Railson Silva (acadêmico do 8° semestre de Relações Internacionais da UNAMA)
Durante grande parte do século XX, o campo acadêmico das Relações Internacionais (RI) foi construído a partir de perspectivas predominantemente masculinas. E conforme destaca Nogueira e Messari (2005), as teorias clássicas das Relações Internacionais foram construídas a partir de uma visão predominantemente estatal e centrada no poder, o que dificultou a incorporação de novos sujeitos e agendas ao debate acadêmico. Nesse contexto, o surgimento das abordagens feministas representou uma importante transformação epistemológica ao questionar pressupostos considerados universais e neutros pela disciplina.
Entre as principais responsáveis por essa renovação teórica destaca-se Judith Ann Tickner, reconhecida como uma das pioneiras do feminismo nas Relações Internacionais. Suas contribuições foram fundamentais para demonstrar que conceitos centrais da disciplina são influenciados por construções sociais de gênero e refletem uma visão historicamente associada à masculinidade.
Judith Ann Tickner é uma das mais influentes teóricas feministas das Relações Internacionais e uma das principais responsáveis pela consolidação dos estudos de gênero na disciplina. Nascida em 1937, no Reino Unido, desenvolveu sua carreira acadêmica principalmente nos Estados Unidos, onde atuou como professora e pesquisadora em instituições de destaque.
A sua principal obra, Gender in International Relations: Feminist Perspectives on Achieving Global Security (1992), é considerada um marco nos estudos feministas das Relações Internacionais. Nesse trabalho, Tickner realiza uma crítica sistemática ao realismo político, especialmente às formulações de Hans Morgenthau, argumentando que a política internacional não pode ser compreendida apenas por meio da competição entre Estados e da busca por poder.
Segundo Tickner (1992), essa perspectiva ignora diversas formas de violência e insegurança que afetam indivíduos e grupos sociais. De forma semelhante, Villa e Tostes (2006) observam que as transformações ocorridas após a Guerra Fria exigiram a ampliação dos referenciais analíticos da disciplina, tornando insuficientes as explicações exclusivamente centradas no Estado.
A autora sustenta que a segurança deve ser analisada de forma mais ampla, incluindo fatores como desigualdade social, pobreza, discriminação e violência de gênero, elementos frequentemente ignorados pelas abordagens tradicionais do campo.
Além de questionar os limites teóricos do realismo, Tickner propõe a utilização do gênero como categoria analítica para compreender a dinâmica da política internacional. Segundo a autora, as relações de gênero influenciam a distribuição de poder na sociedade e afetam diretamente processos políticos, econômicos e militares.
Outro aspecto relevante de seu pensamento está relacionado à reformulação do conceito de segurança. Em contraposição à visão estatal predominante, a autora defende uma abordagem centrada nos indivíduos e nas comunidades, aproximando-se do conceito de segurança humana. Nesse viés, a proteção das pessoas contra diferentes formas de violência e vulnerabilidade torna-se tão importante quanto a defesa militar dos Estados.
Dessa forma, as contribuições de J. Ann Tickner foram fundamentais para ampliar os horizontes teóricos das Relações Internacionais e promover uma reflexão crítica sobre a produção do conhecimento na área. Como observam Nogueira e Messari (2005), as abordagens pós-positivistas, entre elas o feminismo, contribuíram para tornar a disciplina mais plural e sensível à diversidade de experiências humanas.
Referências:
NOGUEIRA, João Pontes; MESSARI, Nizar. Teoria das Relações Internacionais: Correntes e Debates. Rio de Janeiro: Elsevier, 2005.
TICKNER, J. Ann. Gender in International Relations: Feminist Perspectives on Achieving Global Security. New York: Columbia University Press, 1992.
VILLA, Rafael Duarte; TOSTES, Ana Paula. Segurança Internacional: novos temas e desafios. In: OLIVEIRA, Henrique Altemani de (org.). Política Internacional Contemporânea. São Paulo: Saraiva, 2006.
