
Ana Victória Padilha Carneiro (acadêmica do 6° semestre de RI – UNAMA)
Rodrigo Lobato dos Prazeres (acadêmico do 8° semestre de R.I UNAMA)
A expansão da economia digital vem transformando as relações econômicas, sociais e políticas contemporâneas, e assim, a Inteligência Artificial (IA) ocupa um espaço cada vez mais central nesse processo. Isso aumenta a demanda por estruturas capazes de armazenar, processar e transmitir grandes volumes de dados, os data centers, que se tornam peças fundamentais para o funcionamento dessa nova economia.
Apesar de ser popularmente associada à ideia de “nuvem”, os Data Centers têm uma dimensão física bem concreta necessitando de: servidores, sistemas de climatização, fornecimento contínuo de energia e mecanismos de resfriamento. Ou seja, por trás da imagem de algo imaterial, existe um consumo real de recursos naturais, principalmente água e energia (ZACARIAS et al., 2026).
Desse modo, a ideia de que a economia digital seria essencialmente imaterial, segundo Zacarias et al. (2026), tende a esconder os recursos necessários à sua manutenção. Pois, mesmo com a utilização de fontes renováveis, o aumento da demanda pode ampliar os impactos ambientais nas regiões em que essas megaestruturas estiverem instaladas. Logo, os Data Centers representam, assim, uma materialização concreta da economia da informação.
É por isso que a chegada desses empreendimentos à Amazônia levanta questões importantes. Uma vez, que a região tem grande disponibilidade de água e potencial energético, o que a torna atrativa para esse tipo de infraestrutura. No entanto, não significa que o acesso a esses recursos seja igual para todos ou seu uso esteja livre de conflitos.
De acordo com a contribuição de Pinto (2017), a água não deve ser compreendida somente como um recurso natural disponível, mas também como um elemento estratégico relacionado à economia, à sobrevivência humana e às relações de poder. Sua distribuição natural não acompanha necessariamente sua distribuição política e social, o que pode produzir disputas em torno de sua utilização, sendo evidente na Amazônia.
Assim, a tensão prática entre desenvolvimento tecnológico e sustentabilidade hídrica, pode ser referenciada no caso de Belém/PA, cidade amazônida que recebe um projeto voltado à IA mesmo ainda enfrentando limitações sérias no acesso da população à água e ao saneamento básico.
Segundo o Instituto Água e Saneamento (2026), 88,2% da população do município é atendida por abastecimento de água, enquanto 165.283 habitantes não têm acesso a esse serviço. A situação do esgotamento sanitário é ainda pior: apenas 25,3% da população é atendida, e mais de um milhão de pessoas não têm seu esgoto coletado.
Dessa forma, a discussão sobre novos usos econômicos dos recursos hídricos precisa considerar uma realidade urbana na qual serviços básicos ainda não alcançaram a universalização. Assim, é necessário discutir quais devem ser as prioridades na gestão de um recurso que é desigualmente distribuído.
E é nesse contexto que entra o projeto BEL1, anunciado pela Elea Data Centers e pela Axia Energia como o primeiro data center de IA da Amazônia. Segundo Azevedo (2026), a previsão é que comece a operar no segundo semestre de 2027, próximo à subestação Miramar, no bairro do Barreiro, localização estratégica para atender à demanda energética e complementar a transmissão de dados, considerando a concentração de cabos submarinos de fibra óptica em Fortaleza.
O BEL1 integra, portanto, uma estratégia mais ampla de expansão da economia digital e de posicionamento da Amazônia nas redes tecnológicas nacionais, pois o empreendimento busca inserir a Amazônia nas infraestruturas que sustentam a expansão da IA e das cadeias digitais, possivelmente explorando de maneira indevida os recursos naturais da região a transformando em uma grande “área de abate”. Ou seja, desconsiderando a vida e os territórios das populações locais.
Assim, a reportagem de Azevedo (2026) informa que a previsão de consumo energético do BEL1 equivale à energia utilizada por aproximadamente 500 mil casas. Um dado que ajuda a entender por que o promotor de Justiça responsável pelo inquérito civil do Ministério Público do Pará (MPA), questionou os efeitos dessa demanda sobre um estado onde os consumidores enfrentam constantemente problemas no fornecimento de energia.
A segurança hídrica também está entre as preocupações levantadas: a deputada estadual Lívia Duarte pediu investigação preventiva ao Ministério Público sobre segurança hídrica, estabilidade energética e possíveis impactos socioambientais do projeto (AZEVEDO, 2026).
Há visões diferentes sobre o que o BEL1 representa. Para a empresa, é uma oportunidade de ampliar infraestrutura tecnológica e conectividade regional, enquanto para os setores da sociedade civil e do poder público, é motivo de dúvida sobre os custos ambientais e sociais dessa expansão (AZEVEDO, 2026).
Isso leva à pergunta sobre o que realmente fica de desenvolvimento para a região. Como questiona Clauber Leite, diretor de Energia Sustentável e Bioeconomia do Instituto E+ Transição Energética, é preciso perguntar qual desenvolvimento esses empreendimentos efetivamente deixam para o país (E+ TRANSIÇÃO ENERGÉTICA, 2026). Isso envolve emprego qualificado, formação profissional, inovação e fortalecimento das cadeias produtivas locais e não apenas o valor do investimento ou a infraestrutura instalada.
Essa preocupação se aproxima do que argumentam Zacarias et al. (2026), que a expansão da infraestrutura digital na Amazônia pode reproduzir desigualdades históricas quando os recursos naturais ficam no território, enquanto parcela significativa dos benefícios econômicos se concentra fora dele.
O caso de Belém traz ainda uma dimensão territorial importante. Uma reportagem do Tapajós de Fato registra que moradores da comunidade Miramar Chalon afirmam ter descoberto o projeto pela imprensa, sem terem participado de consulta, audiência pública ou qualquer apresentação formal sobre o empreendimento (TAPAJÓS DE FATO, 2026).
A mesma reportagem traz os números do projeto com um investimento inicial de R$ 250 milhões, uma área de cerca de 12 mil metros quadrados e capacidade inicial de 7,5 MW, podendo chegar a 100 MW no futuro, embora sem cronograma definido (TAPAJÓS DE FATO, 2026).
A Elea Datar Centers, empresa brasileira voltada para o desenvolvimento da infraestrutura digital, por sua vez, afirma que o BEL1 será construído dentro do Centro de Tecnologia da Eletronorte, em área industrial privada, cercada e monitorada, e que o perímetro do projeto não ocupa o território da comunidade. Segundo a empresa, novas fases dependerão de demanda, infraestrutura elétrica, estudos técnicos e licenças (TAPAJÓS DE FATO, 2026). Mesmo assim, a proximidade do projeto pode gerar preocupações entre moradores do entorno, como circulação, ruídos, impactos ambientais e sobrecarga da infraestrutura local.
Essa tensão se evidencia pela expectativa dos moradores de receber uma Usina da Paz, voltada a serviços públicos, cidadania, saúde, cultura, esporte e qualificação profissional (TAPAJÓS DE FATO, 2026). A chegada de um empreendimento privado de alta tecnologia revela que o conflito não é simplesmente “moradores contra tecnologia”, envolve diferentes ideias sobre qual deveria ser a função do território e que tipo de investimento deveria ser prioridade.
Diante de impactos que podem ser complexos e cumulativos, vale o princípio da precaução: a ausência de certeza absoluta sobre certos impactos não deve significar ausência de planejamento, ainda mais quando estão em jogo recursos naturais essenciais (SOUZA et al., 2025).
No caso do BEL1, o próprio inquérito civil aberto pelo MPPA – que investiga inclusive possíveis impactos sobre ilhas do município de Barcarena, próximas ao local do projeto, mostra que ainda há pontos do empreendimento que precisam de esclarecimento público (AZEVEDO, 2026). Isso não significa que os impactos negativos estejam comprovados, significa que é preciso avaliar com cautela as possíveis consequências de uma infraestrutura desse porte.
A divergência entre moradores e empresa sobre a consulta prévia também reforça a importância da transparência, independentemente da situação jurídica da área, comunidades próximas precisam ter acesso a informações sobre empreendimentos capazes de alterar o ambiente em que vivem.
Por isso, a sustentabilidade dos data centers precisa ser avaliada de forma territorial e não apenas pelos limites físicos do terreno onde estão instalados. Como argumentam Zacarias et al. (2026), seus impactos tendem a ser difusos, cumulativos e de longo prazo, pois ocorrem também por meio das redes de energia, água, conectividade e transporte.
Além disso, é importante lembrar que o BEL1 pode ser ampliado gradualmente até 100 MW, dependendo da demanda e das condições técnicas e regulatórias (TAPAJÓS DE FATO, 2026). Por isso, a análise não deve considerar apenas a estrutura inicial, mas também seu possível crescimento no futuro, visto que uma infraestrutura que começa menor pode se tornar muito maior e aumentar sua relação com os recursos naturais e o território.
A situação de Belém mostra que desenvolvimento tecnológico e desenvolvimento social não são a mesma coisa. Um território pode receber uma infraestrutura moderna e, ao mesmo tempo, continuar com problemas em serviços básicos. Logo, o desafio é fazer com que esses dois processos avancem juntos.
Conclui-se que a criação do BEL1 na Amazônia, representa essa contradição, pois pode ampliar a conectividade regional, mas gera preocupações sobre energia, água e impactos socioambientais, ou seja pode reforçar a criticidade das desigualdades existentes (AZEVEDO, 2026).
Portanto, é necessário discutir as condições de instalação dos Data Centers, os recursos utilizados, os benefícios para a região, como: a formação de mão de obra regional, participação de empresas locais, geração de conhecimento, melhoria das condições sociais e a participação da sociedade nas decisões. Além da implementação das políticas de segurança hídrica e ampliação dos serviços básicos a população.
A partir da leitura do tema, indica-se o livro “Atlas de Inteligência Artificial: Poder, política e os custos planetários da IA”, de autoria de Kate Crawford (publicado pela Editora Unesp). A obra analisa de forma crítica a dimensão física e material da tecnologia, dedicando atenção especial ao elevado consumo hídrico e energético das infraestruturas de dados (data centers), além das dinâmicas extrativistas e impactos ambientais resultantes do avanço da economia digital no Sul Global.
Disponível para degustação em: < https://www.livrariaunesp.com.br/atlas-da-ia-poder-politica-e-os-custos-planetarios-da-inteligencia-artificial-kate-crawford-edicoes-sesc-9788594933287/p. >
Ademais, sugere-se a visita ao Parque de Ciência e Tecnologia Guamá (PCT Guamá), localizado em Belém. O espaço reúne centros de pesquisa, empresas de tecnologia e laboratórios voltados ao desenvolvimento sustentável e ao uso racional dos recursos naturais da Amazônia, servindo de campo de estudo prático para a relação entre a expansão tecnológica e a preservação ambiental no contexto regional.
Site: < https://pctguama.org.br/. >
Endereço: Av. Perimetral, km 01, S/N – Guamá, Belém – PA, 66075-110. < https://maps.app.goo.gl/q4Fn84uvtNrRs9MN7?g_st=ac. >
Por fim, se recomenda o acompanhamento do acervo e das diretrizes da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), autarquia federal vinculada ao Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima. A ANA é a instituição responsável pela regulação e monitoramento do uso dos recursos hídricos no país, desenvolvendo estudos e gerindo outorgas essenciais para avaliar o impacto do arrefecimento de grandes infraestruturas tecnológicas nas bacias hidrográficas amazônicas.
Site: < https://biblioteca.ana.gov.br/sophia_web/. >
REFERÊNCIAS:
AZEVEDO, Ádria. Entre inovação e impactos: data center de IA em Belém divide opiniões. O Liberal, Belém, 26 jul. 2026. Disponível em: https://www.liberalamazon.com/tecnologia/news/entre-inovacao-e-impactos-data-center-de-ia-em-belem-divide-opinioes. Acesso em: 9 ago. 2026.
INSTITUTO ÁGUA E SANEAMENTO. O saneamento em Belém | PA. Municípios e Saneamento. Instituto Água e Saneamento, 2026. Disponível em: https://www.aguaesaneamento.org.br/municipios-e-saneamento/pa/belem. Acesso em: 9 ago. 2026.
INSTITUTO E+ TRANSIÇÃO ENERGÉTICA. Clauber Leite discute legado do apagão e desafios da nova matriz elétrica brasileira. 2026. Disponível em: https://emaisenergia.org/clipping/clauber-leite-discute-legado-do-apagao-e-desafios-da-nova-matriz-eletrica-brasileira/. Acesso em: 9 ago. 2026
PINTO, Elis. Geopolítica da água. Revista de Geopolítica, v. 8, n. 1, 2017. Disponível em: https://revistageo.com.br/revgeo/article/download/172/166. Acesso em: 9 ago. 2026.
SOUZA, Alcian Pereira de et al. INOVAÇÃO VERDE E SUSTENTABILIDADE DIGITAL: APLICAÇÃO DO PRINCÍPIO DA PRECAUÇÃO FRENTE AOS RISCOS INVISÍVEIS DAS TECNOLOGIAS EMERGENTES. Revista DCS, [S. l.], v. 22, n. 83, p. e3650, 2025. DOI: 10.54899/dcs.v22i83.3650. Disponível em: https://ojs.revistadcs.com/index.php/revista/article/view/3650. Acesso em: 9 ago. 2026.
TAPAJÓS DE FATO. Moradores afirmam que não foram consultados sobre data center previsto para área onde esperavam Usina da Paz, em Belém. Tapajós de Fato, 31 jul. 2026, atualizada em 3 ago. 2026. Disponível em: https://www.tapajosdefato.com.br/noticia/1818/moradores-afirmam-que-nao-foram-consultados-sobre-data-center-previsto-para-area-onde-esperavam-usina-da-paz-em-belem. Acesso em: 9 ago. 2026.
ZACARIAS, Bruno Hanan; NUNES, Gabrielle Roberta Carvalho; LIMA, Gizelle Beatriz Pacheco Rocha; HILGENBERG, Guilherme Castro de Araújo; SANTANA NETO, Hamilton Gomes de; MOREIRA, Jonathan Andrade; COSTA, Mariana Santos. A NUVEM PESA: EXPANSÃO DOS DATA CENTERS PARA A REGIÃO AMAZÔNICA E OS IMPACTOS AMBIENTAIS NA ERA DA INFORMAÇÃO. Revista Ibero-Americana de Humanidades, Ciências e Educação, [S. l.], v. 12, n. 2, p. 1–18, 2026. DOI: 10.51891/rease.v12i2.24010. Disponível em: https://periodicorease.pro.br/rease/article/view/24010. Acesso em: 9 ago. 2026.
