Ícaro Santos Pereira – Acadêmico do 6° semestre de Relações Internacionais da UNAMA.

Desde o início da operação militar especial da Federação Russa em território ucraniano, ocorreu o retorno dos conflitos entre atores estatais através da guerra de atrito em um território central para o Sistema Internacional, colocando em xeque a estabilidade do sistema, além de acelerar as engrenagens da indústria bélica global e, em especial, do mercado que exerce papel central em toda a forma moderna de guerra: os mercenários.

Os mercenários são utilizados amplamente nos conflitos desde a época em que podemos falar de conflitos humanos. Estes são caracterizados pela lei internacional como soldados estrangeiros não ligados diretamente às forças armadas de uma das partes, designados especialmente para tomar parte em hostilidades e motivados por um ganho financeiro significativo. Estes recebem uma proteção menor da Lei Internacional Humanitária, como através da Convenção de Genebra, que lhes nega o direito ao status de combatente e de prisioneiro de guerra (Artigo 47 do Protocolo Adicional I às Convenções de Genebra) em caso de captura.

Também existem as Companhias Militares Privadas, que, mesmo caracterizando-se pelo recrutamento internacional de soldados e o pagamento de salário, e sendo responsáveis por diversas denúncias de violações dos direitos humanos e mercenarismo, raramente preenchem todos os critérios da acusação e entram em uma área cinzenta da lei internacional. No caso ucraniano, a principal fonte de soldados estrangeiros segue para as estruturas do Estado através da Legião Internacional, sendo reconhecidos como combatentes legais de acordo com a lei internacional, mesmo que cumpram diversos critérios de mercenarismo e tenham seu recrutamento e transporte em estruturas comuns a este fenômeno (ATLANTIC COUNCIL, 2026).

Ao mesmo tempo, observa-se uma disputa normativa em torno da legitimidade da violência, se por um lado a legislação internacional moldada sob a anarquia do Sistema Internacional proíbe o mercenarismo, os atores disputam e esmiúçam dentro desse tecido fabricado por eles em busca de cumprir seus interesses. A Colômbia protagonizou a exportação de combatentes no front da Ucrânia com um fluxo de até 7.000 soldados desde 2022 (FRANCE 24, 2026).

Isso se explica pelo próprio histórico político-militar colombiano: desde os anos 60, o país vive em um cenário de guerra civil entre organizações guerrilheiras de orientação de esquerda — como EPL, ELN, M-19 e, principalmente, as FARC e suas cisões — contra o Estado colombiano, paramilitares e cartéis. Assim, formou-se o cenário de décadas de guerra de baixa intensidade, onde dezenas de milhares de combatentes são incentivados a manterem-se dentro de espaços ligados à guerra e à segurança.

Uma das organizações paramilitares mais bem estabelecidas, a Autodefesas Unidas da Colômbia (AUC), é considerada uma das principais formadoras de quadros militares da Colômbia, exercendo papel de apoio a latifundiários e grandes produtores de drogas da região e contando com apoio direto do Estado de Israel, incluindo a compra de milhares de fuzis para o grupo, estabelecendo-o como “a mais proeminente força paramilitar do hemisfério” (Al JAZEERA; 2003, s/n).

Os combatentes colombianos foram formados na experiência da guerra de contra insurgência, onde a superioridade logística e bélica era enfrentada por operações assimétricas prolongadas, disputa ideológica das populações e táticas de “bater e correr”, que eram respondidas por manobras de cerco e aniquilamento em um ambiente predominantemente de selva. Tal superioridade conseguiu forçar diversas guerrilhas ao abandono da luta armada e à sua inserção na política institucional.

Com sua experiência, os soldados colombianos foram lidos ao redor do mundo como combatentes formidáveis e foram utilizados em diversos conflitos, como nos desertos do Iêmen, favelas do Haiti e savanas do Sudão, todos em conflitos militares nos quais os colombianos são acusados de mercenarismo e crimes de guerra, como o treinamento de crianças-soldados no Sudão (THE GUARDIAN, 2025).

Com o início do conflito na Ucrânia, era de se esperar a participação colombiana, porém seu nível superou as expectativas, fazendo com que os colombianos representassem algo entre 25% e 40% do número de membros da Legião Internacional. Contudo, a situação do front não era a esperada pelos combatentes: se antes eram acostumados a lutar contra uma infantaria leve com táticas de guerrilha, agora enfrentam um exército que dispõe de vantagens nunca enfrentadas, como artilharia pesada, tanques, drones e, em muitos casos, superioridade numérica e logística.

Os números de colombianos mortos variam de 140 a 350, além de ao menos 670 desaparecidos. Além disso, dois colombianos foram presos em território venezuelano e extraditados para a Rússia, acusados de mercenarismo no conflito ucraniano (LE MONDE, 2024). Nas redes sociais, são comuns os relatos de mortes, porém recrutadores relatam não conseguir dar vazão à quantidade de contatos recebidos, juntamente a baixa perspectiva do fim da guerra que deverá contar com uma nova ofensiva Russa durante o outono, somado ao resultado do processo eleitoral colombiano com a vitória de Abelardo de la Espriella para a presidente este sendo um aliado do bloco Ocidental mostra disposição de continuidade do fluxo de combatentes ao Front.

Referências

AL JAZEERA: Israel’s Latin American trail of terror; 2003. Disponível em: https://www.aljazeera.com/news/2003/6/5/israels-latin-american-trail-of-terror

ATLANTIC COUNCIL:Why Colombia’s Veterans are going to War in Ukraine; 2026. Disponível em: https://www.atlanticcouncil.org/dispatches/why-colombias-veterans-are-going-to-war-in-ukraine/

FRANCE 24:Why so many Colombians fighting for Ukraine?; 2026: Disponível em: https://www.france24.com/en/tv-shows/reporters/20260424-why-are-so-many-colombians-fighting-for-ukraine

LE MONDE:Two Colombians who fought in Ukraine will be tried in Moscow on mercenary charges; 2024; Disponível em: https://www.lemonde.fr/en/international/article/2024/09/27/two-colombians-who-fought-in-ukraine-will-be-tried-in-moscow-on-mercenary-charges_6727402_4.html?srsltid=AfmBOoqZLkI4u-MNJZ9SbKwNHpdnwe0R-sFDCoHN3WgRUbXcG6685ueD

THE GUARDIAN: War is a business’: the Colombian mercenaries training Sudan’s child fighters to ‘go and get killed; 2025: Disponível em: https://www.theguardian.com/world/2025/oct/08/colombian-mercenaries-sudan-war?utm_source=substack&utm_medium=email

WENDT, Alexander. Social Theory of International Politics. Cambridge: Cambridge University Press, 1999.