Alciane Carvalho Dias 

Internacionalista formada pela UNAMA 

Dona de uma voz potente e de uma presença cênica magnética, a cantora e compositora soteropolitana, Majur, nasceu em Salvador, Bahia, em 21 de outubro de 1995. Iniciando sua trajetória na música ainda na infância, aos cinco anos de idade, cantando no coral da Orquestra Sinfônica da Bahia (VOGUE, 2019), a artista consolidou sua carreira profissional anos mais tarde ao fundar a banda Majur e os Versáteis. 

A “descoberta” e afirmação de sua identidade de gênero como mulher trans ocorreram de forma profunda ao longo de sua juventude, um processo em que a religião de matriz africana desempenhou um papel central de acolhimento e autoconhecimento. 

O Candomblé não apenas a ajudou a compreender sua transição, mas tornou-se parte indissociável de sua vida pessoal e criativa. Longe de limitar-se ao sucesso mercadológico, Majur utiliza a sua arte como uma plataforma de refundação epistemológica, onde a corporalidade trans, a ancestralidade e a espiritualidade de matriz africana convergem para desafiar as estruturas da colonialidade. 

Ao inscrever sua vivência nos circuitos musicais globais, a artista opera um deslocamento na geopolítica do conhecimento, retirando os corpos dissidentes da condição de objetos de violência para posicioná-los como sujeitos soberanos de direito e de enunciação teórica (Mignolo, 2003).

Dentro do ecossistema das Relações Internacionais, o Feminismo Decolonial, a Teoria Queer e o Pensamento Pós-Colonial oferecem o arcabouço necessário para decodificar o impacto político de sua obra. Autoras como Maria Lugones (2008) argumentam que a colonização não apenas espoliou territórios, mas impôs o chamado sistema moderno-colonial de gênero, uma estrutura eurocêntrica, binária e heteronormativa encarregada de desumanizar corpos não alinhados a esse padrão. 

Para teóricos pós-coloniais das RI, como Frantz Fanon(2005), a libertação do sujeito colonizado exige a descolonização da mente e a destruição das categorias impostas pelo opressor. 

A presença de Majur implode essa lógica colonial ao politizar a própria existência. No álbum “Ojunifé”, cujo título remete à expressão iorubá para “olhos do amor”, a artista performa uma autêntica justiça epistêmica através do resgate da ancestralidade. Na faixa “Oríkì”, Majur evoca a cosmovisão do Candomblé, utilizando saudações aos Orixás e tambores sagrados para trazer para o centro do debate uma temporalidade e uma filosofia que o projeto colonial tentou extirpar, provando que a conexão com o passado e com a terra é uma tecnologia de resistência política transnacional (Mignolo, 2003; Lugones, 2008; Fanon, 2005).

Essa articulação de saberes subalternizados e a afirmação da identidade negra e trans ganham contornos de denúncia e afeto na canção “Andarilho”, onde a caminhada de uma mulher trans é narrada através do direito à existência pacífica e ao amor. Sob a lente da Teoria Queer aplicada às RI por autoras como Cynthia Weber (2016), o corpo de Majur funciona como um sítio de contestação da soberania estatal mitigada. 

Em um sistema internacional que frequentemente negligencia a segurança humana de minorias sexuais e de gênero, a música de Majur redefine o conceito de segurança para além das fronteiras militares, localizando-o na integridade física e psíquica dos corpos marginalizados. A faixa “Cláudia”, uma colaboração com a cantora Ivete Sangalo, exemplifica como essa articulação transita entre nichos de resistência e o mainstream cultural, operando um soft power que tensiona a imagem do próprio Estado brasileiro no exterior, expondo suas contradições internas entre o conservadorismo estrutural e a vanguarda artística de suas minorias (Weber, 2016; Lugones, 2008).

No fim das contas, a obra de Majur nos mostra que a verdadeira libertação não se assina em tratados diplomáticos, mas se canta com a alma. A fusão dos tambores afro-brasileiros com a pulsação do pop contemporâneo desenha o que Lélia Gonzalez (2018) chamou de Amefricanidade, remapeando o poder cultural que brota do Sul Global. 

Ao soltar a voz sobre sua transição, sua fé e o seu direito de amar, Majur prova que a soberania mais bonita é aquela que fratura as correntes do preconceito colonial. Sua música é um passaporte sagrado que avisa ao mundo: a periferia nunca esteve à margem da história; ela está, na verdade, reescrevendo o próprio futuro através do ritmo e do afeto (Gonzales, 2018; Weber, 2016).

Referências

​FANON, Frantz. Os condenados da terra. Juiz de Fora: Editora UFJF, 2005. Disponível em: https://books.google.com.br/books?id=b56wAAAAMAAJ. Acesso em: 22 jun. 2026.

​GONZALEZ, Lélia. Primavera para as rosas negras: Lélia Gonzalez em primeira pessoa. Diáspora Africana: Editora Filhos de África, 2018. Disponível em: https://books.google.com.br/books?id=Z-96zQEACAAJ. Acesso em: 22 jun. 2026.

​LUGONES, Maria. Colonialidad y género. Tabula Rasa, Bogotá, n. 9, p. 73-101, jul./dic. 2008. Disponível em: https://revistas.unicolombia.edu.co/index.php/tabularasa/article/view/1501. Acesso em: 22 jun. 2026.

​MIGNOLO, Walter D. Histórias locais/Projetos globais: colonialidade, saberes subalternos e pensamento liminar. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2003. Disponível em: https://books.google.com.br/books?id=f_YVAQAAMAAJ. Acesso em: 22 jun. 2026.

​VOGUE. Majur conta como a música salvou sua vida e relembra infância na Bahia: “andava descalça e cantava no coral”. Vogue Brasil, São Paulo, 12 jul. 2019. Disponível em: https://vogue.globo.com/lifestyle/cultura/noticia/2019/07/majur-conta-como-musica-salvou-sua-vida-e-relembra-infancia-na-bahia-andava-descalca-e-cantava-no-coral.html. Acesso em: 22 jun. 2026.

​WEBER, Cynthia. Queer International Relations: Sovereignty, Sexuality and the Will to Knowledge. Oxford: Oxford University Press, 2016. Disponível em: https://academic.oup.com/book/7325. Acesso em: 22 jun. 2026.