
Amanda Olegário e Thaís Carvalho, internacionalistas formadas pela Unama
Ficha Técnica:
Ano: 2026
Gênero: Ação, Aventura, Drama, Épico
Direção: Christopher Nolan
Distribuição: Universal Pictures
País de origem: EUA, Reino Unido
Dirigido pelo renomado diretor Christopher Nolan, o filme A Odisseia (2026) é inspirado na obra do autor grego Homero, que conta a história de Odisseu, rei de Ítaca e herói mítico da Guerra de Tróia.
O longa-metragem narra a jornada de Odisseu em seu caminho de volta à Ítaca após o fim da Guerra de Tróia. Durante 10 anos, o personagem sofre diversas desventuras e provações que dificultam o retorno a sua terra natal.
Enquanto o herói luta contra monstros e lida com a presença de deuses, em Ítaca, sua esposa Penélope e seu filho Telêmaco enfrentam a presença de pretendentes em seu palácio, os quais buscam tomar o trono tentando seduzir Penélope e conspirando a morte de seu filho.
Para além da trama de Odisseu e da família real de Ítaca, o filme retrata os feitos que ocorreram no episódio da Queda de Tróia, assombrando o personagem principal durante toda a sua jornada.
Nas duas obras de Homero, Ilíada e Odisseia, é descrito que a Guerra de Tróia durou cerca de 10 anos, tendo seu remate com o estratagema astuto de Odisseu: o Cavalo de Troia.
Após um longo cerco, os soldados gregos se escondem dentro de um cavalo de madeira, ofertado como um gesto de paz aos troianos. Quando o cavalo é instalado no interior dos muros de Tróia, os guerreiros gregos emergem à noite para abrir os portões de Tróia e permitir que seu exército saqueie a cidade, levando-a à ruína (Lewis, 2022).
Embora a motivação da eclosão da guerra esteja ligada ao rapto de Helena de Esparta — posteriormente, conhecida como Helena de Troia — pelo príncipe troiano Páris, muitos historiadores consideram que as razões por trás do conflito foram mais estratégicas, possivelmente atreladas ao comércio e ao controle territorial (Lewis, 2022).
Na perspectiva do realismo clássico, por trás de um conflito bélico há interesses econômicos e políticos por parte de variados atores. Sob essa ótica, as guerras não são deflagradas por motivações passionais ou justificativas morais — como o rapto de Helena —, mas sim pela busca incessante pela maximização do poder, controle territorial e garantia da sobrevivência estatal em um sistema internacional anárquico (Castro, 2012).
O ardil de madeira criado por Odisseu para infiltrar o exército grego em Tróia e derrubar a cidade revela a prevalência da pragmática militar e política, corroborando que a dinâmica internacional é estruturada sobre a balança de poder.
Além de poder ser analisado sob uma perspectiva realista das Relações Internacionais, A Odisseia também possibilita reflexões a partir das abordagens pós-positivistas, especialmente da vertente pós-moderna. Essa perspectiva rompe com a visão estatocêntrica ao argumentar que a política internacional não é determinada apenas por disputas de poder entre Estados, mas também pela construção de identidades e narrativas (Castro, 2012).
Nesse sentido, Nogueira e Messari (2005) destacam que a identidade constitui um elemento central para compreender como os atores interpretam o mundo e orientam suas ações, definindo quem pertence à comunidade política e quem é percebido como ameaça ou alteridade.
Essa dinâmica dialoga com o pensamento de Giorgio Agamben (2007), para quem o poder soberano se manifesta na capacidade de instituir o Estado de Exceção, suspendendo garantias jurídicas e definindo quais indivíduos permanecem protegidos pela ordem política. É nesse contexto que surge a Vida Nua (Nuda Vita), condição em que o indivíduo é reduzido à sua dimensão biológica (Zoē) e privado de sua dimensão política (Bios), tornando-se vulnerável à exclusão e à violência.
Na película, essas ideias podem ser observadas tanto na construção do “Outro” quanto no tratamento dado à própria tripulação. A identidade dos protagonistas como “gregos e civilizados” é construída em oposição a figuras como o Ciclope Polifemo e aos habitantes dos territórios visitados, frequentemente representados como exteriores à ordem política dos heróis.
Ao mesmo tempo, em meio ao estado de exceção permanente da jornada, Odisseu assume a posição de autoridade soberana e reduz seus subordinados à condição de Vida Nua. Personagens como Sinon deixam de ser reconhecidos como cidadãos e passam a ser tratados como corpos funcionais e descartáveis, cujas mortes são naturalizadas em nome da sobrevivência e dos objetivos do líder.
Por fim, A Odisseia, de Christopher Nolan, é mais do que um épico sobre o retorno de Odisseu à Ítaca. O longa-metragem apresenta uma narrativa rica em conflitos, relações de poder e construções de identidade que permitem compreender a história para além de sua dimensão mitológica, tornando-a também um relevante objeto de análise para as Relações Internacionais.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
AGAMBEN, Giorgio. Homo sacer: o poder soberano e a vida nua. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2007.
CASTRO, Thales. Teoria das relações internacionais. Brasília: Fundação Alexandre de Gusmão, 2012.
HOMERO. Ilíada. Tradução de Frederico Lourenço. São Paulo: Penguin Classics, Companhia das Letras, 2013.
HOMERO. Odisseia. Tradução de Frederico Lourenço. São Paulo: Penguin Classics, Companhia das Letras, 2011.
LEWIS, Thomas Tandy. Fall of Troy Marks End of Trojan War. In: EBSCO Research Starters: Military History and Science, 2022. Disponível em: https://www.ebsco.com/research-starters/military-history-and-science/fall-troy-marks-end-trojan-war.
NOGUEIRA, João Pontes; MESSARI, Nizar. Teoria das relações internacionais. Rio de Janeiro: Elsevier, 2005.
