Sofia Dias, acadêmica do 4º semestre de Relações Internacionais da UNAMA.

Ficha Técnica

Ano: 1974
Gênero: Comédia/Crime
Direção: Stephanie Rothman
Distribuição: Dimension Pictures
País de origem: Estados Unidos

Lançado em 1974 e dirigido por Stephanie Rothman, sendo este um dos trabalhos mais pessoais de sua carreira, The Working Girls acompanha o cotidiano de um trio de mulheres que trabalham em Los Angeles enquanto enfrentam dificuldades financeiras, relações de poder e diferentes formas de exploração social. O filme constitui um retrato das transformações econômicas e sociais vivenciadas pelos Estados Unidos durante a década de 1970, período marcado pelos desdobramentos da crise do petróleo de 1973, pela recessão econômica e pelo avanço da segunda onda do movimento feminista (Madelyn, 2023).

O longa acompanha as protagonistas Jill, Denise e Honey, mulheres que buscam preservar sua autonomia em meio à precariedade econômica e às limitações impostas pelo mercado de trabalho. Jill trabalha como garçonete de bar e dançarina exótica para custear sua faculdade de Direito; Denise atua pintando outdoors, utilizando essa renda para financiar sua produção artística e o aluguel do apartamento que divide com a amiga; já Honey, apesar de possuir mestrado em Matemática e viver como mochileira, parece carregar expectativas e projetos que ultrapassam sua condição imediata. Cada uma delas encontra homens, tanto na vida pessoal quanto na profissional, que ameaçam sua independência, seja por meio de compromissos éticos, violência física ou, no caso de Honey, demissões sem justa causa (Madelyn, 2023).

Dessa forma, o cenário vivenciado pelas protagonistas dialoga diretamente com a Teoria Feminista das Relações Internacionais, perspectiva que questiona a aparente neutralidade das estruturas econômicas e políticas analisadas pelas abordagens tradicionais da disciplina, visto que, a obra expressa uma dinâmica estrutural produzida pela própria organização da economia capitalista.

Ao contrário do proposto em correntes positivistas que dominavam o pensamento nas Relações Internacionais, que concentram suas análises no Estado e nas relações interestatais, este viés busca demonstrar que processos internacionais, como crises econômicas, transformações do capitalismo e reorganizações do mercado de trabalho, produzem impactos profundamente distintos sobre homens e mulheres. Portanto, mesmo que a virada virada linguístico-epistemológica tenha alcançado as RI apenas em meados dos anos 90 – sobretudo a partir do advento da Guerra Fria – a obra consegue ampliar o campo analítico da área ao evidenciar que a economia política internacional também se manifesta na vida cotidiana daqueles que ocupam posições historicamente marginalizadas (Sena; Garcia, 2022).

Essa interpretação aproxima-se das contribuições de Cynthia Enloe, uma das principais referências da Teoria Feminista das Relações Internacionais. Em Bananas, Beaches and Bases (Bananas, Praias e Bases), a autora argumenta que a economia global depende de formas de trabalho feminino sistematicamente invisibilizadas, incluindo atividades domésticas, cuidados familiares, trabalho informal e ocupações precarizadas (Enloe, 2014). Enloe afirma que é um erro analisar o mundo e suas relações de poder sem o que ela chama de “curiosidade feminista”, visto que essas relações são tão importantes que moldam o mundo e as relações sociais nos mais diversos aspectos (Borges, 2023).

Consoante a isso, o longa-metragem propõe a representação do corpo feminino como espaço de circulação do capital. As relações estabelecidas entre Jill, Denise e Honey e as diversas dinâmicas de trabalho que as atravessam evidenciam que o corpo das mulheres assume valor econômico dentro de uma lógica mercantil que transforma necessidades humanas em oportunidades de lucro. Essa mercantilização não decorre exclusivamente das escolhas individuais das personagens, mas das estruturas econômicas que restringem suas alternativas de sobrevivência. 

As relações de solidariedade estabelecidas entre as protagonistas também representam formas de resistência cotidiana diante das estruturas econômicas e patriarcais que condicionam suas vidas. Em vez de retratar mulheres exclusivamente como vítimas ou concorrentes, Stephanie Rothman evidencia que a cooperação feminina constitui um mecanismo fundamental de sobrevivência em um contexto marcado pela precarização do trabalho e pela ausência de políticas públicas capazes de assegurar proteção social.

Tal representação aproxima-se das reflexões de Enloe (2014), para quem as experiências cotidianas das mulheres revelam dimensões invisibilizadas da economia política internacional, demonstrando que redes informais de cuidado frequentemente sustentam grupos historicamente marginalizados.

Em síntese, The Working Girls demonstra que as Relações Internacionais podem ser compreendidas para além da diplomacia, das guerras ou das disputas entre Estados. A obra evidencia que crises econômicas internacionais produzem efeitos concretos sobre sujeitos historicamente marginalizados, afetando principalmente as mulheres de maneira desproporcional em razão das estruturas de gênero que organizam o mercado de trabalho e a distribuição da riqueza. Ao articular capitalismo, patriarcado e vulnerabilidade econômica, Stephanie Rothman oferece uma narrativa que amplia possibilidades analíticas da disciplina, reafirmando que a política internacional também se manifesta nas experiências cotidianas das mulheres. 

REFERÊNCIAS

BORGES, Lana. Pensamentos Internacionalistas – Teoria Feminista: Cynthia Enloe. Internacional da Amazônia, 21 fev. 2023. Disponível em: https://internacionaldaamazoniacoms.com/2023/02/21/pensamentos-internacionalistas-teoria-feminista-cynthia-enloe/. Acesso em: 1 ago. 2026.

ENLOE, Cynthia. Bananas, Beaches and Bases: Making Feminist Sense of International Politics. 2. ed. Berkeley: University of California Press, 2014. 

SENA, Heitor; GARCIA, Yasmin. A virada linguística e as teorias das relações internacionais. Internacional da Amazônia, 10 maio 2022. Disponível em: https://internacionaldaamazoniacoms.com/2022/05/10/a-virada-linguistica-e-as-teorias-das-relacoes-internacionais/. Acesso em: 1 ago. 2026.

THE WORKING GIRLS. Screenslate, 17 set. 2023. Disponível em: https://www.screenslate.com/articles/working-girls-0. Acesso em: 1 ago. 2026.