Lucas Cardoso – Acadêmico do 8° semestre de Relações Internacionais da UNAMA.

As guerras por procuração (proxy wars) consolidaram-se como uma das principais formas de disputa entre grandes potências no século XXI. Em vez de confrontos militares diretos, Estados influentes financiam, treinam ou apoiam governos, grupos armados e aliados regionais para defender interesses estratégicos. Este modelo reduz os custos políticos e militares de uma guerra convencional, ao mesmo tempo em que amplia a capacidade de projeção de poder. Segundo Mumford (2013), as guerras por procuração representam uma adaptação das disputas internacionais ao ambiente multipolar e às restrições impostas pelo direito internacional.

O fim da Guerra Fria não eliminou esse tipo de conflito, mas modificou sua dinâmica. Se antes as disputas por procuração eram marcadas pela rivalidade entre Estados Unidos e União Soviética, atualmente elas envolvem diferentes potências, como Estados Unidos, Rússia, China, Irã e Turquia. Conforme Nye (2011), as potências contemporâneas utilizam uma combinação de poder militar, econômico e diplomático para ampliar sua influência sem recorrer diretamente à guerra aberta, transformando conflitos locais em arenas de competição geopolítica global.

A guerra civil na Síria constitui um dos exemplos mais evidentes desse fenômeno. Desde 2011, diferentes atores externos passaram a apoiar lados opostos do conflito, transformando uma disputa doméstica em uma guerra internacionalizada. A Rússia forneceu apoio militar ao governo de Bashar al-Assad, enquanto Estados Unidos, Turquia e alguns países do Golfo apoiaram diferentes grupos opositores. Segundo Gause III (2019), esta multiplicidade de intervenções prolongou o conflito e dificultou soluções diplomáticas duradouras, tornando a Síria um dos principais exemplos contemporâneos de guerra por procuração.

Outro caso relevante encontra-se no Iêmen, onde a rivalidade regional entre Arábia Saudita e Irã adquiriu características de guerra por procuração. A coalizão liderada pelos sauditas apoia o governo reconhecido internacionalmente, enquanto o Irã fornece apoio político e militar aos rebeldes Houthis. Embora exista debate sobre o grau deste apoio, Juneau (2016) argumenta que a atuação indireta das potências regionais contribuiu para prolongar o conflito e aprofundar a crise humanitária, ampliando a instabilidade no Oriente Médio.

A guerra na Ucrânia apresenta uma configuração distinta dos casos anteriores. Diferentemente da Síria e do Iêmen, onde as potências externas atuam por meio de atores locais interpostos, o conflito ucraniano é, na sua origem, uma guerra convencional entre Estados, deflagrada pela invasão russa (FREEDMAN, 2022).

O elemento de “procuração” aparece de forma indireta: países da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), especialmente Estados Unidos e aliados europeus, fornecem armamentos, inteligência e assistência financeira ao governo ucraniano, evitando o envio de tropas para enfrentar diretamente as forças russas. Freedman (2022) afirma que essa estratégia busca fortalecer a capacidade militar ucraniana sem provocar um confronto direto entre potências nucleares. Trata-se, portanto, de um caso híbrido: uma guerra interestatal direta sustentada, do lado ucraniano, por uma lógica de apoio por procuração.

Além do apoio militar, as guerras por procuração do século XXI incorporam instrumentos econômicos, tecnológicos e informacionais. Sanções econômicas, operações cibernéticas, campanhas de desinformação e fornecimento de tecnologia militar passaram a integrar o repertório das grandes potências. Para Rid (2020), a guerra contemporânea expandiu-se para o ambiente digital, tornando a competição internacional permanente mesmo na ausência de confrontos militares convencionais.

Sob a perspectiva do Realismo, as guerras por procuração refletem a busca constante dos Estados por segurança e equilíbrio de poder. De acordo com Mearsheimer (2001), grandes potências procuram impedir a ascensão de rivais por meio da expansão de sua influência estratégica e da contenção indireta de adversários. Desta forma, apoiar aliados regionais representa uma estratégia racional para preservar posições de poder no sistema internacional.

Uma leitura crítica, no entanto, chama atenção para outro aspecto: as guerras por procuração não apenas expressam cálculos de poder entre Estados, mas também reproduzem hierarquias globais, nas quais territórios e populações periféricas tornam-se palco de disputas cujos custos são definidos por atores externos, um processo que dialoga com a ideia gramsciana de hegemonia como naturalização dos interesses de grupos dominantes no sistema internacional (COX, 1981).

Entretanto, os impactos dessas guerras recaem principalmente sobre as populações locais. Conflitos prolongados provocam deslocamentos forçados, destruição de infraestrutura, crises alimentares e graves violações dos direitos humanos. Dados do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR, 2024) demonstram que milhões de pessoas foram deslocadas por conflitos como os da Síria, Ucrânia e Iêmen, revelando os elevados custos humanos das disputas entre potências.

Conclui-se que as guerras por procuração permanecem como um dos principais mecanismos de competição entre grandes potências no século XXI. A combinação entre apoio indireto, tecnologias militares, instrumentos econômicos e influência política permite que Estados disputem poder sem enfrentamentos diretos. Contudo, esta estratégia tende a prolongar conflitos regionais e ampliar seus impactos humanitários, reforçando a necessidade de mecanismos multilaterais capazes de reduzir a escalada dessas disputas.

Referências:

ACNUR. Global Trends: Forced Displacement. Genebra: UNHCR, 2024.

COX, Robert W. Social Forces, States and World Orders: Beyond International Relations Theory. Millennium: Journal of International Studies, v. 10, n. 2, p. 126-155, 1981.

FREEDMAN, Lawrence. Command: The Politics of Military Operations from Korea to Ukraine. London: Allen Lane, 2022.

GAUSE III, F. Gregory. The International Relations of the Persian Gulf. Cambridge: Cambridge University Press, 2019.

JUNEAU, Thomas. Iran’s policy towards the Houthis in Yemen: a limited return on a modest investment. International Affairs, v. 92, n. 3, p. 647–663, 2016.

MEARSHEIMER, John J. The Tragedy of Great Power Politics. New York: W. W. Norton, 2001.

MUMFORD, Andrew. Proxy Warfare. Cambridge: Polity Press, 2013.

NYE, Joseph S. The Future of Power. New York: PublicAffairs, 2011.

RID, Thomas. Active Measures: The Secret History of Disinformation and Political Warfare. New York: Farrar, Straus and Giroux, 2020.