Foto: Reprodução/TV BRICS

Ana Beatriz Moreira Pinheiro – acadêmica do 6º semestre de Relações Internacionais da UNAMA

O audiovisual se consolidou ao longo dos anos como produção de discurso histórico, expressando cultura e política na sociedade. Para além do entretenimento, o cinema auxilia a evidenciar o questionamento acerca das estruturas sociais vigentes, uma vez que, ao transformar as experiências individuais e coletivas em narrativas, ele participa de forma ativa nos diferentes acontecimentos impostos à sociedade, tornando-se, assim, um espaço para disputa por representação. 

Nesse sentido, compreender o audiovisual apenas como manifestação artística significa limitar seu potencial enquanto instrumento de transformação social. Como afirma Marcos Napolitano (2010), doutor em História e professor da Universidade de São Paulo, o cinema pode ser analisado simultaneamente como a) fonte histórica, b) produtor de discursos sobre o passado e c) objeto de investigação acerca das condições sociais que envolvem sua produção e recepção. Da mesma forma, Marc Ferro, prestigiado historiador francês, compreende a produção cinematográfica como um produto social capaz de revelar valores e conflitos presentes em determinado contexto histórico (AMÉRICO; VILLELA, 2013). 

Sob essa perspectiva, o cinema pode desempenhar um papel de resistência social. Ao dar visibilidade a grupos historicamente marginalizados e questionar discursos dominantes, determinadas produções cinematográficas passam a confrontar estruturas que naturalizam desigualdades. No Brasil, por exemplo,  esse processo encontra uma de suas principais expressões no movimento do Cinema Novo, que utilizou a linguagem cinematográfica como instrumento de denúncia das desigualdades econômicas, políticas e sociais presentes no país durante as décadas de 1960 e 1970 (AIC, 2023).

À luz do pensamento do sociólogo brasileiro Jessé Souza, a compreensão do discurso fílmico pode ser ampliada. Em A ralé brasileira (2009), o autor argumenta que a desigualdade no Brasil não decorre exclusivamente da distribuição de renda, mas da construção histórica de mecanismos simbólicos que produzem reconhecimento para determinados grupos sociais enquanto condenam outros à invisibilidade. Desse modo, a exclusão deixa de ser percebida como consequência de processos históricos e passa a ser interpretada como resultado do mérito ou da incapacidade individual. Nesse processo, o chamado habitus contribui para naturalizar posições sociais distintas, fazendo com que privilégios e exclusões sejam percebidos como consequências legítimas das capacidades individuais, quando, na realidade, refletem estruturas históricas profundamente enraizadas na sociedade brasileira.

É nesse contexto que Jessé apresenta o conceito de “ralé estrutural”, grupo formado por indivíduos historicamente privados do acesso aos capitais necessários para o reconhecimento social. A exclusão representa um processo contínuo de desumanização e invisibilização, no qual determinados sujeitos deixam de ser percebidos como protagonistas da vida social.

Entre as diversas manifestações cinematográficas que utilizam o audiovisual como forma de resistência social, o Cinema Novo ocupa posição de destaque na história brasileira. Surgido na década de 1960, o movimento rompeu com os modelos tradicionais de produção cinematográfica ao direcionar seu olhar para a realidade social do país, evidenciando problemas como concentração fundiária e a exclusão das camadas populares. 

Em oposição à imagem idealizada do Brasil frequentemente difundida pelo cinema comercial, principalmente pelo início da ditadura militar, os cineastas do movimento buscaram retratar as contradições de uma sociedade profundamente marcada pela desigualdade. Como destaca Katia Kreutz (2023), o Cinema Novo defendia a ideia de que a realidade brasileira deveria ser representada a partir de suas próprias experiências sociais, valorizando narrativas que evidenciassem os conflitos históricos vividos pela população.

Nesse cenário, Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964), dirigido por Glauber Rocha, constitui uma das principais expressões desse projeto político e estético. Ao acompanhar a trajetória de Manuel e Rosa pelo sertão nordestino, o filme demonstra a maneira como a exclusão social condiciona e perpetua ciclos de violência. A miséria retratada por Glauber Rocha é consequência daqueles que mantêm a exclusão e deixam os indivíduos à margem da sociedade.

Essa representação dialoga diretamente com a teoria desenvolvida por Jessé Souza. Ao afirmar que a desigualdade brasileira é produzida e constantemente reproduzida por mecanismos simbólicos que naturalizam a exclusão de determinados grupos sociais, o autor demonstra que a chamada “ralé estrutural” não ocupa essa posição por falta de mérito, mas porque foi historicamente privada do acesso aos capitais necessários ao reconhecimento social. Desse modo, o longa-metragem rompe com interpretações individualizantes da pobreza, aproximando-se da compreensão proposta por Jessé.

Ao longo da história, o cinema consolidou-se como um importante espaço de produção de memória e de testemunho de seu próprio tempo. Sua linguagem possui a capacidade de construir interpretações sobre a realidade, influenciando a forma como diferentes grupos são reconhecidos e representados. 

Compreendê-lo como um instrumento de resistência resulta em reconhecer seu potencial para questionar estruturas de poder e dar visibilidade a sujeitos historicamente marginalizados. Essa função, contudo, não se restringe ao contexto brasileiro. No decorrer de sua trajetória, diferentes movimentos cinematográficos ao redor do mundo recorreram à linguagem audiovisual para preservar memórias coletivas, reafirmando o cinema como uma importante ferramenta de resistência.

Referências Bibliográficas:

AMÉRICO, Guilherme de Almeida; VILLELA, Lucas Braga Rangel. Circuito comunicacional: o cinema na perspectiva da história social. Revista de Teoria da História, Goiânia, ano 5, n. 10, dez. 2013.

FERRO, Marc. Crítica das Atualidades cinematográficas, “História Paralela”. IN.: ___ Cinema e História. São Paulo: Paz e Terra, 2010.

KREUTZ, Katia. Cinema Novo: um movimento de ruptura no cinema brasileiro. AIC – Academia Internacional de Cinema, 2023.  

NAPOLITANO, Marcos. A história depois do papel. In: PINSKY, Carla Bassanezi (org.). Fontes históricas. São Paulo: Contexto, 2010.

SOUZA, Jessé. A ralé brasileira: quem é e como vive. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2009.