
Raissa Abnara, acadêmica do 3° semestre de Relações Internacionais da Unama
FICHA TÉCNICA:
Ano: 2024
Gênero: Documentário
Direção: Joe Berlinger
Produção: Smuggler Entertainment, Fireglory Pictures e Lions Productions
País de origem: Estados Unidos
A obra documental “Hitler e os Nazis: O Mal no Banco do Réus”, lançada em 2024 e dirigida por Joe Berlinger, aborda a ascensão do regime nazista e seus desdobramentos, com foco na responsabilização de seus líderes no pós-guerra. Fundamentada nos relatos de William L. Shirer, jornalista que acompanhou tanto o desenvolvimento do nazismo quanto os julgamentos de Nuremberg, a narrativa articula reconstrução histórica e análise política (SHIRER, 2017).
Ao apresentar o Holocausto às novas gerações, o documentário não se limita à organização cronológica dos acontecimentos, mas se insere em um contexto contemporâneo marcado pela disputa de narrativas e pelo avanço do negacionismo. Nesse sentido, evidencia-se que a memória histórica não é neutra, constituindo também um campo de disputa política no presente.
A narrativa acompanha a trajetória de Adolf Hitler, destacando o papel da propaganda, da censura e da manipulação de massas na consolidação do regime. Em um cenário de crise econômica e instabilidade política no período pós-Primeira Guerra Mundial, a sociedade alemã encontrava-se fragilizada, o que favoreceu a aceitação de discursos nacionalistas (BERLINGER, 2024). Nesse contexto, a figura política de Hitler é construída como um “salvador”, resultado de um processo de produção simbólica que mobilizou sentimentos de crise, insegurança e pertencimento nacional.
Ademais, ao articular imagens de arquivo, entrevistas e encenações, a obra evidencia que a manutenção do regime não se deu apenas pela coerção, mas também pela construção de consenso. O controle da informação, a disseminação do antissemitismo e o uso estratégico da propaganda demonstram o papel da ideologia na sustentação do poder político. Nesse sentido, o documentário destaca o papel do rádio e das grandes manifestações em Nuremberg como ferramentas essenciais para criar um senso de unidade e pertencimento, convertendo a propaganda em um apoio popular genuíno e disseminado.
Sob esse viés, a dinâmica apresentada pode ser analisada a partir das contribuições de Kenneth Waltz (1959). Sua teoria, o neorrealismo, estabelece que a estrutura anárquica do sistema internacional — a ausência de um poder central — obriga os Estados a buscarem sua própria segurança e sobrevivência. Para explicar a guerra, o autor propõe as ‘três imagens’ como níveis de análise: a primeira foca nas ambições dos líderes (indivíduo); a segunda nas instituições e crises internas (Estado); e a terceira na distribuição de forças do cenário global (sistema). Essa estrutura permite integrar os diversos fatores que culminaram no conflito (WALTZ, 1959).
Na dimensão individual, a liderança carismática de Hitler e sua habilidade em mobilizar massas foram determinantes para a ascensão do regime. Já na dimensão do Estado, a fragilidade institucional da República de Weimar, somada à crise econômica e ao ressentimento social pós-Versalhes, criou terreno fértil para a aceitação de discursos autoritários. Por fim, na dimensão do sistema internacional, a ausência de uma autoridade central e a política de apaziguamento das potências ocidentais permitiram que a Alemanha expandisse seu poder sem enfrentar resistência imediata. Assim, o documentário evidencia como a interação entre essas três esferas explica não apenas a emergência do nazismo, mas também a escalada que levou à Segunda Guerra Mundial.
Além disso, a construção do conflito não se limita a fatores materiais, mas envolve também dimensões simbólicas. (BERLINGER, 2024). Nesse contexto, a propaganda nazista utilizou cartazes e materiais escolares doutrinários, como o livro infantil ‘O Cogumelo Venenoso’, para normalizar o antissemitismo desde a infância. Além disso, o uso de filmes de propaganda e o controle do rádio foram essenciais para construir a imagem de um ‘inimigo interno’, desempenhando papel central na produção de percepções, tanto na definição de inimigos quanto na legitimação do regime, demonstrando que a guerra é, em parte, moldada pelas interpretações e imagens construídas pelos atores envolvidos.”
Por fim, ao evidenciar práticas como o controle da informação e a deslegitimação de instituições, a obra estabelece um diálogo direto com o presente. O enfraquecimento de instituições democráticas — como a imprensa livre e os mecanismos de controle do poder —, revela a permanência de dinâmicas que possibilitam a concentração de autoridade e a erosão de estruturas democráticas.
Dessa forma, Hitler e os Nazis: O Mal no Banco dos Réus não apenas reconstrói o passado, mas evidência, à luz das três imagens de Kenneth Waltz, as condições que tornam possível a emergência de regimes autoritários. Ao destacar a liderança de Hitler (indivíduo), a fragilidade da República de Weimar e a crise econômica (Estado), e a ausência de uma autoridade central no sistema internacional que permitiu a expansão alemã (sistema), o documentário reforça a importância de uma análise crítica das dinâmicas de poder e da memória histórica no cenário contemporâneo.
REFERÊNCIAS
BERLINGER, Joe. Hitler e os Nazis: O Mal no Banco dos Réus. Estados Unidos: Smuggler Entertainment; Fireglory Pictures; Lions Productions, 2024.
SHIRER, William L. Ascensão e queda do Terceiro Reich. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2017.
WALTZ, Kenneth. Man, the State and War: A Theoretical Analysis. New York: Columbia University Press, 1959.
