
Ícaro Santos Pereira – Acadêmico do 6° semestre de Relações Internacionais da UNAMA.
O desenvolvimento e a massificação das redes sociais e, mais recentemente, das inteligências artificiais representam um ponto nodal na forma como a sociedade e toda a malha do sistema internacional moderno se relacionam, seja com a cultura, a economia, a fé ou a política. Em um ambiente onde bilhões de indivíduos se conectam em instantes através das redes sociais que praticamente em sua totalidade são compostas por grandes empresas cujo único interesse é a manutenção de seu lucro, tal interesse é saciado à medida que a atenção, o número de usuários e o tempo de tela se tornaram as principais commodities dessas corporações. (ZUBOFF; 2021)
Assim se abre espaço para todos os tipos e formas de disputa pelo algoritmo e pela própria percepção da realidade, desde que isso garanta vantagens econômicas. Tal disputa não passou em branco pelos atores do Sistema Internacional, que iniciaram uma contenda pela hegemonia nesse novo palco através de campanhas de desinformação: manipulação de dados, perfis falsos, fake news e deepfakes. (SINGER; BROOKING, 2018).
Esse novo cenário onde Estados e atores reconhecem e utilizam a força das redes sociais e das inteligências artificiais para a guerra informacional através das chamadas psyops (operações psicológicas), com o intuito de aprofundar suas agendas políticas das mais diversas formas. Se aproveitam do fato de que o cérebro humano, sob bombardeio de conteúdos altamente emocionais, ignora a checagem de fatos se o conteúdo produzir fortes emoções ou validar seus vieses políticos prévios, independentemente de sua confiabilidade. (ZUBOFF; 2021)
Um ponto de ruptura nesse cenário foi a aplicação das inteligências artificiais no desenvolvimento de material para essas novas formas de conflito: a criação de mídias, como imagens e vídeos, que geram narrativas polarizadoras e altamente engajantes nos algoritmos de redes. Esses conteúdos passam por grupos automatizados de notícias que cobrem conflitos como a Guerra da Ucrânia, bots que atacam comentários críticos e engajam conteúdos específicos, sites e perfis de notícias falsas em redes e, principalmente, as mais sofisticadas deepfakes, mídias falsas, normalmente produzidas por IA, que simulam com precisão realista a voz, os trejeitos e a fisionomia de lideranças políticas ou figuras de autoridade, ou que fazem uma caricatura de rivais ou eventos políticos. (SINGER; BROOKING, 2018).
Alguns exemplos da utilização das deepfakes dentro do contexto da guerra informacional moderna são os do presidente ucraniano Volodymyr Zelensky, sobre quem foram produzidos vídeos nos quais o chefe de Estado anunciava a capitulação de seu exército para a Rússia. O vídeo foi logo desmentido pelo governo ucraniano, (REUTERS; 2022), mas, em um contexto de guerra de atrito onde a moral dos combatentes é um dos fatores determinantes do conflito, não é difícil imaginar as inúmeras consequências psicológicas e materiais na frente doméstica.
Outro caso ocorreu nas eleições primárias dos Estados Unidos em 2024, onde algo entre 5.000 e 25.000 eleitores do estado de New Hampshire foram instruídos, através de uma ligação telefônica que fabricava a voz do então presidente Joe Biden, a não participarem das eleições primárias do Partido Democrata (EL PAIS; 2024). Trata-se de um cenário onde já se questionava a legitimidade e a lisura da disputa eleitoral ao menos desde 2016, dada a suposta interferência russa na eleição presidencial americana e o escândalo internacional da Cambridge Analytica.
Sob uma análise baseada na obra do filósofo francês Michel Foucault aplicada às Relações Internacionais, pode-se compreender o fenômeno das guerras informacionais e das deepfakes como uma utilização do poder-saber, onde se manufatura o que é a verdade de acordo com a utilidade de determinado ator. (FOUCAULT; 1979) Em um sistema internacional marcado pela fusão das ações cinéticas e da guerra psicológica, a informação moldada por inteligência artificial deixa de ser um mero instrumento de propaganda e passa a atuar como um dispositivo de biopolítica e controle social.
Através dos algoritmos, o poder não busca mais apenas combater o oponente, mas produzir ativamente sujeitos, desejos e factualidades (FOUCAULT; 1979). Assim, as deepfakes e os conteúdos relacionados funcionam como tecnologias políticas que fraturam a soberania da materialidade; quem detém a capacidade técnica de ditar o “regime de verdade” digital passa a governar a própria percepção da realidade, transformando a própria esfera pública civil em mais um teatro de operações.
Referências
EL PAIS: Joe Biden impersonated in deepfake call to disrupt New Hampshire primary. 2024. Disponível em: https://english.elpais.com/usa/2024-01-23/joe-biden-impersonated-in-deepfake-call-to-disrupt-new-hampshire-primary.html
FOUCAULT, Michel. Microfísica do Poder. Organização e tradução de Roberto Machado. Rio de Janeiro: Graal, 1979.
REUTERS: Deepfake footage purports to show Ukrainian president capitulating. 2022. Disponível em:https://www.reuters.com/world/europe/deepfake-footage-purports-show-ukrainian-president-capitulating-2022-03-16/
SINGER, P. W.; BROOKING, Emerson T. LikeWar: the weaponization of social media. Nova York: E. P. Dutton, 2018
ZUBOFF, Shoshana. A Era do Capitalismo de Vigilância: A luta por um futuro humano na nova fronteira do poder. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2021.
