
Rita Polaro – Acadêmica do 5º semestre de Relações Internacionais da Unama
Marcado por diversas transformações, o século XX foi palco de grandes conflitos – como as duas Guerras Mundiais e a Guerra Fria – o que marcou também o surgimento das Relações Internacionais como área de estudo. É nesse contexto da Segunda Guerra Mundial que surge a necessidade de desenvolver a tecnologia como impulsionador da indústria bélica. Iniciada em meados da década de 1940, as pesquisas tinham como objetivo apenas encontrar novas funcionalidades para o computador (TECMUNDO, 2024). Dessa forma, entende-se que ao longo dos anos a natureza da guerra foi mudando de forma, tornando-a mais automatizada, rápida e menos dependente da intervenção humana direta.
Com base nas ideias construtivistas das Relações Internacionais, em contribuições de Alexander Wendt e da Escola de Copenhague, parte-se do pressuposto de que a realidade internacional é socialmente construída, sendo moldada por ideias, identidades, discursos e interações entre os Estados. Sob esse viés, a segurança internacional não pode ser compreendida apenas em termos materiais, mas deve ser analisada como resultado de processos sociais que definem o que é considerado ameaça, quem define essa ameaça e quais respostas são legitimadas a partir disso (WENDT, 1992; BUZAN; WÆVER; DE WILDE, 1998; JACKSON; SØRENSEN, 2013).
À medida em que a tecnologia avança, ela apresenta também diversos riscos e oportunidades emergentes. Estudos recentes apontam que sistemas de IA já são capazes de pilotar aeronaves táticas e superar operadores humanos em combates, evidenciando a substituição progressiva da tomada de decisão humana por algoritmos (ARMY UPRESS, 2025). Segundo análises recentes sobre o uso de tecnologias emergentes em conflitos armados, o conflito envolvendo EUA–Israel x Irã pode ser compreendido como um dos primeiros grandes eventos bélicos em que a Inteligência Artificial aparece de forma amplamente difundida (SIPRI, 2023).
Segundo reportagem do El País (2026), nas primeiras 24 horas da ofensiva, em 28 de fevereiro de 2026, Estados Unidos e Israel atingiram cerca de 1.000 alvos no Irã com uso intensivo de inteligência artificial, o que possibilitou maior precisão na identificação de alvos e a geração de sugestões operacionais quase em tempo real. Ademais, de acordo com a Associated Press (2024), Israel possui histórico de operações clandestinas no território iraniano, incluindo a infiltração de equipamentos e o emprego de tecnologias avançadas voltadas a ataques contra infraestruturas estratégicas.
Embora não esteja envolvida diretamente no conflito, a China se insere como uma potência tecnológica e estratégica que observa, aprende e se posiciona na corrida global por inteligência artificial militar, ao mesmo tempo em que sustenta o Irã diplomaticamente e disputa com os Estados Unidos a definição das normas e usos legítimos da IA na guerra (UNITED NATIONS, 2023). Ao acompanhar o emprego de drones autônomos, sistemas de seleção algorítmica de alvos e a crescente integração entre inteligência artificial e plataformas militares, Pequim passa a tratar o conflito como um campo indireto de experimentação empírica, a partir do qual fornece aparatos de geolocalização.
Em razão disso põem-se em questão a própria compreensão de quem detém tempo decisório dentro dos conflitos, a partir da potencialização de escaladas rápidas e menos controláveis. O que sustenta a premissa de que Estados que com maior domínio tecnológico em inteligência artificial possuem determinada vantagem militar, outra perspectiva que reforça desigualdades tecnológicas entre países. Diante disso, compreende-se que a inteligência artificial não é inerentemente militar ou ameaçadora, mas se torna assim a partir das interpretações e interesses construídos pelos Estados (WENDT, 1992; JACKSON; SØRENSEN, 2013).
A partir dessa análise o conceito de securitização, criado pela Escola de Copenhague no início da década de 1990, permite entender o processo pelo qual um determinado tema é construído como uma ameaça existencial que justifica medidas extraordinárias (BUZAN; WÆVER; DE WILDE, 1998; JACKSON; SØRENSEN, 2013).
Conclui-se então que as identidades e interesses dos Estados influenciam a forma como a IA é percebida, enquanto os processos de securitização transformam essa percepção em ação política concreta. No campo militar, isso implica que a IA não é apenas mais uma inovação, mas um elemento estruturante que redefine as bases do poder no sistema internacional. Essa perspectiva permite conectar sua análise com debates sobre assimetria tecnológica e desigualdade global, ao evidenciar que Estados com maior capacidade de desenvolver e integrar IA tendem a consolidar vantagens estratégicas duradouras.
Dessa forma, a inteligência artificial não deve ser entendida apenas como uma inovação tecnológica que impacta a guerra, mas como um fenômeno inserido em dinâmicas sociais, políticas e discursivas que moldam seu significado e suas implicações no sistema internacional. Essa abordagem possibilita uma análise mais profunda da transformação da guerra contemporânea e das assimetrias de poder associadas ao desenvolvimento tecnológico.
REFERÊNCIAS:
ATKINSON, Brett. Inteligência artificial na guerra moderna: inovação estratégica e riscos emergentes. Military Review (Edição Brasileira). Fort Leavenworth: Army University Press, 2025. Disponível em: https://www.armyupress.army.mil/Journals/Edicao-Brasileira/Arquivos/Primeiro-Trimestre-2025/Atkinson-POR-Q1-2025-UA/. Acesso em: 22 abr. 2026.
BUZAN, Barry; WÆVER, Ole; DE WILDE, Jaap. Security: a new framework for analysis. Boulder: Lynne Rienner Publishers, 1998.
Ciberguerras: o que a China entendeu antes do mundo. Outras Palavras, s.d. Disponível em: https://outraspalavras.net/tecnologiaemdisputa/ciberguerras-o-que-a-china-entendeu-antes-do-mundo/. Acesso em: 22 abr. 2026.
EL PAÍS. La IA entra de lleno en el campo de batalla: un millar de objetivos alcanzados en las primeras 24 horas de la guerra de Irán. Madrid, 22 mar. 2026. Disponível em: https://elpais.com/internacional/2026-03-22/la-ia-entra-de-lleno-en-el-campo-de-batalla-un-millar-de-objetivos-alcanzados-en-las-primeras-24-horas-de-la-guerra-de-iran.html. Acesso em: 22 abr. 2026.
Mossad, Iran, Israel weapons missiles. AP News, Nova York, 2024. Disponível em: https://apnews.com/article/mossad-iran-israel-weapons-missiles-a504ee31c70857c8d86a0d066997e344. Acesso em: 22 abr. 2026.
O que é inteligência artificial? TecMundo, s.d. Disponível em: https://www.tecmundo.com.br/mercado/1039-o-que-e-inteligencia-artificial-.htm. Acesso em: 22 abr. 2026.
STOCKHOLM INTERNATIONAL PEACE RESEARCH INSTITUTE (SIPRI). Artificial Intelligence, Strategic Stability and Nuclear Risk. Stockholm, 2023.
UNITED NATIONS. Report of the Group of Governmental Experts on Emerging Technologies in the Area of Lethal Autonomous Weapons Systems. Geneva, 2023.
WENDT, Alexander. Anarchy is what states make of it: the social construction of power politics. International Organization, Cambridge, v. 46, n. 2, p. 391–425, 1992.
WENDT, Alexander. Social theory of international politics. Cambridge: Cambridge University Press, 1999.
