Luca Zampollo – 6° Semestre

A diplomacia da Santa Sé atravessa uma de suas transformações mais profundas ao adaptar a sua tradicional “geopolítica da misericórdia” aos desafios do ecossistema digital. No centro dessa virada estratégica e teológica está a encíclica Magnifica Humanitas, promulgada em maio de 2026 pelo Papa Leão XIV. A carta encíclica estabelece o marco regulatório-moral da Igreja Católica para o século XXI.  Situando-se na linha de continuidade da doutrina social iniciada pela Rerum Novarum (1891) e desdobrada pela Laudato si’ (2015), a Magnifica Humanitas aborda a transformação digital não como mero avanço técnico, mas como uma “mudança de época” antropologicamente crítica.

O pontífice utiliza duas imagens bíblicas antagônicas para ilustrar esse momento, uma delas é a Torre de Babel, que representa a quimera do transhumanismo e da eficiência cega, em que a busca por uma auto afirmação ilimitada via algoritmos resulta em desumanização e desigualdade social. A outra alusão é à Reconstrução de Jerusalém, que simboliza a tecnologia da corresponsabilidade ética e da edificação do bem comum.

No âmbito teórico construtivista das relações internacionais, o autor Alexander Wendt, em sua obra “Social Theory of International Politics” (1999), argumenta que o sistema internacional é moldado por ideias, normas e identidades compartilhadas, e não apenas por capacidades materiais militares ou econômicas (WENDT, 1999). A diplomacia do Vaticano exemplifica o conceito de poder normativo, pois ao publicar a Magnifica Humanitas, a Santa Sé atua como um definidor de normas, definindo o que é moralmente aceitável na governança de algoritmos e redefinindo a identidade dos atores estatais na era digital.

O representante diplomático da Santa Sé nos EUA, Arcebispo Gabriele Caccia, reiterou o apelo do Vaticano perante fóruns multilaterais e debates em Georgetown, defendendo a proibição total e o desarmamento de sistemas bélicos controlados sem supervisão humana significativa (ASSOCIATED PRESS, 2023).

Retornando para a vertente acadêmica das Relações Internacionais, agora abordando o meio neorrealista, o pensador Kenneth Waltz, em “Theory of International Politics” (1979), comenta a percepção de que a tecnologia reconfigura o equilíbrio de poder. Sob esta ótica, o advento do ciberespaço e da inteligência artificial introduz assimetrias que desafiam a soberania tradicional e em resposta a isso, a diplomacia vaticana alerta para a vulnerabilidade dos Estados e populações diante do caráter  autônomo e amoral de dados e redes.

Para ilustrar como Leão XIV encontra-se preocupado e empenhado com esta temática da valorização da humanidade, foi criada, pelo próprio pontífice, a Comissão Interdicasterial para a Inteligência Artificial, encarregada de coordenar a política e as diretrizes da Santa Sé sobre governança de informações, defesa da privacidade individual e preservação da dignidade humana. O pontífice também pediu para o Arcebispo Gabrielle Cacia, representante da Santa Sé nas Nações Unidas, discursar sobre este tema durante uma reunião da ONU em Nova York (EWTN News, 2026).

Diferente do veto cego, a diplomacia vaticana adota o engajamento estratégico com o setor privado e organismos multilaterais, com o ecossistema Rome Call for AI Ethics, apoiado por gigantes como Microsoft, IBM e Cisco, além de alguns CEOs do Vale do Silício acompanharem atentamente o documento emitido pela Santa Sé, vendo no texto uma solidez que auxilia as regulamentações éticas além do lucro (ACI DIGITAL, 2024).

Em suma, é inegável argumentar que Leão XIV não considera esta temática como uma prioridade em suas preocupações, é necessário compreender que, como Pontífice, ele detém o compromisso de proporcionar o diálogo entre os povos e Estados do mundo que buscam evitar guerras e auxiliá-los a almejar uma paz comum a todos (PODER 360, 2026).

Tais preceitos encontram-se voláteis com o advento da inteligência artificial cada vez mais presente nas discussões e relações humanas. Apesar disso, é importante notar como pessoas de grande importância no meio tecnológico, como o CEO da Cisco, Chuck Robbins, estão atentas e dispostas a cooperar com o Papa. Desta feita, torna-se crível esperar por um futuro no qual a dinâmica entre pessoas reais prevalecerá em relação ao fator artificial que, nos dias atuais pode representar, para algumas pessoas como um obstáculo para o diálogo humano pleno.

Referências:

Associated Press (AP). “Pope calls for treaty to regulate AI”. AP News, 2023.  Disponível: https://apnews.com/article/vatican-pope-ai-artificial-intelligence-9805fec11681adbf88d3a7c73bdf47de. Acesso em: 16/09/2026.

ACI DIGITAL. CEO da Cisco Systems encontra o papa e assina compromisso de ética para inteligência artificial.  Disponível em: https://www.acidigital.com/noticia/57927/ceo-da-cisco-systems-encontra-o-papa-e-assina-compromisso-de-etica-para-inteligencia-artificial. Acesso: 26/09/2026.

EWTN Vatican. “Vatican Sets Up Commission on Artificial Intelligence”. EWTN News, 2026. Disponível: https://www.eurasiareview.com/12092026-apostolic-nuncio-calls-for-moral-voice-in-ai-development/. Acesso em: 16/09/2026.

PODER 360. Papa Leão 14 pede diálogo para conter guerras no mundo. Disponível: https://www.poder360.com.br/poder-internacional/papa-leao-14-pede-dialogo-para-conter-guerras-no-mundo/. Acesso em: 26/09/2026.

Waltz, Kenneth N. Theory of International Politics. Reading, Mass.: Addison-Wesley, 1979. Acesso em:18/09/2026. Wendt, Alexander. Social Theory of International Politics. Cambridge: Cambridge University Press, 1999. Acesso em: 18/09/2026.