
Julia Castro, Internacionalista formada pela UNAMA.
Ficha Técnica:
Ano: 1927
Criador: Fritz Lang
Distribuição: Parufamet
Gênero: Ficção Científica
País de Origem: Alemanha
Considerado um dos marcos do cinema expressionista alemão e uma das obras mais emblemáticas da ficção científica, Metropolis se passa em uma sociedade futurista, estritamente dividida entre uma elite privilegiada e uma grande quantidade de trabalhadores oprimidos (Adorocinema, 2026). Produzido durante a República de Weimar, o longa-metragem constrói uma poderosa crítica sobre capitalismo, industrialização e desigualdade social.
Ambientada no ano de 2026, a trama se passa em uma sociedade futurista fortemente industrializada, na qual a cidade de Metropolis é caracterizada por uma grande disparidade social. Enquanto a elite desfruta de conforto na superfície, os operários permanecem no subsolo. Neste cenário, Freder, filho do gestor Joh Fredersen, usufrui de uma vida privilegiada até conhecer Maria, uma jovem que defende a aproximação entre as diferentes classes sociais (Trevisan, 2020).
Ao se conscientizar da condição dos trabalhadores, Freder começa a questionar a estrutura social que sustenta Metrópolis e as relações de poder que organizam a cidade. Ao mesmo tempo, o cientista Rotwang cria um robô com a imagem de Maria, que incita os operários a começarem uma revolução armada. Conforme os interesses políticos e os avanços científicos se entrelaçam, as tensões entre a elite e os trabalhadores aumentam (Trevisan, 2020)
O longa-metragem dialoga diretamente com temas essenciais do marxismo e das Relações Internacionais contemporâneas (RI), destacando a luta de classes como um elemento fundamental na estrutura das relações sociais e políticas. Karl Marx e Friedrich Engels (2010) defendem que a história é movida pela luta de classes, e esta dinâmica se manifesta de maneira clara no conflito entre os detentores dos meios de produção e os trabalhadores (Sarfati, 2005).
A Teoria do Sistema-Mundo, proposta por Immanuel Wallerstein em The Modern World-System (1974), entende o sistema internacional como uma organização hierárquica composta por centro, semi-periferia e periferia. Neste arranjo, os Estados centrais se dedicam à produção de bens de alto valor agregado, ao passo que os periféricos ficam encarregados de produzir matérias-primas e produtos de baixo valor (Sarfati, 2005).
Embora o filme retrate apenas uma cidade, a organização da mesma reproduz a lógica entre centro e periferia. A elite ocupa a posição do centro, concentrando inovação e poder político, enquanto os operários representam a periferia, responsável por fornecer a força de trabalho indispensável ao funcionamento do sistema. Portanto, o desenvolvimento de uma parcela da sociedade depende diretamente da exploração estrutural da outra.
Karl Marx, em O Capital (2013), afirma que o avanço das forças produtivas no capitalismo tende a aumentar a extração de mais-valia e a submissão do trabalhador ao capital. No filme, a tecnologia não é apenas um símbolo de inovação, mas também um instrumento de dominação. As máquinas representam esse processo ao converter os trabalhadores em simples extensões do sistema de produção.
A criação do androide Maria também ilustra como a tecnologia pode ser empregada para influenciar a consciência coletiva. O robô redireciona o descontentamento da classe trabalhadora para uma rebelião desordenada, beneficiando os interesses da elite. Essa tática remete ao conceito marxista de que a classe dominante emprega diversos mecanismos para preservar seu poder e evitar que os trabalhadores adquiram uma consciência de classe que possa alterar as estruturas de exploração (Marx & Engels, 2010).
Lançado há quase um século, Metropolis permanece atemporal. Apesar de o desfecho sugerir uma reconciliação entre capital e trabalho por meio do diálogo, a perspectiva marxista possibilita a reflexão sobre essa solução, pois ela não modifica os fundamentos estruturais da exploração econômica. Em suma, a cidade futurista concebida nos anos dourados, ainda espelha as contradições do capitalismo atual e da economia política global.
REFERÊNCIAS:
ADOROCINEMA. Metrópolis. Disponível em: <https://www.adorocinema.com/filmes/filme-240/>. Acesso em: 26 jul. 2026.
TREVISAN, Juliana. Metrópolis, de Thea von Harbou: o sci-fi mais influente de todos os tempos. Delirium Nerd, 18 fev. 2020. Disponível em: <https://deliriumnerd.com/2020/02/18/metropolis-sci-fi-thea-von-harbou-ritz-lang-livro-filme/>. Acesso em: 26 jul. 2026.
MARX, Karl e ENGELS, Friederich. Manifesto Comunista. São Paulo: Boitempo, 2010.
MARX, Karl. O Capital: crítica da economia política. Livro I. São Paulo: Boitempo, 2013.
SARFATI, Gilberto. Teorias de Relações Internacionais. São Paulo: Saraiva, 2005.
