Foto: monticelllo/GettyImages

Taila Amaral – acadêmica do 4° semestre de Relações Internacionais da UNAMA

A agilidade e a praticidade têm sido protagonistas do cotidiano da sociedade atual, afetando a alimentação das pessoas a partir da escolha dos produtos alimentícios. Nesse contexto, os alimentos ultraprocessados, definidos como um grupo distinto caracterizado por formulações hiper industriais cujo objetivo é manipular os atributos dos alimentos in natura e prolongar sua validade comercial (Monteiro et al., 2016), têm ganhado destaque, seja pela facilidade de consumo, seja pela rapidez de preparo. 

Sendo assim, destaca-se a importância da discussão acerca dos impactos negativos dos alimentos ultraprocessados para além do debate nutricional, visto que o consumo excessivo desses produtos contribui para tornar os consumidores cada vez mais reféns do oligopólio da indústria alimentícia internacional, reduzindo sua autonomia quanto às escolhas alimentares, como afirma Almeida (2019).

Ao longo da história, os padrões de consumo alimentar deixaram de representar apenas uma necessidade básica de sobrevivência e passaram a refletir estilos de vida, classes sociais e identidades culturais. Nesse processo, fatores econômicos, culturais e demográficos transformaram a relação da sociedade com a alimentação, exigindo da indústria alimentícia uma adaptação voltada à produção padronizada em larga escala e à distribuição contínua para atender à crescente demanda do mercado. 

Nesse sentido, observa-se que, com o crescimento da indústria alimentícia, emergiram novas marcas de industrializados no mercado que utilizam estratégias publicitárias para persuadir as escolhas alimentares da população, por meio de campanhas de marketing que focam na agilidade, duração e menor custo, influenciando o comportamento do consumidor e contribuindo para a expansão do consumo de tais produtos (Caivano et al., 2017).

Para compreender as estruturas econômicas que sustentam esse processo, recorre-se à perspectiva marxista, segundo a qual as relações econômicas constituem a base da organização da sociedade, influenciando as dimensões política, social e cultural. Para Marx (1990), o capitalismo é um modo de produção orientado pela acumulação de capital, no qual a produção de mercadorias está subordinada à obtenção de lucro. Nesse sistema, os bens deixam de ser produzidos prioritariamente para satisfazer necessidades humanas e passam a ser determinados por seu valor de troca, isto é, por sua capacidade de gerar rentabilidade no mercado. 

À luz da ótica marxista, os alimentos ultraprocessados podem ser compreendidos como uma expressão da lógica de acumulação de capital, visto que são produzidos em larga escala, com ingredientes de menor custo e elevada rentabilidade, tornando-se altamente lucrativos para as grandes corporações desse setor (Marx, 1990). Paralelamente a isso, transformações no mercado de trabalho, marcadas por jornadas mais extensas, deslocamentos prolongados e pouco tempo disponível para o preparo das refeições, fazem com que alimentos prontos sejam percebidos como alternativas mais viáveis pela população. 

Nesse contexto, a praticidade deixa de representar apenas uma conveniência e passa a constituir uma necessidade imposta pelo próprio sistema capitalista, favorecendo a expansão do consumo desses produtos e reforçando um modelo produtivo orientado pela maximização do lucro. Como consequência, esse processo não produz apenas mudanças nos hábitos de consumo, mas também na própria cultura alimentar, reduzindo o espaço destinado às tradições culinárias locais, aos alimentos in natura e aos conhecimentos transmitidos entre gerações (Gaia, 2025).

 Além dos impactos sobre a saúde, essa padronização evidencia como a lógica do mercado tende a substituir práticas alimentares construídas historicamente por produtos padronizados distribuídos em escala global, enfraquecendo identidades culturais e limitando, progressivamente, a autonomia alimentar da população.

Ademais, o consumo excessivo desses alimentos está associado ao aumento da obesidade, diabetes, hipertensão, doenças cardiovasculares e outras doenças crônicas não transmissíveis, comprometendo a qualidade de vida da população e contribuindo, em muitos casos, para mortes evitáveis (Monteiro et al., 2016; Brasil, 2014). 

Por conseguinte, diferentes Estados passaram a adotar mecanismos regulatórios voltados à proteção da saúde pública. No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) instituiu a rotulagem nutricional frontal para alimentos com altos teores de açúcares adicionados, gorduras saturadas e sódio, buscando ampliar o acesso à informação e garantir que o consumidor realize escolhas alimentares mais conscientes, demonstrando que a proteção da saúde pública exige mecanismos de regulação capazes de equilibrar os interesses econômicos com o bem-estar coletivo (ANVISA, 2020a; ANVISA, 2020b).

Portanto, a expansão dos alimentos ultraprocessados evidencia que a alimentação ultrapassa o campo nutricional e configura-se como um fenômeno atravessado por interesses econômicos e dinâmicas do capitalismo global, cuja lógica de acumulação de capital contribui para consolidar um sistema que busca transformar um direito básico em mercadoria, pois esse modelo favorece a homogeneização dos hábitos alimentares, enfraquecendo culturas alimentares  locais e limitando, progressivamente, a autonomia dos consumidores.

 Discutir acerca dos impactos desses alimentos significa refletir sobre quem controla a produção, a circulação e o acesso a esses produtos, uma vez que a soberania alimentar deve ser compreendida como um projeto que ultrapassa a garantia do acesso à alimentação, exigindo uma análise crítica das estruturas econômicas e políticas que sustentam o sistema alimentar contemporâneo (Gaia, 2025). Assim, refletir sobre o sistema alimentar contemporâneo é, sobretudo, questionar quais interesses orientam a produção, a distribuição e o consumo dos alimentos e de que forma é possível construir um modelo que coloque a saúde, a cultura alimentar e o bem-estar coletivo acima da lógica da acumulação de capital.

Referências:

AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA (ANVISA). Instrução Normativa – IN nº 75, de 8 de outubro de 2020. Estabelece os requisitos técnicos para declaração da rotulagem nutricional nos alimentos embalados. Diário Oficial da União: Brasília, DF, 9 out. 2020. Disponível em: https://www.in.gov.br/en/web/dou/-/instrucao-normativa-in-n-75-de-8-de-outubro-de-2020-282071143. Acesso em: 9 jul. 2026.

AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA (ANVISA). Resolução da Diretoria Colegiada – RDC nº 429, de 8 de outubro de 2020. Dispõe sobre a rotulagem nutricional dos alimentos embalados. Diário Oficial da União: Brasília, DF, 9 out. 2020. Disponível em: https://www.in.gov.br/en/web/dou/-/resolucao-de-diretoria-colegiada-rdc-n-429-de-8-de-outubro-de-2020-282070599. Acesso em: 9 jul. 2026.

ALMEIDA, Mário Tito Barros. A dinâmica eco-geopolítica da fome e as relações de poder na governança global da segurança alimentar: a soberania alimentar como resistência. 2019. Tese (Doutorado em Relações Internacionais) – Instituto de Relações Internacionais, Universidade de Brasília, Brasília, 2019. Disponível em: https://repositorio.unb.br/. Acesso em: 9 jul. 2026.

BRASIL. Ministério da Saúde. Guia alimentar para a população brasileira. 2. ed. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2014. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/guia_alimentar_populacao_brasileira_2ed.pdf. Acesso em: 9 jul. 2026.

GAIA, Manuelle Catunda. Uma revolução à mesa contra o imperialismo: o Estado socialista cubano e a construção da soberania alimentar. 2025. Monografia (Bacharelado em Relações Internacionais) – Universidade da Amazônia, Belém, 2025. Disponível em: https://www.academia.edu/. Acesso em: 9 jul. 2026.

MARX, Karl. O capital: crítica da economia política. Lisboa: Editorial Avante!, 1990. 

MONTEIRO, Carlos A. et al. NOVA. A estrela brilha. World Nutrition, v. 7, n. 1-3, p. 28-38, 2016.