
Maria Eduarda Perdigão, acadêmica do 4° semestre de Relações Internacionais da Unama.
Ficha Técnica:
Ano: 2022
Gênero: Fantasia/Ação
Direção: Kim Tae-yoon/Sung Chi-wook
Distribuição: Netflix
País de Origem: Coréia Do Sul
A minissérie sul-coreana “Tomorrow” (2022), estrelada por atores de renome como RoWoon, Kim Hee-Sun e Lee Soo-hyuk e inspirada no Webtoon homônimo, aborda de forma empática e reflexiva sobre temáticas como saúde mental, bullying e suicídio, assuntos de extrema importância na contemporaneidade (Wagner, 2024).
O enredo acompanha Choi Joon-Woong, um jovem que, após tentar salvar um desconhecido de uma tentativa de suicídio, acaba entrando em um estado de coma com previsão de três anos para despertar, tornando-se metade humano, metade espírito. Contudo, Joon-Woong recebe uma proposta intrigante capaz de mudar seu destino: trabalhar para a empresa de ceifadores, a Jumadeung, responsável pela administração da vida após a morte, em troca da possibilidade de acordar do coma em seis meses, em vez de três anos. Assim, o protagonista é designado a equipe de “Gerenciamento de Risco”, no qual atua juntamente com Goo-Ryeon e Lim Ryeong-gu, com o objetivo de reduzir os de suicídio no país.
Embora a premissa da minissérie seja focada na prevenção do suicídio, a obra percorre diversas questões através do enredo de seus personagens, explorando todos os acontecimentos, vivências e sentimentos que levam a cada um de seus protagonistas à difícil consideração do suícidio como possível solução para suas dores e frustrações. Dessa maneira, Tomorrow aborda contextos históricos e sociais que influenciam o cotidiano e a maneira com que os indivíduos escolhem lidar com seus sofrimentos (Valkirias, 2022).
Nesse sentido, Hans Morgenthau, um dos principais autores do realismo clássico nas Relações Internacionais (RI), aborda em sua obra “Politics Among Nations: The Struggle for Power and Peace” (1948), sobre como as ações dos Estados são influenciadas pela incessante busca por poder e defesa de seus próprios interesses, sendo fundamental para a compreensão de conflitos e disputas no sistema internacional.
Em “Tomorrow”, essa perspectiva pode ser analisada durante o episódio “Primavera”, que retrata o período em que a península coreana esteve sob o domínio imperial japonês, entre 1910 e 1945. A anexação da Coreia marcou o fim da Dinastia Joseon, que havia governado a península por mais de cinco século e fez parte de um projeto de expansão territorial do Estado japonês, que buscava ampliar seu poderio e prestígio político, com o objetivo de estabelecer uma nova hierarquia de poder no Leste Asiático. Durante esse período, cidadãos coreanos foram submetidos a diversas formas de repressão, como restrição de cultura e identidade, exploração econômica e violência física, psicológica e sexual, as quais mulheres coreanas foram as principais vítimas (Kim, 2026).
Conjuntamente, a Teoria Feminista das Relações Internacionais (RI) aborda que as relações de poder e hierarquias de gênero influenciam diretamente a política Internacional, argumentando que estas relações de poder não são igualitárias entre homens e mulheres, o que difere as experiências vivenciadas por ambos os grupos.
Christine Sylvester, uma das principais teóricas do pensamento feminista, questiona em sua obra “Feminist Theory and International Relations in a Postmodern Era” (1994), as abordagens tradicionais que centralizam suas análises nas ações dos Estados e em suas relações de poder. Para Sylvester (1994), estas análises devem considerar as experiências e vozes de indivíduos historicamente marginalizados, sobretudo mulheres, evidenciando como as decisões políticas repercutem diretamente em suas vidas e em seus corpos.
No K-drama, a abordagem de Sylvester é evidenciada na violência e exploração sexual às quais mulheres foram submetidas pelo exército japonês durante a ocupação japonesa na Coréia, conhecidas como “mulheres de conforto”. Nesse contexto, o conflito de interesses entre os dois Estados contribuiu para que às mulheres coreanas fossem expostas a inúmeras formas de violência, retratando como a busca e proteção incessante de poder pelos Estados podem produzir consequências diretas e irreparáveis sobre os indivíduos, demonstrando assim que estas decisões e conflitos não se restringem apenas ao âmbito político e que são capazes de afetar direitos invioláveis como a vida e a dignidade.
Por fim, “Tomorrow” convida o telespectador a refletir além das problemáticas cotidianas e individuais de cada personagem, demonstrando que a dor humana não é compreendida de maneira isolada, que por trás de cada indivíduo existem experiências e circunstâncias que precisam ser compreendidas antes de qualquer pré-julgamento, destacando a importância da empatia e da valorização da vida para compreender a sociedade e as relações que a constituem.
REFERÊNCIAS:
WAGNER, Izabel. Hora do Drama: Amanhã (Tomorrow). Estante Diagonal. 2024. Disponível em: https://www.estantediagonal.com.br/2024/02/hora-do-drama-amanha-tomorrow.html
Acesso em: 08 Agosto 2026
LIMA, Mariana. Tomorrow: os obstáculos que mulheres enfrentam pelo direito de viver o amanhã. 2022. Disponível em: https://valkirias.com.br/tomorrow-os-obstaculos-que-mulheres-enfrentam-pelo-direito-de-viver-o-amanha/
Acesso em: 10 Agosto 2026
KIM, Hanna. Ocupação japonesa na Coreia. 2026. Disponível em: https://coreiapedia.net/wp/ocupacao-japonesa-na-coreia/
Acesso em: 12 Agosto 2026
MORGENTHAU, Hans. Politics Among Nations: The Struggle for Power and Peace. 1948. Oxford University Press.
SYLVESTER, Christine. Feminist Theory and International Relations In A Postmodern Era. 1994. Cambridge University Press.
