
Marcelo Alves – 8° Semestre
A doutrina Monroe remonta a 1823, quando o presidente James Monroe sinalizou as potências europeias contra a intromissão nos assuntos do Hemisfério Ocidental, mais tarde, Roosevelt ampliou essa política, argumentando que os EUA têm o direito de intervir nos países latino-americanos para impedir o que chamou de “delitos crônicos” e instabilidade (Deutsche, 2026).
Atualmente, houve a ascensão de diversos governos e movimentos de extrema direita na América Latina, a exemplo temos: Javier Milei na Argentina, Keiko Fujimori no Peru, Antonio Kast no Chile, Rafael López Aliaga no Chile, Nayib Bukele em El Salvador e Jair Bolsonaro no Brasil (IHU, 2026). As razões para a maior influência da extrema direita nos últimos anos são variadas, dentre elas destacam-se a insatisfação popular na resolução das problemáticas internas e a influência externa, especificamente dos EUA, sobre as eleições e apoio aos blocos de extrema direita nos países latino americanos.

Fonte: G1. Esquerda x direita: veja como está o mapa da América do Sul após a eleição presidencial na Colômbia. 2026.
O gráfico acima apresenta o mapa após as últimas eleições colombianas, evidenciando um cenário de forte polarização política na América do Sul. Observa-se uma maior presença de governos de direita em países como Argentina, Chile, Equador, Paraguai, Bolívia e Colômbia, enquanto Brasil, Uruguai, Venezuela, Guiana e Suriname permanecem sob administrações de esquerda.
Assim, fica evidente que a extrema direita tem tomado maior relevância nos últimos tempos, disputando e ganhando eleições na região latino americanas de forma crescente, desafiando a ordem administrativa atual e ampliando a captação de eleitores.
Desde a formulação da Doutrina Monroe, no século XIX, Washington passou a considerar o continente latino-americano como uma área estratégica de seus interesses, intensificando sua atuação durante o século XX. Segundo Greg Grandin (2006), a América Latina funcionou historicamente como um espaço de experimentação da política externa norte-americana, no qual os Estados Unidos exerceram influência para preservar sua hegemonia continental. Recentemente, essa influência passou a ocorrer de maneira menos direta, por meio da aproximação com setores conservadores, da circulação de ideias políticas e econômicas e da atuação de organizações internacionais alinhadas a determinadas agendas de direita.
De acordo com Mudde (2020), o avanço da extrema direita global está relacionado à exploração do sentimento de insegurança, insatisfação com as elites políticas tradicionais e rejeição às instituições estabelecidas, fenômenos também observados na América Latina. Neste cenário, a influência dos Estados Unidos relaciona-se com fatores internos, como crises econômicas, aumento da violência e desgaste de governos progressistas, favorecendo o fortalecimento de novas lideranças de direita. Como consequência, a região enfrenta impactos políticos importantes, incluindo maior polarização social, mudanças nas políticas econômicas e externas dos países e alterações no equilíbrio das relações regionais, especialmente no que se refere à integração latino-americana e à relação com Washington (SMITH, 2021).
Para Foucault (1979), o poder atua por meio da construção de discursos capazes de definir aquilo que é considerado verdadeiro, legítimo e aceitável em determinado contexto histórico. No cenário atual, a ascensão de movimentos e governos de direita na América Latina pode ser analisada a partir da disputa pela produção de narrativas políticas que apresentam determinadas agendas, como o liberalismo econômico, o fortalecimento da segurança pública e o conservadorismo social, como respostas naturais às crises enfrentadas pela região.
Ademais, segundo o conceito de governamentalidade, desenvolvido por Foucault (2008), observa-se como formas de governo e estratégias de condução da população são difundidas por instituições, atores políticos e redes de influência, permitindo entender como os Estados Unidos agem na circulação de discursos e modelos políticos que influenciam a reorganização das relações de poder no continente latino-americano.
Portanto, diante das transformações políticas observadas na América Latina, o futuro da região permanece incerto e marcado por disputas em torno dos modelos de governo, das relações internacionais e da própria concepção de democracia. A ascensão de movimentos de direita e extrema direita demonstram que os discursos políticos são constantemente reconstruídos conforme as demandas sociais de cada período histórico.
Assim, as próximas décadas poderão representar um período de intensificação das disputas ideológicas ou de busca por novos caminhos de equilíbrio político regional, deixando o futuro político latino-americano estará relacionado à capacidade dos diferentes atores sociais de construir novas narrativas, fortalecer suas instituições democráticas e redefinir suas relações de poder em um cenário internacional cada vez mais complexo e ameaçador a sua soberania.
Referências:
DEUTSCHE WELLE (DW). O histórico de intervenção dos EUA na América Latina. DW Brasil, 8 jan. 2026. Disponível em: https://www.dw.com/pt-br/o-hist%C3%B3rico-de-interven%C3%A7%C3%A3o-dos-eua-na-am%C3%A9rica-latina/a-75435021. Acesso em: 20 jul. 2026.
FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. Organização e tradução de Roberto Machado. Rio de Janeiro: Graal, 1979.
FOUCAULT, Michel. Segurança, território, população: curso dado no Collège de France (1977-1978). São Paulo: Martins Fontes, 2008.
G1. Esquerda x direita: veja como está o mapa da América do Sul após a eleição presidencial na Colômbia. São Paulo, 22 jun. 2026. Disponível em: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2026/06/22/esquerda-x-direita-veja-mapa-america-do-sul-apos-eleicao-colombia.ghtml. Acesso em: 20 jul. 2026.
GRANDIN, Greg. Empire’s Workshop: Latin America, the United States, and the Rise of the New Imperialism. New York: Metropolitan Books, 2006.
INSTITUTO HUMANITAS UNISINOS (IHU). América Latina em disputa: a nova onda da extrema-direita e os desafios da soberania: Destaques da Semana no IHUCast. São Leopoldo: IHU, 22 jun. 2026. Disponível em: https://www.ihu.unisinos.br/categorias/667425-america-latina-em-disputa-a-nova-onda-da-extrema-direita-e-os-desafios-da-soberania-destaques-da-semana-no-ihucast. Acesso em: 20 jul. 2026.
MUDDE, Cas. A extrema direita hoje. Rio de Janeiro: Eduerj, 2020.
SMITH, Peter H. Talons of the Eagle: Latin America, the United States, and the World. 5. ed. New York: Oxford University Press, 2021.
