Julia Pimenta- 4º semestre

Em junho, na 68ª Cúpula do Mercosul, sediada em Assunção, Lula falou abertamente em buscar com a China um acordo semelhante ao já fechado com a União Europeia (Kozak, 2026). Em julho veio a ligação com Xi Jinping, e dela saiu o compromisso de acelerar as tratativas, com espaço reservado, inclusive, para inteligência artificial, satélites, minerais críticos e fertilizantes (Agência Brasil, 2026). Nada disso, contudo, deve ser lido como fato isolado: trata-se de uma resposta a algo maior, a virada tarifária dos Estados Unidos, que desde 2025 usa o acesso ao próprio mercado como arma de pressão política.

Para entender essa resposta, este texto se apoia num único referencial teórico contemporâneo, a interdependência armada, de Farrell e Newman (2019), que ajuda a explicar por que economias de porte médio, como as do Mercosul, tendem a buscar novos parceiros quando o centro do sistema decide transformar redes comerciais em instrumento de coerção. Para os autores, a globalização não gerou uma rede simétrica de ganhos mútuos, como sugeriam as leituras liberais clássicas sobre interdependência: gerou hubs, e poucos países concentram os nós centrais das infraestruturas financeira, tecnológica e comercial do planeta.

Essa posição privilegiada pode virar poder de coerção por duas vias: o efeito panóptico, que permite vigiar o que passa pelos próprios canais, e o efeito de estrangulamento, o famoso chokepoint, que permite cortar ou punir quem depende deles (Farrel; Newman, 2019). Os Estados Unidos encaixam perfeitamente nesse papel, dada sua centralidade nos sistemas financeiro e comercial globais. As tarifas americanas escaladas a partir de 2025 são exatamente isso, estrangulamento em ação: ao penalizar parceiros comerciais de longa data, Washington transformou o próprio mercado num instrumento de barganha política.

A teoria já previa a reação mais provável, o hedging, ou seja, diversificar parcerias para não depender de um único nó (Farrel; Newman, 2019). É basicamente isso que o Mercosul está fazendo. A aproximação com a China, o acordo já fechado com a União Europeia em janeiro de 2026 e as negociações em curso com Japão, Canadá, Índia, Emirados Árabes Unidos e Efta não são movimentos soltos: formam uma única estratégia de diversificação de rede.

Três episódios recentes sustentam a ideia de que esse avanço é factível, e não mero discursivo. O acordo Mercosul-União Europeia, aprovado pelo bloco europeu em janeiro de 2026 depois de 25 anos de idas e vindas, elevou o que fontes do governo brasileiro chamaram de “rating” do bloco sul-americano (Jota, 2026).

Já a declaração conjunta Brasil-Uruguai-China, de fevereiro, quebrou um veto que o Brasil mantinha havia anos, e passou a tratar um acordo parcial com Pequim como algo plausível no médio prazo, segundo a própria equipe econômica brasileira (Reuters, 2026). Mais recentemente, a conversa direta entre Lula e Xi Jinping deixou claro que a intenção de acelerar as tratativas é política, não apenas técnica, e que o pacote vai além da soja e da carne: entram aí inteligência artificial, satélites e minerais críticos, um desenho bem mais sofisticado do que a velha troca de commodities por manufaturados (Agência Brasil, 2026).

As oportunidades aqui são reais. O Mercosul ganha um mercado alternativo justamente quando as tarifas americanas geram incerteza. Em 2025, o comércio entre Brasil e China já passava de US$ 170 bilhões, mais do que o dobro do volume com os Estados Unidos, e a China respondia por 27,7% de todo o comércio exterior brasileiro naquele ano (Jornal do Brasil, 2026; Bloomberg, 2026). Do outro lado, Pequim garante acesso preferencial a alimentos, minerais críticos e fertilizantes, e ganha influência num momento em que as cadeias globais de valor estão sendo redesenhadas.

Um acordo amplo e fechado, porém, ainda está longe de ser certeza. A própria nota divulgada após a ligação Lula-Xi fala em “flexibilidades”, palavra que, no jargão diplomático, costuma esconder resistência interna, sobretudo do setor industrial brasileiro, que teme a enxurrada de manufaturados chineses (Agência Brasil, 2026). Existe também uma assimetria evidente de poder de barganha entre a China e economias médias como as do Mercosul, o que traz uma pergunta desconfortável, coerente com a própria teoria usada aqui: será que trocar de parceiro não é apenas trocar de dependência?

Diversificar em direção a Pequim pode acabar criando um novo hub de vulnerabilidade, em vez de resolver o problema original. Some-se a isso a própria dinâmica interna do Mercosul: coordenar governos tão diferentes, como o de Javier Milei, mais próximo de Washington, não é tarefa simples. Fica claro, assim, por que qualquer acordo deve andar devagar.

O que o Mercosul vem fazendo em relação à China confirma, na prática, o que Farrell e Newman (2019) previam: quando uma potência central arma sua posição de rede, os países afetados reagem buscando outras conexões. O acordo com a União Europeia, a abertura do Brasil à China e as negociações paralelas com o Japão não são peças soltas: formam uma única estratégia para reduzir a dependência de um centro só de poder econômico.

Mas um acordo amplo com Pequim ainda depende de resolver resistências dentro do próprio bloco, e carrega o risco de trocar uma dependência por outra. As possibilidades estão mais fortes do que nunca em 2026. Se vão se concretizar, isso vai depender de quanta autonomia o Mercosul conseguir preservar ao negociar essas tais “flexibilidades” frente a qualquer um dos grandes nós do comércio mundial.

REFERÊNCIAS

FARRELL, Henry; NEWMAN, Abraham L. Weaponized Interdependence: How Global Economic Networks Shape State Coercion. International Security, v. 44, n. 1, p. 42-79, 2019.

AGÊNCIA BRASIL. Acordo Mercosul-China é tratado em conversa entre Lula e Xi Jinping. Brasília, jul. 2026.

RIC.COM.BR. Lula anuncia que Mercosul busca acordo comercial com a China. 30 jun. 2026.

REUTERS. Brasil reabre caminho para acordo Mercosul-China. Brasília/Montevidéu, 6 fev. 2026.

JOTA. UE aprova acordo comercial com o Mercosul, que ganha novo fôlego em 2026. 9 jan. 2026.

JORNAL DO BRASIL. Tarifas de Trump só dobraram comércio do Brasil com China que bate recorde. 13 jan. 2026.

BLOOMBERG. Brasil supera tarifas de Trump e tem recorde de exportações em 2025. 6 jan. 2026.