
Tiago Callejon Santos – Internacionalista formado na UNAMA
Com menos de um mês decorrido da partida final da Copa do Mundo da FIFA de 2026, que foi protagonizada pelas seleções da Espanha e Argentina, a expectativa geral em torno da decisão concentrava-se na definição da nova campeã mundial. Nesse contexto, a conquista espanhola ao título naturalmente indicava que, após o fim da competição, os engajamentos midiáticos globais estariam direcionados aos aspectos esportivos da Copa, sobretudo nas perspectivas do desempenho das seleções no torneio, nos momentos de maiores destaques simbólicos e marcantes e a celebração da equipe campeã na final.
Entretanto, diferentemente do que se esperava, o período pós-Copa foi marcado por uma intensa movimentação em torno de uma crise política que colocou a FIFA novamente nos centros das discussões públicas, fazendo com que a entidade ganhasse uma visibilidade que não era observada com tamanha relevância e grandeza há alguns anos, principalmente após os escândalos de corrupção que a mesma passou em 2015.
Essa grande crise é recente e os seus desdobramentos já atingem altas escalas. Ela teve o seu início no dia 28 de julho de 2026. Contudo, foi no dia 30 de julho de 2026 que ela teve o seu momento máximo de tensão, pois foi quando a UEFA – sigla para União das Associações Europeias de Futebol – emitiu um comunicado, após realização emergencial de uma reunião entre a federação e seus membros, em seu site oficial e em suas mídias sociais, informando que ela e as suas 55 federações nacionais não participariam mais de competições realizadas pela FIFA depois de saberem sobre o planejamento de uma proposta da FIFA em vender participações acionárias da Copa do Mundo e de outras competições FIFA para investidores privados (UEFA, 2026).
Acerca da proposta, o portal Reuters (2026) informa que, em resumo, a FIFA queria criar uma empresa subsidiária que administraria os seus principais ativos comerciais, principalmente os direitos de transmissão da Copa do Mundo masculina de futebol, essa mesma empresa seria vendida, posteriormente, em 20% de suas ações parciais para investidores privados, levantando um orçamento avaliado em mais de 4,2 bilhões de dólares. Segundo o que afirmou Gianni Infantino, o presidente da FIFA, parte desse dinheiro levantado seria utilizado como retorno às federações nacionais de futebol para servir como um fundo de investimento para o desenvolvimento ao futebol como um todo (Reuters, 2026).
Como uma resposta rápida a isso, a UEFA e a CONCACAF entraram rapidamente em ação, criticando duramente as decisões da FIFA e reagindo mal a esse acordo. Segundo as duas Federações, houve 3 motivos para as mesmas reagirem de forma tão escandalosa, sendo elas: a falta de transparência e de consulta da FIFA mediante a este acordo, pois segundo as interpretações destas duas Federações, um projeto desta escala e magnitude não pode ser aprovado e ser desenvolvido sem um diálogo adequado com as confederações e com as associações nacionais (Agini, 2026).
O segundo motivo seria referente a preocupação com a influência indireta e direta que seria exercida pelos investidores privados sobre o principal torneio do futebol mundial, isto é, a Copa do Mundo da FIFA, com a devida formalização do acordo e a venda posterior desta empresa subsidiária, algo que afetaria a relação mercadológica dos produtos da FIFA com os acionistas privados e as Federações de futebol (Reuters, 2026), e, por fim, o último motivo, que se mostrou ser o maior cerne de preocupação da UEFA e CONCACAF, pois se refere à forma de governança da FIFA, a qual é caracterizada pelo estilo de liderança adotada por Infantino, sendo uma liderança excessivamente centralizadora e pouco comunicativa, como exposto por Mulvenney (2026) e Nair (2026).
Com efeito, a pressão exercida pelas Federações foi tão intensa e eficaz, haja vista que elas apresentaram circunstâncias reais de boicote às competições organizadas pela FIFA, que fez com que a mesma recuasse e retirasse o projeto poucos dias depois após apresentação do acordo. Tamanha foi a sua eficiência que, conforme exposto por Baldwin e Ramson (2026), a CONCACAF e a UEFA rejeitaram oficialmente a proposta e solicitaram uma revisão de liderança e de nova governança na FIFA.
Outrossim, mesmo com a vitória provisória das duas federações sobre a FIFA, ainda se observa um cenário de desgaste e descontentamento destas com a organização, sobretudo em seu aspecto de abordagem política. Conforme expõe a Reuters (2026), dirigentes da UEFA, da CONCACAF e também da AFC – Confederação Asiática de Futebol – começaram a discutir e planejar formas de limitar o poder de Gianni Infantino, no qual os mesmos até debatem possíveis nomes de candidatos alternativos a Infantino para a eleição presidencial da entidade, em 2027, com o intuito de tirá-lo do exercício da função de presidente da FIFA.
Afinal, conforme exposto pelo portal The Guardian (2026), essa crise da FIFA possui uma natureza mais política do que financeira propriamente dita, porque a FIFA continua apresentando um crescente aumento em suas receitas, principalmente ocasionados pela realização da Copa do Mundo de 2026, isto é, o problema destacado aqui não é acerca do faturamento econômico da entidade ou a capitalização de recursos financeiros, mas sim como esses ativos estão sendo administrados de modo mais estratégico, ainda mais tendo em vista o descontentamento das demais entidades na forma como Infantino lida com as questões de transparência, politicagem e governança da entidade, o que causou todos estes incômodos.
À luz das Relações Internacionais, pode-se facilmente relacionar estes vínculos das entidades esportivas do futebol com o arcabouço teórico das teorias neoliberais, sobretudo na concepção adotada por Robert Keohane (1984), um dos teóricos mais proeminentes desta escola teórica, denominada de Institucionalismo Neoliberal. Em sua obra After Hegemony (1984), Keohane introduz essa ideia de Institucionalismo Neoliberal, onde o autor parte de uma releitura ao pressuposto realista das Relações Internacionais os quais os realistas afirmam que o Sistema Internacional é anárquico, isto é, não existe uma autoridade superior aos Estados que sirva como um agente regulador universal mediante aos outros organismos que compõem o grande Sistema.
Na visão de Keohane, o autor afirma que essa anarquia não exclui a concepção de que a cooperação não exista e que ela não é inviável. Na verdade, segundo o teórico, a cooperação entre estas distintas instituições resulta em relações benéficas entre as várias partes envolvidas, como: redução dos custos de operações, criação e estabelecimento de regras e normas e o aumento da previsibilidade e das expectativas de padrões comportamentais entre os autores envolvidos em uma relação de cooperação, tornando essas cooperações racionais e vantajosas.
Essa abordagem dialoga perfeitamente com todo o escopo produzido neste artigo, pois no caso desta crise envolvendo a FIFA e as suas federações, a tentativa de implementar uma reestruturação de seus ativos comerciais sem ter ocorrido o devido diálogo e comunicação com os demais atores representou uma ruptura destas expectativas institucionais compartilhadas, algo que comprometeu a percepção e cosmovisão da UEFA, da CONCACAF e da AFC acerca da legitimidade de governança da FIFA na pessoa de Gianni Infantino.
Deste modo, a reação coordenada entre UEFA, CONCACAF E AFC pode ser interpretada como uma tentativa em reestabelecer os mecanismos institucionais de controle e organização administrativa da entidade, preservando a cooperação entre as partes para a devida estabilidade desta cooperação entre atores.
Por fim, conclui-se que esta crise não apresenta em si uma natureza econômica, mas sim uma natureza mais política e de governança institucional, na qual a confiança, a transparência e a participação legal entre as partes envolvidas não fora respeitada, algo que comprometeu a estabilidade da FIFA, fazendo-a entrar em uma forte crise política desde os escândalos de corrupção da entidade em 2015.
Referências:
BALDWIN, Alan; RAMSON, Ashitha Shivaprasad. Australian players’ union slams FIFA plan, says World Cup should not be for sale. Reuters, 30 jul. 2026. Disponível em: https://www.reuters.com/sports/soccer/australian-players-union-slams-fifa-plan-says-world-cup-should-not-be-sale-2026-07-30/
FINANCIAL TIMES. Fifa faces internal battle as Gianni Infantino fights to hold onto power after stake sale fiasco. Financial Times, 4 ago. 2026. Disponível em: https://www.ft.com/content/0b7081c3-2654-471c-b1b9-87c6f6369fb0
KEOHANE, Robert O. After hegemony: cooperation and discord in the world political economy. Princeton: Princeton University Press, 1984.
MULVENNEY, Nick; NAIR, Rohith. Battle lines drawn within FIFA as key figures break ranks with Infantino. Reuters, 4 ago. 2026. Disponível em: https://www.reuters.com/sports/soccer/battle-lines-drawn-infantino-fights-hold-onto-power-after-fifa-stake-sale-fiasco-2026-08-04/
REUTERS. FIFA faces fresh transparency calls after retreat from World Cup sell-off plan. Reuters, 1 ago. 2026. Disponível em: https://www.reuters.com/sports/soccer/fifa-faces-fresh-transparency-calls-after-retreat-world-cup-sell-off-plan-2026-08-01/
REUTERS. Timeline of FIFA’s stake sale plan: from proposal to dismissal under opposition. Reuters, 1 ago. 2026. Disponível em: https://www.reuters.com/sports/soccer/timeline-fifas-stake-sale-plan-proposal-dismissal-under-opposition-2026-08-01/
THE GUARDIAN. Fifa to announce record $15bn World Cup revenue, smashing expectations. The Guardian, 18 jul. 2026. Disponível em: https://www.theguardian.com/football/2026/jul/18/fifa-record-15bn-world-cup-revenue
UEFA. Statement on behalf of UEFA and its 55 national associations. Nyon, 30 jul. 2026. Disponível em: https://www.uefa.com/news-media/news/02a7-213a92896eb0-54dfbf454e3b-1000–statement-on-behalf-of-uefa-and-its-55-national-associations
