Alciane Carvalho Dias

Internacionalista formada pela UNAMA

Formada em 1989 na cidade de Limerick, na República da Irlanda, a banda The Cranberries rapidamente ascendeu ao estrelato global, consolidando-se como um dos maiores expoentes do rock alternativo da sua geração (The Cranberries, 1993; Fairburn, 2020). Inicialmente criada sob o nome The Cranberry Saw Us, a formação clássica encontrou sua identidade definitiva em 1990 com a chegada da vocalista Dolores O’Riordan, cujos vocais carregados de emoção, falsetes marcantes e profundas influências da música celta e da tradição folclórica redefiniram a sonoridade do grupo (McCafferty, 2018).

Em uma época em que o cenário do rock internacional era fortemente dominado pelo som agressivo e distorcido do grunge de Seattle, The Cranberries conquistou o público mundial com uma estética melancólica, lírica e visceralmente enraizada em sua terra natal (Fairburn, 2020). Álbuns de estreia como Everybody Else Is Doing It, So Why Can’t We? (1993), que trouxe sucessos atemporais como “Linger” e “Dreams”, projetaram a banda internacionalmente (The Cranberries, 1993). Com isso, o grupo estabeleceu-se não apenas como um fenômeno comercial da indústria fonográfica, mas como um verdadeiro porta-voz cultural da alma irlandesa em plena transição para a modernidade globalizada (McCafferty, 2018).

Para compreender o impacto político e cultural de The Cranberries além dos palcos e das paradas de sucesso, a teoria Construtivista das Relações Internacionais oferece a chave analítica ideal. Tradicionalmente, a disciplina focava apenas em poder militar, alianças estratégicas e interesses econômicos estatais. Contudo, o Construtivismo, consolidado por teóricos como Alexander Wendt (1992, 1999), argumenta que o sistema internacional é primordialmente moldado por forças sociais, ideias, identidades, normas e cultura compartilhada.

Aplicar o Construtivismo à trajetória de uma banda de rock significa reconhecer que as identidades estatais e sociais não são dadas de forma estática ou puramente geográfica, mas são construídas e reconstruídas continuamente através de interações discursivas e narrativas culturais (Checkel, 1998). Além disso, a abordagem construtivista destaca o papel crucial dos chamados “empreendedores de normas” (norm entrepreneurs) (Finnemore; Sikkink, 1998). Esses atores, que muitas vezes operam fora da estrutura estatal tradicional, são capazes de desafiar discursos dominantes de ódio, militarização ou violência e propor novos valores normativos voltados para a paz, os direitos humanos e a reconciliação.

Cranberries para a teoria construtivista reside na maneira como a banda utilizou sua discografia para navegar, confrontar e ressignificar o contexto político conturbado da Irlanda, marcado historicamente por décadas de conflitos sectários conhecidos como The Troubles (Cox, 2013).

O exemplo mais potente dessa dinâmica ocorre no segundo álbum de estúdio da banda, No Need to Argue (1994) (The Cranberries, 1994). Impulsionada pelo trauma coletivo do atentado a bomba perpetrado pelo IRA em março de 1993 na cidade de Warrington, Inglaterra — que vitimou fatalmente duas crianças —, Dolores O’Riordan compôs a emblemática faixa “Zombie” (O’Riordan, 2017; Buckley, 2019). Do ponto de vista construtivista (Wendt, 1999), a música atua como um desafio direto à norma local dominante de que a violência sectária e a retaliação armada eram caminhos legítimos ou inevitáveis para a afirmação do patriotismo. Na canção, a letra de O’Riordan (“It’s the same old theme since 1916 / In your head, in your head, they are fighting”) faz alusão direta à Revolta da Páscoa de 1916 e explicita o desgaste gerado por gerações presas a um ciclo contínuo de ódio, questionando diretamente o ouvinte sobre o custo humano e psicológico daquele conflito (The Cranberries, 1994; Buckley, 2019).

Ao romper com o silêncio complacente e com a romantização da luta armada, O’Riordan operou como uma verdadeira agente de mudança normativa (Finnemore; Sikkink, 1998). Quando ecoou globalmente nas rádios e televisões do mundo todo, “Zombie” mobilizou milhões de ouvintes a questionarem a desumanização do outro, provando que a música possui agência transnacional (Keck; Sikkink, 1998) capaz de influenciar o debate político e promover normas de convivência pacífica.

A discografia subsequente da banda, presente em álbuns como To the Faithful Departed (1996) e Bury the Hatchet (1999), continuou a abordar temas de introspecção, cura coletiva e críticas às estruturas de poder e à violência (The Cranberries, 1996, 1999). A circulação internacional do grupo por meio de turnês globais massivas funcionou como um vetor essencial de Soft Power para a Irlanda (Nye, 2004). Nos anos 1990, enquanto o país vivia o fenômeno econômico e cultural do “Tigre Céltico”, a projeção internacional de The Cranberries ajudou a deslocar a narrativa global sobre os irlandeses (Checkel, 1998; Cox, 2013). Desse modo, o país deixou de ser visto exclusivamente através da lente da pobreza e do terrorismo sectário, passando a ser associado a uma vibrante modernidade artística, a uma sensibilidade humanista e à profundidade de sua herança cultural.

A trajetória de The Cranberries demonstra de forma contundente que a música e a cultura não estão isoladas da política mundial, participando ativamente da sua construção cotidiana. Através de álbuns marcantes e de canções que desafiaram a lógica destrutiva da violência, a banda utilizou sua projeção global para remodelar identidades coletivas e questionar normas arraigadas de conflito (Wendt, 1992). Sob a ótica do Construtivismo Social, fica evidente que o legado de Dolores O’Riordan e do grupo vai muito além do sucesso comercial nas paradas musicais: trata-se de um exercício profundo de agência cultural, onde a arte serviu para desarmar espíritos e construir pontes em um sistema internacional fragmentado.

Referências

BUCKLEY, Peter. The Rough Guide to Rock. 3. ed. London: Rough Guides, 2019.

CHECKEL, Jeffrey T. The constructivist turn in international relations theory. World Politics, v. 50, n. 2, p. 324-348, 1998.

COX, Michael. Northern Ireland: The Politics of War and Peace. Oxford: Oxford University Press, 2013.

FAIRBURN, RJ. Limerick’s Sonic Legacy: The Rise of Alternative Rock in 1990s Ireland. Dublin: Irish Academic Press, 2020.

FINNEMORE, Martha; SIKKINK, Kathryn. International norm dynamics and political change. International Organization, v. 52, n. 4, p. 887-917, 1998.

KECK, Margaret E.; SIKKINK, Kathryn. Activists beyond borders: advocacy networks in international politics. Ithaca: Cornell University Press, 1998.

MCCAFFERTY, Kate. Dolores O’Riordan and the Sound of Irish Resilience. Journal of Popular Music Studies, v. 30, n. 3, p. 112-129, 2018.

NYE, Joseph S. Soft power: the means to success in world politics. New York: PublicAffairs, 2004.

O’RIORDAN, Dolores. Entrevista sobre a composição de ‘Zombie’ e os impactos de Warrington. In: Classic Rock Magazine Archive, ed. 240, 2017.

THE CRANBERRIES. Everybody Else Is Doing It, So Why Can’t We? [S.l.]: Island Records, 1993. 1 CD.

THE CRANBERRIES. No Need to Argue. [S.l.]: Island Records, 1994. 1 CD. (Contém a faixa “Zombie”).

THE CRANBERRIES. To the Faithful Departed. [S.l.]: Island Records, 1996. 1 CD.

THE CRANBERRIES. Bury the Hatchet. [S.l.]: Island Records, 1999. 1 CD.

WENDT, Alexander. Anarchy is what states make of it: the social construction of power politics. International Organization, v. 46, n. 2, p. 391-425, 1992.

 WENDT, Alexander. Social theory of international politics. Cambridge: Cambridge University Press, 1999.