Julia Pimenta – 3° Semestre

Yasmin Cavalcante – 3° Semestre

O mundo contemporâneo tem passado por uma remodelação em sua estrutura nos últimos anos, predominantemente, em decorrência da ascensão chinesa, que cada vez mais desafia a hegemonia estadunidense. Essa “perda” de poder dos Estados Unidos, além de reestruturar a ordem global ao colocar a China como ator central, também direciona a Ásia como um “novo” palco no sistema internacional.

Da mesma forma, embora o mundo observe uma potência ascender, essa transformação ainda está fortemente interligada à ordem vigente, é uma mudança que caminha para o novo, mas ainda se prende ao passado. A ascensão chinesa, ainda que surpreendente, foi construída ao longo de décadas por meio de estratégias de longo prazo que deram resultado e que seguem em desenvolvimento até hoje.

Até 1978, quando Deng Xiaoping adotou estratégias para atrair investimento estrangeiro e criar áreas econômicas especiais, a China era um território pobre, com economia baseada na agricultura. No entanto, com essa guinada em seu plano, a China foi inserida no mercado capitalista global, tornando-se hoje uma das maiores economias do mundo, e possuindo o maior poder de compra no mundo, desde 2019 (OLIVEIRA, 2026). 

Surpreendentemente, essa transformação ocorreu em menos de 50 anos. O crescimento chinês foi muito rápido e ocorreu “sem” conflitos, de forma calma e silenciosa. Conforme o mundo avança tecnologicamente, novas estratégias são adotadas e inseridas em planos já existentes.

A dominação de Pequim sobre a cadeia global de suprimentos verdes é um exemplo disso. Isso se reflete na popularização dos carros elétricos, que simbolizam o futuro em conformidade com a preservação ambiental, na busca por fontes de energia renováveis (com destaque para a produção de energia solar) e em áreas como a inteligência artificial, ou seja, a estratégia chinesa de avançar tecnologicamente com base em pautas ambientais, além de estar alinhada a uma demanda popular do momento, revela também sua visão de futuro. Enquanto os mecanismos tecnológicos mantiverem características renováveis como tendência, a China estará muito à frente nesse quesito, o que contribui ainda mais para sua dominação nesse campo.

O enfraquecimento dos Estados Unidos engloba não somente a ascensão de potências rivais, como a China, mas também questões internas estruturais, a exemplo da desaceleração na criação de empregos e do aumento dos déficits orçamentários, somando-se os impactos advindos das fortes políticas protecionistas e imigratórias. Ou seja, a desestruturação estadunidense possui origem tanto interna quanto externa. No entanto, como uma “forma” de desviar a atenção dos problemas internos, os Estados Unidos buscam direcioná-la para uma nação que seria a “responsável” por desmantelar a ordem vigente, causando danos e sendo tratada como inimiga, aproveitando-se assim do contexto de disputa (BLANKENSHIP, 2024).

A China, por sua vez, ao ser classificada como responsável pela desestabilização da maior potência mundial, torna-se “igualmente” impactante e relevante aos olhos do sistema internacional. Isso chama atenção para si e a beneficia, seja por meio de negociações, seja por meio de relações sociais.

Essa ascensão “silenciosa” da China, no entanto, não pode ser compreendida como um processo isento de tensões estruturais. À luz do realismo ofensivo de John Mearsheimer, a distribuição de poder no sistema internacional, e não as intenções dos Estados ou seus modelos econômicos, é o fator determinante do comportamento estatal. Para o autor, o sistema internacional é anárquico, ou seja, não existe uma autoridade central capaz de garantir a segurança dos Estados, o que os obriga a buscar o máximo de poder relativo possível como forma de assegurar sua sobrevivência (MEARSHEIMER, 2001). Nesse sentido, ainda que a ascensão chinesa seja frequentemente apresentada por Pequim como pacífica e cooperativa, ela é lida por Washington como uma alteração estrutural na distribuição de poder alteração que segundo a teoria, tende a gerar competição e não cooperação duradoura.

Um dos argumentos centrais de Mearsheimer é o de que as grandes potências nunca se satisfazem com o nível de poder que possuem; ao contrário, buscam alcançar a hegemonia regional, condição que consideram a mais segura para garantir sua sobrevivência em um sistema anárquico e sem garantias quanto às intenções alheias. Foi exatamente esse movimento que os próprios Estados Unidos realizaram ao longo dos séculos XIX e XX, quando consolidaram sua supremacia no hemisfério ocidental por meio da Doutrina Monroe, afastando as potências europeias de sua área de influência. Para Mearsheimer (2001;2014), a China, à medida que acumula poder econômico e militar, tende a reproduzir essa mesma lógica na Ásia, buscando reduzir a influência estadunidense na região e estabelecer-se como Hegemon regional que explicaria, inclusive, sua tese de que a China não pode ascender pacificamente.

Nessa perspectiva, o “enfraquecimento” dos Estados Unidos não decorre necessariamente de um declínio absoluto de seu poder, mas de uma perda de poder relativo diante da ascensão chinesa, conceito central para o realismo ofensivo, que trata as relações de poder sempre em termos comparativos entre os Estados. Assim, mesmo que Washington mantenha capacidades militares e econômicas expressivas, a redução da distância que o separa de Pequim já é suficiente, na lógica realista, para alterar a estrutura de poder do sistema internacional e intensificar a competição estratégica entre as duas potências.

Diante desse cenário, o realismo ofensivo antecipa uma postura estadunidense de contenção, semelhante à adotada durante a Guerra Fria em relação à União Soviética. A formação de alianças como o Quadrilateral Security Dialogue (Quad), reunindo Estados Unidos, Japão, Índia e Austrália, além do fortalecimento de parcerias com Coreia do Sul, Filipinas e Taiwan, pode ser interpretada como uma estratégia de balanceamento na qual Washington tenta impedir que Pequim consolide sua hegemonia regional sem que isso resulte, necessariamente, em confronto direto (MEARSHEIMER, 2001).

A ascensão chinesa e o correspondente declínio relativo dos Estados Unidos configuram um processo de transição estrutural de poder, edificado ao longo de décadas por meio de estratégias econômicas e tecnológicas deliberadas, ainda que permeado por tensões inerentes à própria dinâmica da política internacional.

À luz do realismo ofensivo de Mearsheimer, esse cenário corrobora a premissa de que potências emergentes, à medida que acumulam capacidades relativas, tendem a buscar preponderância regional, mesmo sob retórica de cooperação pacífica. A reação de Washington, expressa em medidas protecionistas e no fortalecimento de alianças como o Quad, não representa um desvio irracional voltado a mascarar fragilidades domésticas, mas sim uma resposta compatível com o padrão histórico de contenção adotado por potências que percebem sua posição relativa ameaçada.

Dessa forma, a disputa entre as duas nações revela-se manifestação estrutural da anarquia internacional, na qual a busca por segurança, mediada pela distribuição relativa de poder, condiciona o comportamento estatal independentemente das intenções declaradas. O desfecho permanece incerto, mas o arcabouço teórico elucida o crescente ceticismo estadunidense diante da pretensa ascensão pacífica chinesa.

Referência:

BLANKENSHIP, Bradley. A nation misled: the US obsession with China at the expense of its own people. Global Times, 2024. Disponível em:https://www.globaltimes.cn/page/202408/1318501.shtml. Acesso em 02 jul. 2026.

MEARSHEIMER, John J. Can China Rise Peacefully? The National Interest, 2014.

MEARSHEIMER, John J. The Tragedy of Great Power Politics. New York: W. W. Norton & Company, 2001. OLIVEIRA, João José. PIB da China acelera em 2026; veja o que falta para tirar os EUA do topo. UOL, 2026. Disponível em:https://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2026/04/19/pib-da-china-acelera-em-2026-o-que-falta-para-tirar-eua-do-topo.htm. Acesso em: 02 jul. 2026.