
Tiago Callejon Santos – Internacionalista formado pela UNAMA
A Copa do Mundo da FIFA 2026, está prestes a iniciar e já alcançou um feito histórico e inédito: a participação de 48 seleções durante a competição (DAZN, 2026). Assim, muito se espera acerca das expectativas gerais do torneio, sobretudo, é claro, nos âmbitos esportivos da competição.
Afinal, a Copa do Mundo da FIFA se configura enquanto um torneio internacional de futebol, o qual é protagonizado pelo futebol das seleções nacionais dos países de todo o mundo, então é natural e evidente que esta se trate de uma competição de natureza esportiva sumariamente, sendo esta a maior de todas. No entanto, as dimensões e as influências da Copa do Mundo se reverberam em vários aspectos e questões, em âmbitos domésticos e internacionais, o que não a faz ser um objeto de caráter apenas esportivo ou de entretenimento, mas também um objeto que aborde questões de poder, identidade, nacionalismo, rivalidade, entre outros.
Os confrontos futebolísticos que irão ocorrer durante a competição não trarão consigo somente aspectos de rivalidade esportiva no âmbito do futebol, mas também os aspectos históricos, políticos e culturais que se fazem vigentes entre os Estados em contextos atuais. De forma que, estes buscarão se impor mediante aos outros por meio do domínio do futebol, que poderá lhe conceder prestígio, soberania, influência e poder imaterial.
Nesse sentido, este artigo irá apresentar alguns aspectos basilares para se compreender as dimensões de escala global em que a FIFA consegue influenciar a todos por meio desta competição, com a finalidade de esclarecer como estes aspectos influenciam em uma maior formação de rivalidade histórica entre os Estados e das suas realidades identitárias aplicadas ao esporte.
Ao se abordar, em primeira ordem, as realidades de movimentação de lucros e receitas da Copa do Mundo, o jornalista Danilo Lavieri (2026) expõe que esta edição da Copa do Mundo apresentará uma projeção de movimentação de mais de 41 bilhões de dólares – na cotação atual, algo próximo dos 205 milhões de reais – em injeção de receitas na economia, além de gerar mais de 800 mil empregos em prol dos eventos da Copa. Ademais, também se espera que seja gerado mais de 6 bilhões de dólares de receitas e patrocínios se comparada à edição da Copa de 2022 (Máquina do Esporte, 2026), demonstrando um caráter macroscópico de influência do torneio na economia local e internacional.
Outro ponto de grande destaque para se abordar se refere à consolidação da imagem da Copa do Mundo enquanto uma entidade de enorme visibilidade no marketing global, tendo sido construída por várias marcas de grande expressão, renome e influência.
Segundo Aguirra (2026), a imagem global que os indivíduos possuem da Copa do Mundo da FIFA fora ocasionada pelas estratégias eficazes e históricas de marcas como Adidas, Nike e Coca-Cola, onde estas utilizaram construções narrativas emocionais e culturais que permitiram a consolidação do patamar de identidade visual da Copa enquanto sendo o maior palco do marketing global.
A evolução de abordagem destas marcas permitiu com que os indivíduos globais pudessem adaptar os seus sentidos físicos à uma imagem socialmente construída da competição, elevando o seu engajamento midiático global e, posteriormente, elevando o seu status na constituição do poder imaterial da mesma (Aguirra, 2026).
Essas contextualizações se fazem necessárias, pois dimensionam em vários graus a importância midiática, econômica e política que a Copa do Mundo exerce em todo o mundo, nos mais distintos e diversos atores e organismos que compõem o grande sistema. Seguindo por este viés, há de se abordar o aspecto imaterial e identitário da Copa do Mundo, pois o futebol, em linhas gerais, se configura enquanto um elemento de identidade nacional de um país, designando o mesmo como algo que vai além de um entretenimento, mas para algo que se converte em uma forma eficaz e simbólica de uma comunidade nacional, de um povo.
Nessa linha de pensamento, uma seleção nacional funciona enquanto um símbolo de unidade de uma população, além de também significar uma expressão pública dos valores que aquela determinada nação atribui a si mesma.
Quando uma seleção nacional participa de uma Copa do Mundo e ela realiza os seus jogos, na prática é o país daquela seleção que “entra em campo”, permitindo com que um jogo de caráter esportivo se torne algo muito mais complexo e filosoficamente íntimo, passando a operar como uma disputa simbólica entre países, uma afirmação de prestígio internacional ou uma demonstração de força cultural e emocional, carregado historicamente por vários valores e aspectos imateriais.
Com efeito, há de apresentar algumas das principais rivalidades esportivas que se sucederão nessa Copa do Mundo, trazendo os casos mais proeminentes e de maior valor histórico e cultural no âmbito esportivo do futebol de nações. Deste modo, a primeira rivalidade em destaque, sendo esta potencialmente a maior rivalidade de seleções nacionais do mundo, protagonizada por Brasil e Argentina.
A rivalidade sul-americana por excelência, que também pode ser conhecido como o “maior clássico da América do Sul” (Diniz, 2026), é uma grande rivalidade onde se observa o protagonismo exercido pelas duas seleções sul-americanas a fim de conquistar uma disputa histórica pela hegemonia da América do Sul. Além da natural disputa das duas em termos de implementação de filosofia de jogo, onde sempre se observa constantes comparações entre os estilos nacionais futebolísticos produzidos por ambas as nações.
Isto sem falar, é óbvio, das conquistas mundiais em evidência que se apresentam nessa rivalidade, pois de um lado se tem o Brasil, com 5 conquistas mundiais, e do outro lado a Argentina, com 3 conquistas mundiais, demonstrando toda a força e grandeza histórica de ambas.
Outra rivalidade histórica proeminente na realidade latino-americana se refere a Brasil e Uruguai. Esta rivalidade, atualmente, não é tão destacada, mesmo configurando uma rivalidade grande para a realidade da América do Sul (Diniz, 2026). No entanto, simbolicamente, esta disputa é grande, pois resgata o episódio histórico conhecido como Maracanzo, um episódio que ocorreu em 1950. O Brasil perdeu a final para o Uruguai com o Maracanã lotado de espectadores brasileiros, algo que configurou um trauma extremamente marcante na mentalidade futebolística do Brasil à época, criando uma memória coletiva de derrota extremamente marcante (Portal Fifa, 2025).
Com efeito, nem somente disputas esportivas incendeiam esses aspectos de rivalidade nas nações mediante à Copa do Mundo, mas fatores externos como confrontos militares e tensões políticas também configuram fortemente estes embates. A exemplo destas realidades, podem ser citadas duas rivalidades fortemente influenciadas por tais, sendo elas: a rivalidade entre Argentina e Inglaterra, e a rivalidade entre Inglaterra e Alemanha.
A primeira é profundamente marcada pelos conflitos das Guerras das Malvinas, além de ter um aspecto de revanchismo extremamente elevado após os desdobramentos do jogo da Copa do Mundo de 1986, onde a Argentina eliminou a Inglaterra com um dos episódios mais polêmicos e marcantes das Copas, a famosa “Mano de Dios”, de Diego Armando Maradona. Onde, este marcou um gol de mão em cima da Inglaterra, a eliminando, e incrementando ainda mais a rivalidade entre estas nações (Blanes, 2026). Assim, esta rivalidade é a mais carregada politicamente no futebol mundial.
Já se tratando da rivalidade de Alemanha e Inglaterra, esta possui um aspecto mais geral e histórico, pois ambas as nações combinam históricos de memórias em guerras mundiais, disputas históricas pelo poder na Europa e confrontos traumáticos em Copas (Diniz, 2026), sendo os seus momentos mais marcantes a final da Copa de 1966, as semifinais de 1990, as várias disputas por pênaltis protagonizadas por ambas e as tensões históricas pós-guerras.
Há ainda outras rivalidades para se abordar e que merecem destaque, como França e Argélia, Brasil e Alemanha, Alemanha e Argentina, entre outros, mas o foco aqui é demonstrar em como as rivalidades entre seleções nacionais nas Copas do Mundo transcendem o âmbito esportivo, funcionando como expressões simbólicas de disputas históricas, traumas coletivos, identidades nacionais e memórias políticas compartilhadas, realidades estas que dialogam perfeitamente com as proposições demonstradas por este artigo, bem como nas relações destas com às Relações Internacionais.
Desse modo, essas realidades de nacionalismo, identidade e conflitos históricos entre as seleções nas Copas dialogam perfeitamente com vários arcabouços teóricos das Relações Internacionais, sobretudo com os pensamentos dos construtivistas desta ciência social.
O construtivismo sustenta, por exemplo, perfeitamente estas ideias, pois esta escola teórica entende que as identidades nacionais são socialmente construídas, e não automaticamente expostas, e que os interesses dos Estados derivam destas identidades, principalmente por meio dos símbolos, da cultura e dos discursos que moldam a política internacional (Wendt, 1999).
Nesse sentido, as análises propostas por Stuart Hall (1992), exímio sociólogo e teórico cultural, fazem-se coerentes e cabem perfeitamente nestas análises em questão. O autor expõe que as identidades nacionais são produzidas por narrativas, símbolos, representações e práticas culturais, isto é, a nacionalidade destes povos não se caracterizam enquanto essências naturais, mas enquanto construções sociais continuamente reproduzidas, onde se visualiza facilmente o futebol mundial e a Copa do Mundo enquanto um objeto destas constituições identitárias socialmente construídas.
O futebol internacional, especialmente nas Copas do Mundo, atua como mecanismo de representação cultural das identidades nacionais, produzindo narrativas simbólicas sobre pertencimento, diferença e memória coletiva. Conforme Stuart Hall (1992), estas identidades não são naturais ou permanentes, mas continuamente construídas e reproduzidas por discursos culturais e midiáticos.
Portanto, nas premissas estipuladas ao longo deste texto, observa-se claramente como o futebol e a Copa do Mundo são, de fato, instrumentos solidificadores para a formação das identidades nacionais mediante ao futebol, os quais são intensamente incendiadas por aspectos de rivalidades e conflitos históricos, seja em naturezas esportivas, políticas, históricas, militares ou socioeconômicas.
Referências:
ADNEWS. Campanhas publicitárias da Copa do Mundo: estratégias e impacto no engajamento global. AdNews, 15 maio 2026. Disponível em: https://adnews.com.br/post/campanhas-publicitarias-da-copa-do-mundo-estrategias-e-impacto-no-engajamento-global
CADENA SER. De ‘La mano de Dios’ de Maradona a la guerra de las Malvinas: el documental que narra la rivalidad histórica de Argentina e Inglaterra. Cadena SER, 15 maio 2026. Disponível em: https://cadenaser.com/nacional/2026/05/15/de-la-mano-de-dios-de-maradona-a-la-guerra-de-las-malvinas-el-documental-que-narra-la-rivalidad-historica-de-argentina-e-inglaterra-cadena-ser/
DAZN. Jogos da Copa do Mundo de 2026: calendário, horários e locais para cada seleção. DAZN, [s.d.]. Disponível em: https://www.dazn.com/pt-BR/news/futebol/jogos-da-copa-do-mundo-de-2026-calendario-horarios-e-locais-para-cada-selecao/1w95edqraimb91tbq0qw9ng6d0
FIFA. Uruguai x Brasil 1950: Maracanazo. FIFA, [s.d.]. Disponível em: https://www.fifa.com/pt/tournaments/mens/worldcup/articles/uruguai-brasil-1950-maracanazo
HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. 11. ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2006.
INFOMONEY. Maior Copa do Mundo da história tem previsão de movimentar mais de R$ 200 bilhões. InfoMoney, 19 maio 2026. Disponível em: https://www.infomoney.com.br/esportes/maior-copa-do-mundo-da-historia-tem-previsao-de-movimentar-mais-de-r-200-bilhoes/
MAQUINA DO ESPORTE. Copa do Mundo 2026 deve gerar mais de US$ 6 bilhões em receitas de mídia e patrocínio. Máquina do Esporte, [s.d.]. Disponível em: https://maquinadoesporte.com.br/copa-mundo-2026/copa-do-mundo-2026-deve-gerar-mais-de-us-6-bilhoes-em-receitas-de-midia-e-patrocinio/
IMORTAIS DO FUTEBOL. Maiores rivalidades das Copas do Mundo. Imortais do Futebol, 6 abr. 2026. Disponível em: https://imortaisdofutebol.com/maiores-rivalidades-das-copas-do-mundo/
WENDT, Alexander. Anarchy is What States Make of It: The Social Construction of Power Politics. International Organization, v. 46, n. 2, 1992.
WENDT, Alexander. Social Theory of International Politics. Cambridge: Cambridge University Press, 1999.
