
Foto: Marcio Nagano/SUMAÚMA
Valentina Medeiros Rosas Samuelsson (acadêmica do 2° semestre de R.I UNAMA)
Gabriele Nascimento Ribeiro (acadêmica do 6° semestre de R.I da UNAMA)
O território brasileiro é marcado por disputas territoriais desde o início de sua ocupação. A Amazônia, por ser interpretada muitas vezes na história como um espaço de vazio demográfico, enfrenta diretamente os conflitos agrários, tendo inclusive o Governo Federal como promotor de programas para a ocupação territorial, com destaque para o período nacional-desenvolvimentista ,entre as décadas de 1950 e 1980, em que foi criada, por exemplo, a SUDAM, que utilizava incentivos fiscais para atrair investidores para a região, ignorando a presença de povos que já ocupavam o espaço.
Esse modelo de ocupação incentivou o avanço do capital sobre a Amazônia, gerando desigualdade fundiária. No Marajó, essa lógica se reflete na disputa entre, principalmente, o capital agropecuário e as populações ribeirinhas e quilombolas, que vêem seus modos de vida ameaçados. É válido destacar, no entanto, que o Marajó não pode ser compreendido como um território homogêneo, pois o arquipélago é dividido em três microrregiões atravessadas por realidades distintas.
A Microrregião do Arari, formada pelos municípios de Cachoeira do Arari, Chaves, Muaná, Ponta de Pedras, Salvaterra, Santa Cruz do Arari e Soure, é marcada pela concentração de campos alagados. Por isso, a bubalinocultura representa uma das principais atividades econômicas de Soure, Ponta de Pedras e Cachoeira do Arari (COSTA et al., 2012). Além disso, Soure e Salvaterra se destacam pela atividade turística.
A Microrregião de Furos de Breves, por sua vez, caracteriza-se pela rede de canais e rios é composta pelos municípios de Afuá, Anajás, Breves, Curralinho e São Sebastião da Boa Vista. Entre suas principais atividades econômicas, destaca-se o extrativismo do açaí e pesca, incluindo peixes e camarões.
Já a Microrregião de Portel, situada na parte sudoeste do arquipélago, é composta pelos municípios de Bagre, Gurupá, Melgaço e Portel. Sua economia baseia-se no extrativismo, na agricultura familiar e na pecuária, mas a região também enfrenta desafios, como o transporte irregular de toras de madeira. Em setembro de 2025, uma operação realizada pela Marinha, em conjunto com a Polícia Civil e a Secretaria Municipal do Meio Ambiente de Portel, apreendeu um carregamento ilegal de toras de madeira avaliado em R$ 1.110.000,00, que tinha como destino a sede do município.
Os conflitos agrários no arquipélago do Marajó constituem um fenômeno histórico relacionado à concentração fundiária e às diferentes formas de apropriação do território amazônico. Nas últimas décadas, entretanto, essas disputas passaram a assumir novas configurações em razão da expansão do agronegócio, especialmente da rizicultura irrigada, que se estabeleceu em áreas ocupadas por comunidades quilombolas e outros povos tradicionais.
O estudo de Gomes et al. (2018) demonstra que a chegada de produtores de arroz oriundos da Raposa Serra do Sol redefiniu a dinâmica territorial marajoara, intensificando os conflitos pela terra e pelos recursos naturais. Segundo os autores, os baixos preços das terras, as condições edafoclimáticas favoráveis e o apoio estatal à apropriação dos recursos naturais constituíram fatores decisivos para atrair e consolidar esses grandes empreendimentos agrícolas.
Esse cenário evidencia que o avanço do agronegócio na Amazônia não ocorre de maneira espontânea, mas está diretamente relacionado a políticas públicas, incentivos econômicos e estratégias de valorização fundiária.
Como argumenta Harvey (2004), a expansão do capitalismo frequentemente ocorre por meio da acumulação por espoliação, processo marcado pela privatização de bens comuns, pela expropriação de comunidades e pela incorporação de novos territórios às dinâmicas de mercado. No Marajó, essa lógica torna-se evidente na transformação da terra e da água em ativos econômicos, reduzindo espaços historicamente utilizados por comunidades tradicionais a instrumentos de acumulação de capital.
Essa dinâmica também pode ser compreendida a partir da análise de Polanyi (2021), que argumenta que terra, trabalho e moeda não podem ser compreendidos como mercadorias comuns, pois não foram originalmente produzidos para a comercialização.
Ao serem submetidos exclusivamente à lógica do mercado, esses elementos passam a ser tratados como simples fatores de produção, desconsiderando sua importância social, ambiental e cultural. No contexto marajoara, essa racionalidade favorece a apropriação de rios, campos naturais e áreas tradicionalmente ocupadas por comunidades quilombolas segundo critérios de rentabilidade econômica, intensificando processos de exclusão social e degradação ambiental.
Além da disputa pela terra, o avanço da rizicultura irrigada revela que a água também passou a ocupar posição central nos conflitos territoriais da região. Medeiros e Souza (2025) demonstram que esse modelo agrícola consolidou uma tecnopolítica da água, na qual os recursos hídricos deixam de ser compreendidos como bens coletivos para atender prioritariamente às demandas da produção em larga escala.
Os autores evidenciam que essa dinâmica amplia as assimetrias entre grandes empreendimentos e comunidades tradicionais, além de registrar denúncias de contaminação por agrotóxicos, pulverização aérea irregular e restrições ao acesso à água por comunidades quilombolas.
Dessa forma, os impactos do agronegócio ultrapassam a dimensão ambiental e comprometem direitos fundamentais relacionados à saúde, à alimentação e ao acesso aos recursos naturais.Nesse contexto, o território deixa de representar apenas um espaço físico e transforma-se em um campo permanente de disputas políticas, econômicas e sociais. Conforme afirma Santos (2006), o território corresponde ao espaço apropriado pelas relações de poder, sendo continuamente redefinido pelos diferentes agentes que nele atuam.
No Marajó, observa-se o confronto entre dois projetos distintos: de um lado, um modelo de desenvolvimento orientado pela expansão do agronegócio e pela valorização econômica dos recursos naturais; de outro, comunidades tradicionais que reivindicam o reconhecimento de seus direitos territoriais e a preservação de seus modos de vida.
Apesar da pressão exercida pelo avanço do capital, diferentes organizações da sociedade civil desempenham papel fundamental na defesa dos territórios tradicionais. A atuação de associações quilombolas, movimentos sociais, universidades e da Comissão Pastoral da Terra (CPT) tem contribuído para denunciar violações de direitos, conflitos fundiários e impactos socioambientais decorrentes da expansão agrícola.
O estudo de Medeiros e Souza (2025) ressalta que, além das denúncias, essas comunidades constroem estratégias próprias de resistência por meio da produção de conhecimentos locais, da articulação política e do fortalecimento de redes de apoio, demonstrando que a defesa do território também se fundamenta na mobilização coletiva.
Dessa forma, os conflitos agrários no Marajó revelam as contradições de um modelo de desenvolvimento que privilegia a acumulação de capital em detrimento da garantia de direitos territoriais e da preservação ambiental. Mais do que disputas pela posse da terra, esses conflitos expressam o embate entre diferentes concepções de desenvolvimento e de uso do território.
Enquanto o agronegócio compreende a natureza como recurso econômico, as comunidades tradicionais defendem uma relação baseada na permanência, no pertencimento e no uso coletivo dos bens naturais. Assim, compreender a realidade marajoara exige reconhecer que a promoção da justiça social depende não apenas da regularização fundiária, mas também da construção de políticas públicas capazes de conciliar desenvolvimento econômico, proteção ambiental e respeito aos direitos das populações tradicionais.
Diante do exposto, indica-se o áudiovisual “Salvaterra, terra de negro”, dirigido pela cineasta paraense Priscilla Brasil. A obra produzida pelo Instituto de Artes do Pará (IAP), em 2008, apresenta o cotidiano dos quilombos de Salvaterra, na Ilha do Marajó, revelando contradições e dificuldades enfrentadas por essas comunidades, como conflitos com fazendeiros, a expectativa pela demarcação de terras e sentimentos de abandono e injustiça.
Disponível em: < https://youtu.be/fR1qq3mytEU?feature=shared >
Além disso, recomenda-se também o documentário “Nas Terras do Bem Virá”, de 2007. Obra produzida pelo diretor Alexandre Rampazzo, destrincha a sangrenta história da ocupação da Amazônia. Mostra como o dinheiro investido na região a partir de 1970 gerou concentração de terras, trabalho escravo contemporâneo e assassinatos de camponeses.
Disponível em: < https://youtu.be/ZAH1AJj9cdU?si=epN_nhOe7uoIdzWp >
Por fim, destaca-se o trabalho do Observatório do Marajó. A Organização não governamental acompanha diretamente denúncias de violações de direitos, grilagem de terras, intimidação por homens armados e o uso nocivo da pulverização aérea de agrotóxicos em áreas como Cachoeira do Arari. Além disso, visa fortalecer o espaço cívico e promover a defesa dos direitos humanos, com foco especial nas populações tradicionais, ribeirinhas, quilombolas e mulheres.
Instagram: < https://www.instagram.com/obsdomarajo?igsh=MWRtb3Y2bWJ0ZWU2Nw== >
YouTube: < https://youtube.com/@observatoriodomarajo?si=nCoG-56RVzdkTA15 >
Referências:
COSTA, S. M. F. et al. Pequenas cidades do estuário do Rio Amazonas: fluxo econômico, crescimento urbano e as novas velhas urbanidades da pequena cidade 103 de Ponta de Pedras. REDES: Revista do Desenvolvimento Regional, v. 17, n. 2, p. 56-74, 2012.
GOMES, Dérick Lima; CRUZ, Benedito Ely Valente da; CALVI, Miquéias; REIS, Cristiano Cardoso dos. Expansão do agronegócio e conflitos socioambientais na Amazônia Marajoara. Revista NERA, Presidente Prudente, ano 21, n. 42, p. 135-161, 2018. DOI: 10.47946/rnera.v0i42.5690. Disponível em: https://revista.fct.unesp.br/index.php/nera/article/view/5690. Acesso em: 14 jul. 2026.
Revista FCT.RODRIGUES, Augusto. Operação da Marinha resulta na apreensão de mil metros cúbicos de madeira, no Pará. COM4DN. Publicado em: 07 set. 2025. Disponível em:https://share.google/MV6Bv2Bn9dZHT7zOM.Acesso em: 09 set. 2026.
HARVEY, David. O novo imperialismo. 8. ed. São Paulo: Loyola, 2014.MEDEIROS, Monique; SOUZA, César Martins de. Tecnopolítica e disputas hídricas no avanço do agronegócio rizicultor no Marajó. Revista Eletrônica História em Reflexão, Dourados, v. 21, n. 41, p. 382-409, 2025. DOI: 10.30612/rehr.v21i41.20375. Disponível em: https://ojs.ufgd.edu.br/historiaemreflexao/article/view/20375. Acesso em: 14 jul. 2026.
POLANYI, Karl. A grande transformação: as origens políticas e econômicas de nosso tempo. 3. ed. Rio de Janeiro: Contraponto, 2021.
SANTOS, Milton. A natureza do espaço: técnica e tempo, razão e emoção. 4. ed. São Paulo: EDUSP, 2006.
