
Caira Queiroz, acadêmica do 8° semestre de Relações Internacionais
A coragem de uma criança que foi capaz de marcar a história da luta pela igualdade racial e pelo acesso universal à educação. Mais do que um nome associado ao movimento pelos direitos civis, Ruby Bridges se tornou um dos principais símbolos da resistência à segregação racial no país e no mundo ao ser a primeira criança negra a frequentar uma escola exclusivamente para estudantes brancos no sul dos Estados Unidos.
Nascida em 1954, em Tylertown, Mississippi, Ruby Bridges era a mais velha de oito filhos. No mesmo ano de seu nascimento, o Supremo Tribunal dos Estados Unidos determinou o fim da segregação racial na educação infantil, que a princípio não foi cumprida em uma série de escolas (Fuks, 2020).
Quando tinha quatro anos, sua família se mudou para Nova Orleans e, dois anos depois, Bridges passou no teste aplicado aos alunos afro-americanos da cidade para determinar quais deles poderiam ingressar na Escola Primária William Frantz, que era exclusiva para brancos. Ao ser selecionada, seu pai não aceitou bem a ideia de ela frequentar uma escola só para brancos, mas sua mãe o convenceu a seguir com a matrícula (Britannica, 2026).
Segundo Dawson, em Womens History (2025), Bridges precisou ser acompanhada por agentes já no primeiro dia de aula, devido aos protestos racistas de pais brancos e autoridades da cidade, o que preocupou sua segurança. A própria Bridges (2024) lembra que a multidão do lado de fora correu atrás dela, invadiu todas as salas de aula e tirou todas as crianças da escola. Com essa confusão, ela teve que passar todo o seu primeiro dia na sala da diretora.
Durante meses, Ruby ainda precisou ser escoltada por agentes federais para chegar à escola em segurança. Muitos pais retiraram seus filhos das salas de aula, enquanto professores se recusaram a lecionar para ela. Apenas a professora Barbara Henry aceitou acompanhá-la, ministrando aulas individualmente durante quase todo o primeiro ano letivo (Dawson, 2025).
Essa situação também impactou a família de Ruby, que por sua vez sofreu muitas represálias. Seu pai perdeu o emprego no posto de gasolina, donos do mercado onde habitualmente faziam suas compras, diziam para não voltarem mais à loja. Até seus avós, que viviam no Mississipi, foram expulsos das terras onde trabalhavam há 25 anos porque a neta ousou frequentar uma escola de brancos. Devido às circunstâncias, seus pais chegaram a se divorciar também (Domingues, 2025).
A pequena Ruby seguia firme, dia após dia. Em “Through My Eyes” (1990), sua autobiografia, ela relata que lembra dos gritos e dos objetos que a multidão arremessava, mas não entendia que as manifestações eram contra ela. No entanto, o que mais a assustou foi ver uma boneca vestida de preto dentro de um caixão funerário, onde uma das mulheres do grupo a ameaçou de envenenamento.
Ela só compreendeu o contexto da situação que vivia (o racismo) quando um coleguinha falou que não tinha permissão de brincar com ela porque a mãe o tinha proibido, devido à sua cor. Segundo Ruby, foi uma experiência reveladora que lhe deu bases para o trabalho que desenvolveria mais tarde (Dawson, 2025).
Já durante o segundo ano letivo, as circunstâncias mudaram devido a inserção de outros alunos afro-americanos na turma, ela já não era mais a única. Também não havia mais agentes federais, ela mesma ia para a escola sozinha todos os dias, pois já não havia mais protestos, ninguém mais falava sobre e já aceitavam mais a integração (Domingues, 2025).
Apesar das dificuldades, Ruby concluiu sua formação. Finalizou o ensino fundamental e se formou na escola integrada Francis T. Nicholls High School, em Nova Orleans. Estudou Turismo na Escola de Negócios de Kansas City e trabalhou para a American Express como agente de viagens internacional. Mais tarde tornou-se ativista pelos direitos civis e passou a dedicar sua vida à promoção da igualdade racial por meio da Ruby Bridges Foundation (Brides, S.D.).
O impacto da coragem de Ruby ficou eternizado em várias obras em homenagem ao seu marco. Uma das mais impactantes é a obra “O Problema com o Qual Todos Vivemos”, criada pelo artista Norman Rockwell em 1963, apenas três anos depois de Bridges ter feito história. Atualmente, há uma estátua dela no pátio da William Frantz Public School, colocada em 2014 para eternizar a sua importância tanto na instituição como também, de modo geral, na sociedade norte-americana (Fucks, 2020).
Ela também recebeu vários títulos honorários do Connecticut College em 1995 e da Universidade de Tulane em 2012; em 2000, foi nomeada Delegada Honorária dos EUA; dez anos depois foi homenageada na Casa Branca e em 2024, ela também foi incluída no Hall da Fama Nacional das Mulheres (Dawson, 2025).
Nesse sentido, a trajetória de Ruby Bridges pode ser analisada a partir das contribuições de Homi K. Bhabha, especialmente dos conceitos apresentados em “O Local da Cultura” (1998). Para o autor, as relações de poder estabelecidas pelo colonialismo não desaparecem com o fim da dominação formal, permanecendo presentes por meio de práticas sociais, culturais e institucionais que produzem exclusão e definem quem pertence ou não a determinados espaços.
Um dos principais conceitos de Bhabha é o Terceiro Espaço, entendido como um ambiente de negociação em que identidades e estruturas sociais deixam de ser fixas e passam a ser constantemente reconstruídas (Alves, 2021). A chegada de Ruby Bridges à William Frantz Elementary School representa precisamente esse espaço de ruptura. Sua presença desafiou a lógica da segregação racial e transformou uma instituição historicamente reservada à população branca em um ambiente de disputa, negociação, mas principalmente de mudança.
Ao ocupar esse espaço, Ruby não apenas reivindicou seu direito à educação, mas também desestabilizou a ideia de que identidades raciais determinam quem pode ou não ocupar determinados lugares na sociedade. Para Bhabha (Alves, 2021), é justamente nestes momentos de tensão que surgem novas possibilidades de convivência e transformação social, capazes de enfraquecer discursos que sustentam relações de dominação.
Dessa forma, a resistência de Ruby Bridges não se manifestou apenas como um ato individual de coragem, mas como um processo simbólico de contestação das estruturas que legitimavam a exclusão racial. Sua permanência (e persistência) na escola foi um exemplo de como ações podem produzir profundas mudanças nas relações de poder e contribuir para a construção de novas formas de pertencimento.
Portanto, mais do que um símbolo da resistência ao racismo, a coragem daquela criança de seis anos foi inestimável. Ruby Bridges (Bridges, s.d.) desafiou uma cidade marcada pelo racismo com a inocência da infância, pois como ela mesma bem pontua: “O racismo é uma doença de adultos e devemos parar de usar nossas crianças para propagá-lo”.
REFERÊNCIAS
ALVES, Leonardo Marcondes. Homi K. Bhabha: hibridismo e ambivalência. Ensaios e Notas, 2021. Disponível em: https://ensaiosenotas.com/2021/06/14/homi-k-bhabha-hibridismo-e-ambivalencia/. Acesso em 25 jul. 2026.
BHABHA, Homi K. O local da cultura. Tradução de Myriam Ávila, Eliana Lourenço de Lima Reis e Gláucia Renate Gonçalves. Belo Horizonte: Editora UFMG, 1998.
BRIDGES, Ruby. Through my Eyes. Nova York: Scholastic, 1999.
BRITANNICA. Ruby Bridges. Britannica, 2026. Disponível em https://www.britannica.com/biography/Ruby-Bridges.
DAWSON, Shay. Ruby Bridges. Womens History, 2025. Disponível em https://www.womenshistory.org/education-resources/biographies/ruby-bridges.
DOMINGUES, Joelza Ester. Ruby Bridges, uma menina negra contra uma cidade racista. Ensinar História – Joelza Ester Domingues. Disponível em https://ensinarhistoria.com.br/ruby-bridges-uma-menina-negra-contra-uma-cidade-racista/
FUKS, Rebeca. Ruby Bridges. Biografia, 2020. Disponível em https://www.ebiografia.com/ruby_bridges/. Acesso em 24 de jul. de 2026.
RUBY BRIDGES. Meet Ruby. Disponível em https://www.rubybridges.com/
The Late Show with Stephen Colbert. “Ruby Bridges: Racism Is a Grown-up Disease. Let’s Stop Using Our Kids to Spread It.” YouTube, January 23, 2024. https://www.youtube.com/watch?v=GW7tbMF1Wto.
