas e questionar as limitações das respostas institucionais.
A partir da perspectiva de Cox (1981), essa questão evidencia os limites de uma análise centrada exclusivamente nas instituições formais. As estruturas políticas e econômicas que organizam a ordem internacional influenciam quais demandas recebem maior atenção, quais interesses são priorizados e quais possibilidades de transformação são consideradas viáveis.
Na Amazônia, essa discussão envolve a necessidade de conciliar desenvolvimento econômico, proteção ambiental, direitos territoriais e redução das desigualdades. A agenda social não deve ser compreendida separadamente das condições históricas que influenciam o acesso à terra, à renda, à infraestrutura e aos serviços públicos. Neste sentido, a diplomacia cidadã contribui para questionar a concentração da capacidade decisória e para reivindicar que os conhecimentos e as experiências das populações amazônicas sejam considerados na formulação de políticas que afetam diretamente seus territórios (Keck; Sikkink, 1998).
Por conseguinte, a relação entre a ONU, como diplomacia tradicional, e a diplomacia cidadã evidencia que a construção de uma agenda social para a Amazônia exige mais do que compromissos internacionais. A COP30 demonstrou a habitual capacidade dos Estados de negociar decisões multilaterais, enquanto a Cúpula dos Povos evidenciou a mobilização de atores sociais que reivindicam maior participação na definição das respostas às crises. Entretanto, a existência desses espaços não elimina as desigualdades de influência nem garante que as demandas populares sejam incorporadas às políticas implementadas.
A contribuição da Teoria Crítica consiste justamente em demonstrar que a transformação social depende da análise das estruturas de poder e das condições concretas que permitem ou limitam a participação política. Portanto, uma agenda social efetiva para a Amazônia exige articular a cooperação internacional, a responsabilidade dos Estados e o protagonismo do povo. O desafio consiste em garantir que os povos amazônicos sejam ouvidos e garantir que sua participação possa contribuir efetivamente para transformar as decisões que determinam o futuro de seus territórios.
Referências:
COX, Robert W. Social Forces, States and World Orders: Beyond International Relations Theory. Millennium: Journal of International Studies, v. 10, n. 2, 1981.
CÚPULA DOS POVOS. Declaração da Cúpula dos Povos rumo à COP30. Belém, 2025. Acesso em: 20 out. 2026.
ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS (ONU). Estratégia do Fundo Brasil-ONU para o Desenvolvimento Sustentável da Amazônia. 2023. Acesso em: 20 out. 2026.
ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS (ONU). COP30 closes with agreement to step up support for developing countries. 2025. Acesso em: 20 out. 2026.
KECK, Margaret E.; SIKKINK, Kathryn. Activists beyond borders: advocacy networks in international politics. Ithaca: Cornell University Press, 1998. Disponível em: página oficial da Cornell University Press. Acesso em: 26 out. 2026.
