Foto: Annabelle Gordon/Reuters

Maria Fernanda Carcassés Gainza – acadêmica do 2° semestre de Relações Internacionais da UNAMA

As eleições de meio de mandato (midterms) nos Estados Unidos, realizadas em 3 de novembro de 2026, configuraram-se como um momento crucial da democracia norte-americana, no qual os eleitores foram às urnas para escolher os próximos membros do Congresso, sendo 435 representantes da Câmara e um terço do Senado. O processo ocorre a cada dois anos e recebe esse nome porque acontece na metade de cada mandato presidencial.

Nesse viés, a principal análise consiste em compreender de que maneira a mudança na composição do Congresso americano poderá repercutir na condução da política externa e da segurança global, considerando que a destinação de recursos militares e a sustentação política de compromissos internacionais são condicionados pela relação entre os Poderes Executivo e Legislativo. Deste modo, as divergências políticas tendem a dificultar a aprovação de projetos e recursos, comprometendo a previsibilidade das decisões norte-americanas e, consequentemente, afetando suas relações econômicas e diplomáticas com outros países (Lissner et al., 2026).

À luz da Teoria Construtivista das Relações Internacionais, desenvolvida por Alexander Wendt (1999), compreende-se que a realidade política internacional é socialmente construída por meio de ideias, identidades, interesses e normas, que se desenvolvem a partir das interações entre os atores. Esta perspectiva permite analisar como discursos nacionalistas, como o America First (América Primeiro) influenciam as decisões da política externa e a percepção internacional em relação à legitimidade do governo, uma vez que promovem uma identidade nacional fundamentada na priorização dos interesses norte-americanos.

Temas como a imigração, a segurança nacional e as rivalidades geopolíticas são utilizados nos discursos políticos para construir percepções de ameaças, influenciar a opinião pública e conquistar apoio eleitoral. No entanto, quando estas estratégias aumentam a polarização e a desconfiança nas instituições, podem contribuir para o enfraquecimento da democracia. Assim, o Construtivismo de Wendt (1999) permite compreender que os resultados eleitorais não são determinados exclusivamente por disputas de poder, mas pela construção social de valores, identidades e percepções coletivas, que influenciam o comportamento dos eleitores.

Diante desse cenário, a baixa popularidade do presidente Donald Trump, marcada por elevados índices de rejeição, evidencia a vulnerabilidade política enfrentada por seu governo. Segundo uma pesquisa da Reuters/Ipsos (2026), o presidente registrou apenas 31% de aprovação, enquanto 66% dos entrevistados desaprovaram sua gestão, refletindo a insatisfação popular com o alto custo de vida e a condução da economia.

Entre os principais fatores que contribuíram para esse descontentamento estão a elevação dos preços dos combustíveis, dos alimentos e dos serviços de saúde; as pressões inflacionárias relacionadas ao conflito entre EUA e Israel contra o Irã; as tarifas comerciais impostas a diversos países; e a crescente preocupação com o avanço da inteligência artificial (IA), reforçando a necessidade de regulamentação (Fitzgerald, 2026). Em contrapartida, o combate à imigração ilegal permanece entre as pautas mais bem avaliadas do governo, especialmente em razão do fortalecimento das medidas de segurança nas fronteiras.

Nesse contexto, as midterms consolidaram-se como um marco histórico na política norte-americana, uma vez que os Democratas, da oposição, conquistaram o controle tanto da Câmara dos Representantes quanto do Senado, impondo uma importante derrota eleitoral ao Partido Republicano (Ax; Heath; Lange, 2026). Diante deste resultado, a futura retomada do controle legislativo pelos Democratas, a partir de janeiro de 2027, representará um desafio significativo ao governo Trump, sobretudo no que diz respeito à aprovação de projetos de lei, à destinação de recursos para a cooperação com aliados estratégicos e à condução de políticas públicas.

Além disso, a reconfiguração do Congresso norte-americano tende a intensificar as tensões políticas internas, ampliando a fiscalização sobre a administração de Donald Trump e dificultando a implementação de sua agenda interna e internacional. Embora o republicano tenha declarado estar disposto a aceitar os resultados eleitorais, também manifestou a intenção de utilizar seu poder de veto para bloquear propostas legislativas democratas, sinalizando possíveis conflitos entre o Poder Executivo e o Legislativo (Costa, 2026).

Portanto, as eleições de meio de mandato nos Estados Unidos representam não apenas uma avaliação popular do desempenho presidencial, mas também um importante mecanismo de equilíbrio entre os Poderes. Desta forma, os resultados das midterms demonstraram como as dinâmicas políticas que se desenvolvem no âmbito interno de uma nação podem produzir consequências diretas para sua atuação externa, repercutindo na estabilidade e na ordem internacional.

Referências:

AX, Joseph; HEATH, Brad; LANGE, Jason. Democrats take US Congress in sweeping midterm repudiation of Trump. Reuters, 4 nov. 2026. Disponível em: https://www.reuters.com/legal/government/democrats-seize-congress-sweeping-midterm-repudiation-trump-2026-11-04/?. Acesso em: 4 nov. 2026.

COSTA, Robert. Trump says he is prepared to use “tremendous powers” if Democrats take control. CBS News, 3 nov. 2026. Disponível em: https://www.cbsnews.com/news/trump-midterm-election-2026-interview/. Acesso em: 4 nov. 2026.

FITZGERALD, James. O que são as eleições de meio de mandato dos EUA e por que elas podem selar o futuro de Trump? BBC News Brasil. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/cwg7xpyd1jrgo.amp. Acesso em: 1 nov. 2026.

G1. Reuters/ipsos: aprovação de Trump bate recorde negativo e chega a 31%. G1. 19 out. 2026. Disponível em: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2026/10/19/reutersipsos-aprovacao-de-trump-bate-recorde-negativo-e-chega-a-31percent.ghtml. Acesso em: 1 nov. 2026.

LISSNER, Rebecca; PATTERSON, Rebecca; YARED, Pierre; VIGERSKY, Sam; EWERS, Elisa; FIX, Liana; KURLANTZICK, Joshua; NGUYEN, Vinh; HOROWITZ, Michael C. Democrats win control of Congress. Here’s how that could affect U.S. foreign policy. Council on Foreign Relations, 4 nov. 2026. Disponível em: ⁠https://www.cfr.org/articles/democrats-win-control-of-congress-heres-how-that-could-affect-u-s-foreign-policy. Acesso em: 4 nov. 2026.

WENDT, Alexander. Social theory of international politics. Cambridge: Cambridge University Press, 1999.