Lucas Ávilla – 6° Semestre

          Em um mundo cada vez mais digitalizado, um dos aspectos mais influenciados por esse constante desenvolvimento tecnológico é a economia. Nesta perspectiva, pode-se destacar o PIX enquanto uma revolução para o sistema de pagamentos brasileiro, tendo sido desenvolvido pelo Banco Central do Brasil e sendo capaz de realizar pagamentos em poucos segundos, 24 horas por dia e de forma totalmente gratuita (Banco Central do Brasil, 2026)

Dessa forma, o PIX, enquanto uma tecnologia 100% nacional, cria um destaque à inovação financeira brasileira que se mostra eficiente e capaz a nível internacional. Todavia, o destaque positivo também expõe um contraponto, a visão de um país periférico sendo protagonista do desenvolvimento financeiro, algo que causa relativas tensões no Sistema Internacional como um todo, principalmente no que diz respeito às suas relações com os Estados Unidos da América de Donald Trump, este que alega que o PIX traz “concorrência desleal” em relação às empresas norte americanas do mesmo setor (G1, 2026)

Tendo o contexto em mente, este artigo se apresenta com o objetivo de analisar a evolução do desenvolvimento financeiro protagonizado por um país latino americano, historicamente colocado como periférico, além de apresentar as retaliações recebidas a este país emergente por parte do centro do capitalismo, em especial dos EUA, isto à luz da teoria da colonialidade do poder, desenvolvida pelo teórico peruano Aníbal Quijano.

          A teoria da colonialidade, para Quijano (2005), não se limita ao domínio colonial ou ao colonialismo, mas ela consiste na permanência da lógica e estrutura de poder colonial mesmo após a independência formal das nações, essa lógica pode ser observada na permanência de hierarquias sociais, econômicas e culturais que foram construídas durante o período colonial latino americano, sob o domínio colonial de Portugal e Espanha, e se mantem até a contemporaneidade. Uma dessas estruturas coloniais é o eurocentrismo, onde a experiência civilizacional europeia/norte americana é utilizada como base para conceitos de modernidade e racionalidade enquanto outras sociedades, como o Brasil e toda a América Latina, são classificados como atrasados ou inferiores.

Essa lógica será utilizada no conceito de da colonialidade do poder, onde a classificação racial da população foi fundamental para a organização moderna do Sistema Internacional. Em outras palavras, pode-se afirmar que a colonização produziu uma hierarquia racial onde os brancos são associados a uma posição de superioridade enquanto os negros e indígenas são associados a posições de inferioridade, legitimando assim a divisão internacional do trabalho e contribuindo com a expansão do capitalismo, “Na idéia de raça […] foi assumida pelos conquistadores como o principal elemento constitutivo, fundacional, das relações de dominação que a conquista exigia. ” (Quijano, 2005, p. 117).

          A partir desta teoria, pode-se analisar a situação do PIX como um exemplo factível da colonialidade do poder. O Brasil, como país periférico e latino americano, ao ter desenvolvido uma tecnologia financeira própria e de altíssima qualidade, tensiona a relação esperada de centro-periferia, saindo do papel esperado de dependência tecnológica, portanto, a resposta dos Estados Unidos com ofensiva tarifaria de 25% e o discurso constantemente agressivo de Donald Trump contra o PIX brasileiro (BrasildeFato, 2026), demonstram ser uma resposta para a manutenção do status quo vigente, para que o Brasil se mantenha em posição subserviente ao centro.

          Apesar do PIX ser, em geral, um sucesso entre a população brasileira, ainda assim acaba por ser questionado pela base política de extrema direita, em especial pela base bolsonarista.

As falas do ex deputado federal, Eduardo Bolsonaro, sugerem a troca do PIX pelo Zelle, tecnologia norte americana similar ao PIX (BrasildeFato, 2026), e a sugestão para a tarifação do Brasil acaba exemplificando o ideal entreguista tomado por eles, o que se encaixa bem com a teoria de Quijano, demonstrando a visão tida pelos bolsonaristas de que o Brasil, como país periférico, deveria se comportar como tal, mantendo assim sua posição na divisão internacional do trabalho e se submetendo aos Estados Unidos que, sob essa perspectiva, é quem realmente deve ser o fornecedor de tecnologias e civilização.

          Deste modo, pode-se concluir que a teoria da colonialidade do poder de Aníbal Quijano consegue exemplificar, de maneira eficiente, em como se observa a visão do Brasil no Sistema Internacional enquanto país periférico e emergente e que, ao desenvolver o PIX e tensionar as relações esperadas entre centro-periferia, acaba sofrendo represálias do centro do capitalismo, representado pelos Estados Unidos, o que se encaixa com a teoria de Quijano no que diz respeito acerca da permanência da estrutura colonial mesmo no mundo contemporâneo, isto é, a ideia de que a América Latina deve se sujeitar ao domínio do norte global por ser uma sociedade não branca e “menos civilizada”.

Referências:

BRASIL DE FATO. Eduardo Bolsonaro sugere substituição do Pix pelo Zelle; plataforma dos bancos dos EUA tem serviço limitado. Recife, 4 jun. 2026. Disponível em: Brasil de Fato. Acesso em: 24 ago. 2026.

BRASIL DE FATO. “Tariflávio” e ataques ao Pix viram protagonistas da nova ameaça de Trump à soberania do Brasil. Recife, 3 jun. 2026. Disponível em: Brasil de Fato – O Estrangeiro. Acesso em: 24 ago. 2026.

G1. Por que o Pix se tornou um foco da ofensiva comercial de Trump contra o Brasil? Rio de Janeiro, 14 jul. 2026. Disponível em: G1. Acesso em: 24 ago. 2026.

QUIJANO, Aníbal. Colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina. In: LANDER, Edgardo (org.). A colonialidade do saber: eurocentrismo e ciências sociais: perspectivas latino-americanas. Buenos Aires: CLACSO, 2005. p. 117-142.