
Izabelle Gama (acadêmica do 4° semestre de Relações Internacionais da UNAMA)
Woodrow Wilson foi o 28º presidente dos Estados Unidos, governando entre 1913 e 1921, e sua atuação marcou uma transformação importante na política externa norte-americana, especialmente por seu discurso acerca da defesa da cooperação entre os Estados, da diplomacia aberta e da construção de mecanismos coletivos de segurança. Essas ideias aparecem de maneira evidente em seu projeto de reorganização das relações internacionais após a Primeira Guerra Mundial.
Seu pensamento é associado ao idealismo clássico das Relações Internacionais, uma vertente que acredita na possibilidade de transformar a política internacional por meio da moral e da cooperação entre os Estados. Diferente do realismo, que enfatiza a competição e o conflito como natureza inerente das relações entre nações, o idealismo defende que instituições internacionais e normas compartilhadas podem moderar o comportamento dos Estados e construir uma ordem mundial mais pacífica e justa.
O discurso analisado foi apresentado ao Congresso dos Estados Unidos em 8 de janeiro de 1918, quando a Primeira Guerra Mundial ainda estava em curso e as negociações de paz de Brest-Litovsk entre a Rússia e as Potências Centrais estavam em andamento. Nesse contexto, Wilson buscava apresentar publicamente os princípios que deveriam orientar o fim do conflito e a construção da paz, ao mesmo tempo em que procurava diferenciar a proposta norte-americana das ambições territoriais atribuídas às Potências Centrais (WILSON, 1918). O pronunciamento, portanto, não era apenas uma declaração de intenções, mas também uma tentativa de influenciar o debate sobre os termos da futura paz.
O discurso começa justamente com a situação de Brest-Litovsk e com uma crítica à falta de clareza das Potências Centrais sobre seus objetivos. Wilson questiona em nome de quem seus representantes negociavam e contrapõe a eles a postura russa, apresentada como mais aberta e comprometida com princípios.
A partir disso, o presidente constrói uma oposição entre duas formas de conduzir as relações internacionais. Uma sendo a conquista, a dominação e os acordos secretos, e a outra a transparência, a justiça e a negociação pública. Assim, antes mesmo de apresentar seus pontos, Wilson estabelece a ideia de que a paz deveria depender não apenas do fim dos combates, mas também da transformação das regras que orientavam a política internacional WILSON, 1918).
Essa concepção aparece de forma especialmente clara quando Wilson afirma que “o dia da conquista e do engrandecimento territorial passou” (WILSON, 1918). A frase sintetiza uma das principais críticas do discurso ao sistema internacional anterior à guerra, marcado pela competição entre grandes potências, pela expansão territorial e pela utilização de alianças e acordos reservados.
Em oposição a esse modelo, Wilson defende uma ordem na qual os Estados possam viver com maior segurança e igualdade, apresentando a paz não simplesmente como ausência de guerra, mas como resultado de regras internacionais capazes de limitar a força e a agressão.
Os cinco primeiros pontos desenvolvem justamente princípios gerais para essa nova ordem. Wilson propõe que os acordos internacionais sejam públicos, defende a liberdade de navegação, a redução das barreiras econômicas, a diminuição dos armamentos e um tratamento imparcial das disputas coloniais. Em conjunto, essas propostas procuram diminuir fatores que alimentavam a rivalidade entre as potências e substituir práticas de competição por mecanismos de cooperação. A diplomacia aberta e a redução dos armamentos, nesse sentido, aparecem como instrumentos para tornar a paz mais previsível e duradoura (UNITED STATES, [s.d.].
Nesse sentido, a defesa da abertura econômica e da redução das barreiras comerciais também pode ser interpretada para além da busca por uma paz estável. Ao propor regras que favoreciam maior circulação econômica entre os Estados, Wilson apresentava uma ordem compatível com a posição de uma potência norte-americana em expansão, cujos interesses comerciais ultrapassavam suas fronteiras.
Assim, o liberalismo defendido no discurso não eliminava a dimensão estratégica da política externa dos Estados Unidos, a construção de uma economia internacional mais aberta também ampliava as possibilidades de projeção de seu poder.
Do sexto ao décimo terceiro ponto, o discurso passa dos princípios gerais para a reorganização territorial provocada pela guerra. Wilson aborda a Rússia, a Bélgica, a França, a Itália, a Áustria-Hungria, os Bálcãs, o Império Otomano e a Polônia, defendendo evacuações, restaurações territoriais e diferentes formas de autonomia ou reorganização política. O elemento comum é a tentativa de vincular a definição das fronteiras às populações e às nacionalidades, em vez de tratá-las apenas como objetos de negociação entre grandes potências. A autodeterminação aparece, portanto, como uma alternativa à lógica tradicional de distribuição territorial baseada exclusivamente no poder dos Estados.( UNITED STATES, [s.d.]).
Entretanto, essa proposta apresenta uma contradição importante. Embora Wilson utilize uma linguagem de liberdade, igualdade e autonomia dos povos, seu princípio de autodeterminação não é aplicado de maneira universal e simples, sobretudo quando se considera a permanência dos impérios coloniais.
O próprio quinto ponto fala em considerar os interesses das populações coloniais, mas não determina que essas populações tenham automaticamente o direito à independência. Dessa forma, o discurso combina uma ideia inovadora de soberania popular com limites próprios da ordem internacional de seu período, revelando que o projeto do presidente não rompe completamente com as estruturas de poder existentes.
O décimo quarto ponto representa, contudo, a síntese mais ampla do programa. Wilson propõe “uma associação geral de nações” capaz de oferecer garantias à independência política e à integridade territorial dos Estados, grandes ou pequenos (WILSON, 1918).
A proposta antecipa a criação da Liga das Nações e desloca a segurança internacional de uma lógica exclusivamente nacional para uma perspectiva de segurança coletiva. Em vez de cada Estado depender apenas de sua própria capacidade militar, a paz deveria ser protegida por compromissos compartilhados entre diferentes países (UNITED STATES, [s.d.]).
O discurso, pode ser compreendido como uma tentativa de utilizar princípios normativos para reorganizar uma realidade internacional marcada pela guerra e pela disputa de poder. Sua força política está justamente na capacidade de apresentar os interesses norte-americanos como parte de um projeto aparentemente universal de justiça e paz.
Ao afirmar que “todos os povos do mundo são, na realidade, parceiros nesse interesse” (WILSON, 1918), Wilson transforma uma proposta de política externa dos Estados Unidos em um programa apresentado como interesse comum da humanidade. Essa universalização torna o discurso persuasivo, mas também permite questionar até que ponto valores universais e interesses nacionais estavam realmente separados.
Essa dimensão revela que a defesa do liberalismo internacional não estava dissociada de interesses estratégicos, Wilson projetava uma ordem internacional mais favorável à expansão da influência norte-americana.Portanto, por trás da defesa de uma paz baseada na cooperação, havia também o interesse em criar condições para que os Estados Unidos ocupassem uma posição cada vez mais central na organização do sistema internacional.
Nesse sentido, os Quatorze Pontos podem ser compreendidos como parte de um projeto de construção da hegemonia norte-americana, no qual poder material e influência se reforçavam mutuamente. Ao apresentar valores compatíveis com seus interesses como uma ordem “desejável para todos”, os Estados Unidos não precisavam depender exclusivamente da força para ampliar seu espaço de poder, eles poderiam também influenciar as próprias regras e instituições que orientariam as relações internacionais.
A influência desse pronunciamento foi significativa. Odiscurso serviu posteriormente como uma das bases das negociações de paz, e a ideia de uma associação internacional foi incorporada ao projeto da Liga das Nações. Entretanto, a paz construída em Versalhes resultou de compromissos entre diferentes interesses, e o próprio Tratado não correspondeu integralmente ao programa de Wilson. Além disso, apesar de defender a criação da Liga, os Estados Unidos não chegaram a integrar a organização, após a rejeição do Tratado de Versalhes pelo Senado norte-americano.
Mesmo com essas limitações, o discurso permanece relevante para as Relações Internacionais porque muitos dos princípios nele apresentados continuam presentes na política internacional contemporânea. A defesa de instituições multilaterais, da negociação entre Estados, da segurança coletiva, da redução dos conflitos e de regras comuns pode ser observada na própria existência de organizações internacionais criadas posteriormente.
Ao mesmo tempo, as contradições entre princípios universais e interesses nacionais continuam sendo um problema central, Estados frequentemente defendem determinadas normas quando elas favorecem sua própria posição e relativizam essas mesmas normas quando seus interesses estratégicos estão em jogo. Assim, os Quatorze Pontos podem ser compreendidos simultaneamente como um projeto de transformação da ordem internacional e como um instrumento de política externa.
Sua importância não está apenas nas propostas específicas de 1918, mas na tentativa de estabelecer princípios capazes de orientar o comportamento dos Estados em escala internacional. O discurso demonstra, portanto, uma característica fundamental das Relações Internacionais: a ordem mundial é construída tanto pela distribuição de poder quanto pelas ideias e instituições utilizadas para justificá-la. Wilson não conseguiu realizar integralmente a ordem que imaginou, mas seu programa ajudou a consolidar debates sobre multilateralismo, segurança coletiva e cooperação internacional que continuam estruturando as Relações Internacionais no presente.
Referências
UNITED STATES. Department of State. The FourteenPoints, 1918. Office of the Historian. Washington, D.C.: U.S. Department of State, [s.d.]. Disponível em: https://history.state.gov/milestones/1914-1920/fourteen-points. Acesso em: 27 jul. 2026.
WILSON, Woodrow. Address to a Joint Session of Congress on the Conditions of Peace [“The Fourteen Points”]. 8 jan. 1918. The American Presidency Project. Santa Barbara: University of California, Santa Barbara, [s.d.]. Disponível em: https://www.presidency.ucsb.edu/documents/address-joint-session-congress-the-conditions-peace. Acesso em: 27 jul. 2026.
