
Alciane Carvalho Dias – Internacionalista
A política, em seu horizonte mais nobre, é o exercício de moldar e gerir a vida comum. No entanto, o que a história e a práxis institucional nos revelam é uma estrutura milimetricamente desenhada para converter a esfera de poder em um domínio exclusivo dos homens. A aparente falta de interesse ou o afastamento das mulheres em relação à política tradicional não é uma condição biológica, uma apatia natural ou um descompromisso com o bem coletivo. Trata-se do resultado direto de um projeto sistêmico que tornou o ecossistema político hostil, excessivamente agressivo e deliberadamente distante das realidades concretas vivenciadas no cotidiano feminino (TICKNER, 1992; PETERSON; RUNYAN, 2010).
Para desvelar as engrenagens que sustentam essa exclusão, a teoria Realista oferece chaves analíticas indispensáveis. O Realismo, dominante nas formulações do Estado moderno, consolidou-se ao naturalizar o poder como sinônimo de dominação, soberania absoluta e competição de soma zero (TICKNER, 1992). Como demonstra a teórica feminista J. Ann Tickner (1992), essa visão não é uma leitura neutra do mundo, mas sim a projeção da figura do “homem público” — um sujeito conceitualmente autônomo, desvinculado das tarefas do cuidado doméstico e voltado à projeção de força.
Ao institucionalizar o exercício do poder como um campo de batalha predatório, o sistema político desvalorizou o conjunto de práticas e valores historicamente associados ao universo feminino. Autoras da Teoria Feminista, como V. Spike Peterson e Anne Sisson Runyan (2010), apontam como a “divisão sexual do trabalho político” empurrou a ética do cuidado, a diplomacia colaborativa e a mediação de conflitos para a marginalidade da esfera privada. A governança estatal passou, então, a exigir dos seus atores a reprodução de comportamentos hipermasculinizados, transformando o parlamento em um espaço onde a sensibilidade e as demandas transversais das mulheres são tratadas como irrelevantes (PETERSON; RUNYAN, 2010).
Esse modelo de exclusão não é obra do acaso; possui raízes históricas e jurídicas profundas. O Código Napoleônico de 1804 consagrou formalmente a incapacidade civil da mulher e sua estrita submissão ao marido, erguendo um muro legal que a proibia do espaço público (HABERMAS, 1989). Mais tarde, a constituição da “esfera pública burguesa”, anatomizada por Jürgen Habermas (1989), expôs a contradição fundamental da democracia liberal: o florescimento do debate político e intelectual dos homens foi viabilizado justamente pelo silenciamento e pelo trabalho invisível das mulheres no lar, que lhes proviam o suporte necessário para o exercício da vida pública (HABERMAS, 1989; PETERSON; RUNYAN, 2010).
A posterior conquista do sufrágio feminino ao longo do século XX — documentada historicamente na França (1944) e no Brasil (1932) —, embora histórica, não foi suficiente para desmantelar esse “clube privado” masculino (AGÊNCIA CÂMARA DE NOTÍCIAS, 2021). Os partidos políticos, os ritos legislativos, a linguagem hermética e os horários de trabalho continuaram a ser desenhados por e para homens (FALUDI, 1991). Assim, o afastamento feminino da política institucional revela-se como uma atitude racional e intuitiva diante de uma engrenagem que ignora sistematicamente a economia do cuidado, a maternidade e a sobrecarga da dupla jornada (PETERSON; RUNYAN, 2010).
Na contemporaneidade, esse cenário excludente ganha contornos ainda mais dramáticos com a emergência de uma potente onda neoconservadora global. Esse movimento pode ser interpretado sob a lente do backlash — a reação patriarcal teorizada por Susan Faludi (1991) e reexaminada por autoras como Wendy Brown (2019). O backlash ocorre quando o avanço nos direitos e na emancipação feminina passa a ser percebido pelas elites e por setores tradicionais como uma ameaça à ordem estabelecida, desencadeando uma contraofensiva organizada para reativar as velhas hierarquias de gênero (FALUDI, 1991; BROWN, 2019).
Nesse novo capítulo, a Internet e as redes sociais desempenham o papel de catalisadores do retrocesso. As plataformas digitais — cujos algoritmos são desenhados para priorizar o engajamento através da indignação, do medo e da polarização — tornaram-se o solo fértil para a proliferação de ecossistemas extremistas (BROWN, 2019; SANTANA, 2026). É nesses nichos virtuais que discursos radicais ganham fôlego ao propor abertamente a revogação do direito ao voto feminino.
Reportagens de veículos internacionais de imprensa revelam como a cultura de podcasts, fóruns ultraconservadores e perfis da “machosfera” impulsionam ativamente campanhas pelo fim do sufrágio feminino. Como registrado pela imprensa global e análises políticas, figuras do ecossistema reacionário e líderes religiosos fundamentalistas passam a defender abertamente a tese do “one family, one vote” (um voto por família, decidido exclusivamente pelo homem da casa) ou o fim da 19ª Emenda dos Estados Unidos, sob o argumento de que o voto das mulheres “feminilizou a política” ou “desestabilizou a estrutura familiar tradicional” (G1, 2026; SANTANA, 2026).
A facilidade de difusão na era digital converteu teses obscurantistas em conteúdos consumidos por milhões, legitimando episódios de misoginia política também no contexto brasileiro (SANTANA, 2026).
Em virtude desse ecossistema, a política não apenas se mantém árida pelo seu histórico de barreiras, mas transforma-se em uma arena ostensivamente hostil à presença da mulher enquanto sujeito pleno de direitos. A tentativa de deslegitimar a cidadania feminina revela o verdadeiro temor do patriarcado: o de que a presença real e massiva das mulheres na liderança do Estado desmonte a política entendida como jogo de dominação, substituindo-a por uma práxis voltada à justiça social e ao bem-estar coletivo (TICKNER, 1992; PETERSON; RUNYAN, 2010).
Diante da gravidade desse quadro, é inevitável questionar: Qual é o papel da educação crítica e da regulação das mídias digitais no combate a essa narrativa reacionária que tenta deslegitimar os direitos políticos das mulheres?
A resposta reside na compreensão de que as redes virtuais e as salas de aula tornaram-se as novas fronteiras decisivas para a defesa da democracia.
Conclui-se, portanto, que a inclusão das mulheres no centro da decisão política não será alcançada exigindo que elas se moldem às regras de um jogo viciado. É urgente refundar as bases do próprio poder público. Conforme ensina a Teoria Feminista das RI, desmantelar a lógica militarizada, fria e predatória da governança e combater o autoritarismo digital é a única via possível para construir uma esfera pública inclusiva, onde a diversidade de vivências e o compromisso com a vida sejam o vetor de toda ação estatal (TICKNER, 1992; PETERSON; RUNYAN, 2010; BROWN, 2019).
Referências:
AGÊNCIA CÂMARA DE NOTÍCIAS. A conquista do voto feminino. Brasília: Câmara dos Deputados, 15 fev. 2021. Disponível em: https://www.camara.leg.br/internet/agencia/infograficos-html5/a-conquista-do-voto-feminino/index.html. Acesso em: 02 ago. 2026.
BROWN, Wendy. In the ruins of neoliberalism: the rise of antidemocratic politics in the West. New York: Columbia University Press, 2019.
FALUDI, Susan. Backlash: the undeclared war against American women. New York: Crown Publishers, 1991.
G1. A campanha contra o voto feminino nos EUA: movimento impulsionado por influenciadores e líderes religiosos ganha espaço no debate conservador. G1 Mundo, Rio de Janeiro, 25 abr. 2026. Disponível em: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2026/04/25/a-campanha-contra-o-voto-feminino-nos-eua.ghtml. Acesso em: 02 ago. 2026.
HABERMAS, Jürgen. Mudança estrutural da esfera pública: investigações sobre uma categoria da sociedade burguesa. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1989.
PETERSON, V. Spike; RUNYAN, Anne Sisson. Global gender issues in the new millennium. 4. ed. Boulder: Westview Press, 2010.
SANTANA, Eliara. Visão da extrema direita sobre mulher e voto está conectada, no Brasil e no mundo. Portal PT, Brasília, 03 jul. 2026. Disponível em: https://pt.org.br/visao-da-extrema-direita-sobre-mulher-e-voto-esta-conectada-no-brasil-e-no-mundo/. Acesso em: 02 ago. 2026.
TICKNER, J. Ann. Gender in international relations: feminist perspectives on achieving global security. New York: Columbia University Press, 1992.
