Ana Victória Padilha e Janaina Silva – acadêmicas do 5º semestre de Relações Internacionais da UNAMA.

As Relações Internacionais, como afirma Charlotte Pekins Gilman (1911), foram historicamente pautadas no androcentrismo que naturaliza as dinâmicas de poder, bem como em áreas que pertencem às esferas da vida pública, espaços de decisões e atuações ativas da política internacional, como sendo um campo de atuação estrito da dominação masculina, amplamente aceita dentro de uma lógica sociocultural.

É possível observar o atual processo de profundas mudanças e reavaliação das estruturas de poder como uma certa “crise instaurada”, proveniente também dessa lógica masculina permanente em tais instituições. Em meio ao presente cenário, a articulação diplomática de Brasil, Chile e México em todo da candidatura de Michelle Bachelet para a Secretaria-Geral da ONU (ICL, 2026), sob a ótica da teoria feminista das RI, reflete uma nova perspectiva de ampliação nas pautas da agenda internacional, atualmente voltada para a segurança puramente militar.

Quando se analisa gênero como categoria, a hierarquia patriarcal de uma das partes administrativas cruciais para o funcionamento diário da Organização das Nações Unidas (ONU), onde em seus oitenta anos de história nunca teve o topo da tomada de decisão presidido por uma mulher. A Teoria Feminista argumenta que a inclusão de mulheres em cargos de alta liderança não é apenas uma questão de representatividade numérica, mas uma possibilidade de priorizar temas como a segurança humana, segurança das mulheres e crianças na guerra, direitos sociais, cooperação multilateral e os assuntos pertinentes ao clima, ou seja, é uma oportunidade no caso da ONU de alterar e complementar a própria agenda internacional, como já fora mencionado.

Nesse sentido, a contribuição de J. Ann Tickner (1992) torna-se indispensável. Ao questionar a objetividade das teorias clássicas como o realismo, Tickner revela que a ausência de mulheres no topo da hierarquia internacional não é um acaso, mas um reflexo de uma estrutura que marginaliza vozes que priorizam a interdependência social. A candidatura de Bachelet, portanto, representa uma mudança de paradigma na governança global, movendo a ONU para o princípio que deveria sempre de fato reger a instituição, o entendimento do poder como capacidade coletiva e cooperação, não apenas como uma dominação e autonomia, nem a separação e a soberania do Estado através do conflito.

A articulação diplomática envolvendo Brasil, Chile e México em torno da candidatura de Michelle Bachelet à Secretária-geral da ONU se insere num contexto internacional marcado por transformações estruturais no exercício do poder e por pressões crescentes por maior representatividade de gênero.

A notícia não evidencia apenas uma disputa por liderança institucional, mas também um momento histórico, no qual a legitimidade das organizações multilaterais começa a ser questionada, diante de sua dificuldade em refletir a diversidade do sistema internacional contemporâneo. O fato de que, em mais de oito décadas de existência, a ONU jamais tenha sido liderada por uma mulher reforça o argumento de que tais instituições permanecem ancoradas em uma lógica histórica de exclusão.

Para compreender essa dinâmica, a perspectiva teórica feminista oferece ferramentas analíticas fundamentais. O conceito de “Androcentrismo”, desenvolvido por Charlotte Perkins Gilman (1911), parte da constatação de que a organização social foi historicamente construída a partir de uma experiência masculina, tomada como universal, como se os valores e práticas dos homens representassem a humanidade na totalidade.

Essa crítica é aprofundada no campo das Relações Internacionais por Tickner (2019), que demonstra como as teorias clássicas da área, em especial o Realismo, foram estruturadas com base em valores como competição, poder militar e autonomia estatal, deixando à margem dimensões igualmente relevantes, como cooperação, interdependência e segurança humana. Neste sentido, a escassez de mulheres em posições de liderança global não é um acaso, mas sim o reflexo de uma estrutura que privilegia determinadas formas de conhecimento e prática política em detrimento de outras.

A candidatura de Bachelet, portanto, precisa ser lida, para além do seu valor simbólico. Ela se insere num movimento mais amplo de reconfiguração das dinâmicas de poder, no qual a governança internacional passa a exigir abordagens mais inclusivas e cooperativas. Esta leitura ganha maior densidade quando articulada à teoria de Joseph Nye (1990) sobre as transformações do poder no século XXI.

Segundo Nye (1990), a crescente interdependência econômica e a revolução da informação promoveram uma difusão do poder entre múltiplos atores, tornando menos eficazes as estratégias baseadas exclusivamente na coerção. É nesse cenário que ganham centralidade os conceitos de “Soft Power”, a capacidade de influenciar por meio de valores, legitimidade e atração, e de “Smart Power”, que combina elementos coercitivos e cooperativos, de forma estratégica.

Com este ponto de vista crítico, fica evidente que a manutenção de uma estrutura patriarcal na ONU não representa apenas uma injustiça histórica, mas também um obstáculo concreto à eficácia do multilateralismo. A emergência de lideranças femininas, particularmente oriundas da América Latina, tem o potencial de impulsionar a inclusão de novas prioridades na agenda internacional, tais como os direitos humanos, a equidade social e a sustentabilidade. Estas temáticas, que há muito são reivindicadas pelas abordagens feministas das Relações Internacionais como centrais, podem constituir um contributo significativo para a transformação global.

Conclui-se, portanto, que a notícia em análise ilustra um ponto de inflexão nas dinâmicas globais, no qual as reivindicações de igualdade de género convergem com transformações estruturais no exercício do poder. A candidatura de Michelle Bachelet simboliza uma tentativa de resolução do passado e uma reação às necessidades de um sistema internacional que se encontra progressivamente mais interligado. A incorporação de perspectivas feministas na governança global não deve, portanto, ser compreendida apenas como uma agenda normativa ou de justiça, mas como um elemento essencial para a renovação e a eficácia das instituições multilaterais no século XXI.

REFERÊNCIAS

GILMAN, Charlotte Perkins. The Man-Made World: Or, Our Androcentric Culture. New York: Charlton Company, 1911. Disponível em: https://share.google/ctRWCjlNZ3P6Tq17O. Acesso em: 18 abr. 2026.

ICL NOTÍCIAS. Chile, Brasil e México apresentam Bachelet como candidata para liderar a ONU. 2024. Disponível em: https://iclnoticias.com.br/chi-br-mex-bachelet-candidata-para-liderar-onu/. Acesso em: 18 abr. 2026.

TICKNER, J. Ann. Gender in International Relations: Feminist Perspectives on Achieving Global Security. New York: Columbia University Press, 1992.

NYE, J. Bound to lead: The Changing nature of American power. New York: Basic Books, 1990.